Bar do Leo, 11h de um sábado recente. Meu amigo Sampaio chega à famosa esquina da Rua Aurora, em companhia de alguns conterrâneos. O pessoal tinha vindo do norte para conhecer algumas das maravilhas da Pauliceia, das quais tanto ouviam falar.
– “Queremos ver a tal de 25 de Março!”
– “Que 25, que nada, vocês vão a um lugar realmente maravilhoso!”
E lá foram eles. Para dar com a cara na porta. Ou nas portas, de aço, fechadas. Duas pessoas sentavam-se à beira da calçada, com ar desconsolado. O bar estava fechado. A esta hora?
Saíram de dentro alguns funcionários, com ar confuso, de quem perdeu todo o rumo.
– “Que aconteceu?”, inquiriu meu amigo.
– “Fechou. O Leo foi fechado pela Prefeitura!”
Surgiram depois alguns detalhes: irregularidades nas contas, operações ilícitas e, pasmem, problemas sanitários.
Nesta altura da narrativa, o queixo quase caiu-me no prato de bacalhau a Zé do Pipo, que degustávamos na Casa Portuguesa, na Rua Cunha Gago.
– “Pois é, Saiden. Minha reação foi como a sua. Só faltou também sentar-me na calçada do boteco, e fazer coro à choradeira geral”, disse o Sampaio.
Fechou! O boteco dos botecos paulistanos, 70 anos de tradição que o faziam um ícone, quase um monumento histórico, “tombável” pelo Patrimônio. Fechou, para nunca mais. Lembrei-me de quando trabalhava ali perto, na Senador Queiroz, e íamos almoçar no Leo quase todos os dias. O lendário garçom Luís, baixinho, de cabelo já todo branco, mas com enormes e negras sobrancelhas conhecia-nos a todos. Já de entrada era saudado por ele: -Senta aqui, Xará!
E sob os vitrais coloridos, ao lado dos lambris de madeira da parede, ao abrigo de sua enorme e antiguíssima chopeira de cobre, degustávamos nossos canapés, tendo um inigualável chope como início dos trabalhos. Tirado na medida exata pelo sócio Laercio, que no fim do ano ainda nos mandava em casa um cartão natalino, com o timbre do leãozinho. Saí da região, mas o Leo continuou ali progredindo, cada vez mais famoso, a ponto de servir de protótipo e modelo a muitos bares que surgiram depois.
O Bar do Nico, o Frederico e muitos outros copiaram seu cardápio e estilo. No Frederico existia até – não sei se ainda há – uma caricatura do garçom Luís na parede, declarando assim abertamente sua admiração pelo velho Leo.
Pois é, fechou. Excesso de confiança, sede desmesurada de lucros? Como aqui basta ter um pezinho no sucesso para virar um templo do dinheiro, administrado muitas vezes por fariseus, creio que o Leo demorou, mas perdeu suas raízes genuínas e simples, quis passar para mega instituição, ou algo assim.
Não sei se realmente foi isto, mas de qualquer forma acabou não dando certo. 70 anos de reinado, e, de repente, fechou. Uma imperdoável perda para nossa cidade. Mais uma, sempre mais!
Notícia de se perder o rumo, como aconteceu com seus antigos e agora abandonados funcionários, como os encontrou meu amigo, naquela velha esquina da Rua Aurora.
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