Recentemente, li um curioso texto na Internet. Um cronista paulistano perguntava: “Quem conhece alguém que mora no Ipiranga?”. A seguir, discorria sobre o fato de nunca ter conhecido ninguém que morou ou mora no bairro. Também nunca viu nenhuma reportagem no jornal, nem mesmo soube de algum assalto ou seqüestro aqui ocorrido.
O texto muito me impressionou. Após, ironicamente, divagar sobre a possibilidade de o bairro não existir, o autor conclui que, por ninguém dele se ocupar, deve ser o melhor bairro da cidade.
Brincadeiras e ironias à parte, ele tem lá sua razão. O bairro histórico, de tão famoso pelo acontecimento célebre, passa quase despercebido pelos paulistanos. Por mais paradoxal que possa parecer, ao ser lembrado como o palco da (um tanto falsa) independência política oficial do Brasil, não é visto pelos "não-ipiranguistas" como "apenas" um bairro. Parece que, por ter sediado evento tão lembrado, não seja palco diário de manifestações cotidianas. Constitui quase um "universo particular", marcado eternamente pelo grito libertador, e não um bairro como qualquer outro, com suas casas, prédios, escolas, padarias e clínicas.
Com aqueles que escolheram o Ipiranga para morar, acontece o contrário: temos o acontecimento oficial de 1822 absorvidos em nossa mente. Mal percebemos que somos vizinhos da história do Brasil. Afinal, se assim não fosse, como acharíamos normal virar à direita na Rua do Grito, ou reclamar do trânsito nas Juntas Provisórias? Dizer que algo é lá na Rua do Fico também soaria um tanto estranho.
Mas garanto-lhes: somos apenas um bairro. Temos a Rua do Manifesto, a Leais Paulistanos, a Dom Luís Lasagna, a Rua Vemag; uma Vila Carioca, outra Monumento. Temos até um fura-fila, com sua parada "Grito". Temos Heliópolis, a segunda maior favela da América Latina. Temos em torno de quinhentos mil habitantes, se levarmos em conta o Cursino e o Sacomã (subdistrito do Ipiranga).
Sou levado a concluir que, na verdade, o Ipiranga é mais que um bairro. É um estilo de vida que contamina a todos que por ele passam, nos transformando em "ipiranguistas natos". Não nasci no Ipiranga, nem mesmo em São Paulo. Ainda assim, sem medo, afirmo: meu bairro e minha cidade! Será ousadia minha? Espero que não. Não nasci em São Paulo, mas, de alguma forma, São Paulo nasceu em mim. Desde a infância, me levou a projetar minha vida tendo a cidade como pano de fundo. Visitas ocasionais a tios aqui residentes, apenas duas vezes ao ano, serviam de substrato à minha imaginação. O sonho de morar em São Paulo foi, e ainda vai, lentamente, compondo a realidade.
E foi no Ipiranga que encontrei a minha São Paulo. Agora real, mas nem de longe menos fascinante. O que era quase amor platônico, quando eu era criança, transformou-se em feliz casamento já na adolescência. Chegaremos, facilmente, às bodas de ouro.
Alguém duvida que o Ipiranga seja apenas um bairro? A mim, é apenas minha vida.
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