O grande jogo – Parte II

O tempo foi passando, mas o sufoco não. E em uma troca de bola rápida e bem trabalhada o adversário estava dentro da nossa grande área… Bate daqui, bate dali, e pimba… Gol do Santa Clara.<br><br>O goleiro João “Bicudo” até que se esforçou, mas quando chegou, a bola já estava balançando a rede a pelo menos quarenta segundos. Termina o primeiro tempo em 1 X 0 para o Santa Clara. Até que a coisa não estava tão feia, lembra-se que comentavam os técnicos e professores.<br> <br>No intervalo duas substituições foram feitas. Saiu “Topete” e entrou “Soneira”, saiu “Alemão” que estava muito cansado e em seu lugar entrou “Jacaré”. E assim começou o segundo tempo.<br><br>Mas eis que nem bem começou e o Santa Clara fez mais um gol. O time da nossa escola, lembra-se o garoto parecia que estava muito cansado e mais que isso, estavam nervosos e completamente perdidos naquele imenso campo. Quinze minutos do segundo tempo e o placar já estava bem dilatado… Cinco a zero para o Santa Clara.<br><br>Mais ou menos aos trinta minutos começou a confusão. Foi em uma jogada em que o adversário pegou a bola quase no meio do campo, costurou quase o time todo e numa bela tabelinha entrou na área… Vinha crescendo para cima do goleiro quando o nosso zagueiro ouviu o grito, a "ordem" do técnico:<br>- “Vai firme nele Bira, cerca o homem, não deixa ele passar…<br><br>Não foi preciso uma segunda "ordem". Bira sem mandar já batia do primeiro ao quinto, imagine com toda aquela "autorização". Entrou com toda a saúde, com toda a sabedoria e com toda a cavalice que conhecia em cima do moleque. Foi quase um desastre. Foi pena para todo lado… A chuteira do moleque foi parar na bandeirinha de escanteio, o gorrinho ficou enganchado no pé do Bira. A bola espremida subiu tão alta com tanto efeito voando em ziguezague que mais parecia o chicote do diabo. E o moleque ficou ali, caído, deitado no chão.<br><br>Só me lembro que ele falava baixinho:<br> – “Eu quero ir embora, eu quero a minha mãe, ta doendo a perna, ta doendo as costas, tá doendo a cabeça… Eu vou morrer…”.<br><br>Foi a maior correria, uns para socorrer o moleque, outros para pegar o Bira. A coisa ficou feia, e o pau quebrou, era pontapé daqui, tapa dali, empurrão, soco na cabeça, bico no traseiro, sobrou para todo mundo.<br> <br>Ate que os professores de ambos os lados conseguiram acalmar os ânimos. O juiz “Seu Xuim” muito experiente chamou os dois envolvidos na encrenca e pediu para que Bira pedisse desculpas ao adversário. Bira, que não era flor que se cheirasse, se negou dizendo que foi sem querer e que o cara era um chorão e quase o “perereco” recomeça. <br><br>Dessa forma o juiz não teve outra alternativa. Meteu o Bira para fora do jogo, expulsou, o mandou "tomar banho mais cedo". Depois de muita conversa, muito vai não vai o jogo recomeça. E para piorar a coisa para o nosso time ainda marcou pênalti, pois a falta que o Bira fez foi dentro da pequena área… Nosso capitão “Meio Quilo”, vermelho e desarrumado como uma pimenta mastigada, inconformadíssimo com o prejuízo veio correndo pra cima do juiz para exigir dele a devida satisfação. Mas antes que explicasse para o juiz quantos milhos tem uma espiga, “Seu Xuim” soprou com tanta força e com tanta estridência o apito no meio das orelhas que “Meio Quilo” começou a rodar feito um peru bêbado em volta de si mesmo, depois se sentou no chão, e ficou ali coçando os ouvidos por uns dois ou três minutos.<br><br>Por fim “Seu Xuim”, usando da autoridade e experiência que possuía, contou lá dez ou onze jardas em passo bem miúdo, colocou a bola em uma marca que fez com o pé e autorizou a cobrança. Mas antes avisou ao nosso goleiro:<br> – “Se mexer mando bater de novo”.<br><br>A bola foi colocada na marca, quem se prepara para bater era um japonês. Tomou uma distancia exagerada, mais ou menos uns cinco ou seis metros. Veio correndo feito um maluco, Deu uma bicuda com tanta força e com tanta raiva que a bola saiu feito um foguete, parecia até que meio avermelhada. Se o goleiro João “Bicudo” não fosse rápido e se abaixasse a tempo, certamente ela teria lhe quebrado umas duas ou três costelas. Quando olhou para traz ela estava lá, rodando como um pião, soltando fumaça, quase queimando a rede.<br><br>“Meio Quilo”, encrenqueiro como sempre, veio correndo para cima do “Seu Xuim”:<br>- “Não valeu seu juiz, houve invasão de área, tem que chutar de novo”.<br><br>João “Bicudo”, ao ouvir tamanha sandice, saiu correndo de dentro do gol com a bola nas mãos, cabelo todo arrepiado empurrou “Meio Quilo” e foi logo gritando:<br>- “Chutar de novo o cacete. Seu Xuim, não vai atrás desse cara, ele ta maluco. O pênalti foi muito bem cobrado e o gol foi legal, nada de chutar de novo. Use sua autoridade, bote para fora este estúpido sem coração, tome aqui a bola, e que recomece logo a partida”.