Lendo as andanças do José Carlos Navarro pelo centro da cidade. Veio a minha cabeça o dia que fui escalado para fazer o mesmo. Foi um tormento o dia anterior. Meu Deus, como vou fazer? Só sei ir do Brooklin até o Brás, e nada mais. Caminho tão bem decorado que até de olhos fechados eu ia. Saia às 5h30 da manhã ia até a Avenida Santo Amaro, pegava tanto o 81 Brooklin, como o 79 Santo Amaro, descia no Anhangabaú em frente à câmara municipal, dava sempre uma olhada na estátua de Verdi, subia a galeria Prestes Maia, não sem antes dar uma mijada no banheiro ao lado. Já com escadas rolantes, entrava na Praça do Patriarca, Rua Direita, em frente ao Fasanello (onde sempre tinha um bilhete da sorte), entrava na Praça da Sé, depois Rua Irmã Simpliciana, Praça Clóvis, pegava o Bonde andando que me deixava na Rua do Gasômetro em frente à Rua Monsenhor Andrade, onde ficava a escola Roberto Simonsen, escola do SENAI. Pronto. Seu Mario estava no Brás. Assim como pegava, descia do Bonde andando. Um dia ele estava mais acelerado e lá fui eu rolando ao chão, rolando como uma bola. Estava no vagão da frente o reboque passou zunindo na minha orelha. Carros brecavam. Gritos de filho disso e daquilo. Passado o susto lá estava eu novamente são e salvo sem um arranhão. Bem, mas vamos ao fato de eu estar aqui colocando palavras no papel. Minha tarefa era de levar meu irmão José, de saudosa memória, para tirar carteira de trabalho de menor. O local: Rua Martins Fontes. Meu pai deu uma grande e “detalhada informação”. Fica ali perto da Praça Roosevelt. Meu irmão já estava trabalhando na casa da Bóia, Rua Florêncio de Abreu. Se ainda existir é uma firma mais que centenária. Minha mãe prevendo que eu ia ficar o dia inteiro na rua fez um belo sanduíche de mortadela. O pão era quase um filão. Mortadela umas 250 gramas. Ah! Tinha um ovo frito dentro. Saí da escola às onze horas e em poucos minutos estava eu na Praça da Sé, sentado num banco em frente à banca de jornais, saboreando aquele sanduíche já com pão bastante mole, mas o sabor da mortadela era gratificante. Era o dia 6 de Agosto de 1955. Lembro-me da data por que estava lendo as manchetes dos jornais, e um deles dizia: Morreu ontem em Los Angeles a cantora brasileira e artista de cinema, Carmem Miranda. Logo em seguida vem o meu irmão todo pimpão, porque ia andar por ruas nunca antes imaginadas. Da Praça da Sé fomos a pé até a Rua Martins Fontes. Ali onde começa a Rua Augusta de frente a Praça Rooselvet. Tirou foto, sujou a mão de tinta para por o polegar direito. E usar se caso não souber escrever. O que não era seu caso. Feito essas exigências burocráticas, nos mandaram tirar chapa do pulmão. Era no Clemente Ferreira, na Rua da Consolação. Uma instituição, não sei se do governo. Só sei que era no peito (Grátis). Era uma casa grande de cor amarela, com grades verdes. Enquanto meu irmão esperava a chamada fui até a esquina da Rua São Luis, ver a Rádio América, também um prédio amarelo, a cor preferida dos anos 1940-50. Na volta nos orientaram a voltar por uns atalhos. Sei que viramos a esquerda e direita não sei quantas vezes. A única rua que me lembro era a Rua Avanhandava. Dali fomos parar no viaduto Major Quedinho, onde ao lado num terreno baldio ficavam os furgões de entrega de jornais dos diários de São Paulo e da Noite, de Assis Chateaubriant. Descemos as escadas e estávamos na avenida nove de julho, de onde pegamos o ônibus 152 Vila Olímpia, que nos deixava mais perto de nossa casa.
Gente não sei por que tanto medo no dia anterior. Gostei tanto daquele dia que acabei virando o Andarilho da Paulicéia. Que um dia vai virar livro…