<br><br>“Seu Xuim” recomeçou o jogo. Bola daqui, bola dali, o Santa Clara fez lá mais uns dois ou três gol e finalmente a partida se encerrou. Os jogadores foram saindo de campo extenuado, mas não deixaram de se cumprimentar. Aquelas velhas frases… Desculpe disso, desculpe daquilo, vocês mereceram… Vocês perderam, mas jogaram bem, etc. e tal.<br><br>Nosso time, juntamente com os torcedores, se dirigiu o lado do campo e subiram no caminhão. E ali ficamos aguardando os professores que conversavam e se despediam dos colegas no meio do campo. Foi quando alguém que ninguém sabe quem e nem porque, de cima do caminhão atirou uma pedra que acertou a testa de um jogador adversário e que ainda estava brincando na beira do campo. Meu Deus do céu. Foi o mesmo que mexer em casa de marimbondo. Começaram a atirar pedra, pau, tijolo, caco de telha pra cima do caminhão, e tudo acompanhado de ofensas e palavrões. Os professores quando viram o acontecido correram para o caminhão. O diretor entrou na cabine e deu a ordem:<br>-“Seu Muzunga, vamos embora que a coisa esta fedendo”.<br><br>“Seu Muzunga” engatou a primeira e foi saindo, bem devagarzinho. E as pedradas, pauladas, estilingada não paravam. Alguém gritava da carroceria:<br>-“Pisa seu Muzunga, pisa nessa “disgrama”.<br><br>Mas seu Muzunga era bem mandado. Inabalável. Se for pra ir devagar, é devagar que se vai… Não importa a situação. E assim lentamente foram caminhando pelas ruas esburacadas e desniveladas, daquele bairro, balançando pra cá balançando pra lá, pedrada daqui, paulada dali, até que chegou ao asfalto, na Avenida São Miguel Paulista. Aí “Seu Muzunga” pisou um pouco mais fundo. A turma adversária foi ficando para trás, mas ainda ouvíamos o barulho das pedras que não alcançavam o caminhão e se esfarelavam no asfalto.<br><br>A guerra só terminou quando o caminhão entrou em uma das curvas da estrada. Fim das pedradas, fim das pauladas e dos palavrões. Que alivio. Alívio que durou pouco, pois foi bem naquela hora logo depois da curva que começou a chuva. E que chuva! Todo mundo sabe como são as chuvas de dezembro. Os pingos eram do tamanho de um prato. Logo começou a ventar, a chuva engrossou. “Seu Muzunga” ali, na mesma batidinha de sempre. O vento assoviava com tanta raiva que parecia que ia levar embora os pelos das orelhas.<br><br>Ficou tudo escuro, era relâmpago, trovão, parecia que o mundo ia acabar. Chegamos a sentir saudade das pedradas. Todo mundo abaixado em cima da carroceria. Os pingos ardiam nas costas, quase não conseguíamos respirar… Que borrasca. E assim foi todo o caminho. Não parecia que nossa escola era tão longe. Não chegava nunca. E o caminhãozinho foi indo, bem devagar, levando em sua carroceria um amontoado de sonhadores, um amontoado de valentes e que naquela hora o que mais queriam era estar ao lado de suas mães, protegidos pelos muros e pelas paredes de suas modestas casas.<br><br>Terminando uma grande ladeira o caminhão saiu da estrada, pegou a rua de terra, subiu uma ruazinha estreita, virou a direita, virou a esquerda e chegou à rua da escola. Quando de longe a avistamos a euforia foi enorme. Que alegria. Parecia que estávamos indo ao encontro de um parente querido e que há dez anos não víamos. E ela de longe nos saudava sorrindo com os braços abertos, com suas bandeiras agitadas tremulando ansiosas como que querendo ir a nosso encontro. Quando estávamos chegando bem perto do portão, Meio Quilo e mais alguns jogadores começaram a cantar o velho e conhecido "hino da vitória", e que se não me engano era mais ou menos assim:<br><br>"Viramô tico-tico<br>Viramô sabiá<br>Viramô o adversário<br>De pernas pro ar.<br>É canja, é canja, e canja de galinha<br>Arruma outro time<br>Prá jogar com nossa linha<br>É um, e dois é três, é goooooooool”<br><br>E logo todos estavam cantando e repetindo os mesmos versos.<br><br>Chegando, “Seu Muzunga” parou o caminhão bem em frente ao portão da escola. Todos desceram molhados da chuva que agora dava uma trégua. Suados, sujos, cansados, mas todos alegres.<br><br>Quando entramos no pátio fomos recebidos pelos professores que não tinham ido ao jogo, encaminhados e orientados fizemos uma fila na varanda, em frente a porta da cozinha. Aí foi que a festa começou. Para a nossa surpresa foi nos servido um enorme lanche… Pão recheado com creme de amendoim e uma caneca de chocolate quente. Que maravilha, que delícia! Tenho certeza de que nunca mais ninguém daquela turma comeu com tanto gosto e com tanta emoção um lanche gostoso como aquele. Ninguém mais se lembrava do jogo, nem das pedradas, nem da chuva. Ninguém mais se lembrava do “Seu Xuim”.<br><br>Lembra-se o menino que do resultado do jogo nem ele e ninguém mais se recorda… Mas do resultado daquela tarde de chuva de vento forte do chocolate quente e de muitas risadas ele nunca mais esquecerá. Muitos anos se passaram e muitos irão se passar, mas com certeza vai se recordar sempre daquela manhã, e que o resultado foi: Alegria 5X0 Tristeza<br><br><br>E-mail: [email protected]