A religião pode consolar

Nunca fui religioso. Quando conversava com alguém que frequentava alguma igreja, evangélica ou não, eu ficava com uma certa piedade do sujeito… pensava: como podem acreditar nessas coisas?

Uns dois anos depois de eu ter amputado a perna direita, ainda com raiva do mundo e não tendo uma fé onde pudesse me apoiar, passeava eu por uma calçada na Vila Sabrina e na minha frente caminhava uma senhora distribuindo uns folhetos que até aquele momento eu ignorava do que se tratava. Quando passei em frente a um açougue, um rapaz sentado em um caixote levantou-se e me entregou um daqueles papéis que, com certeza, havia recebido da senhora aqui citada. Li o que estava escrito: “Venham conhecer o deus vivo em nossa igreja…”. Aproveitei para desabafar com o rapaz que não tinha culpa nenhuma dos os meus problemas físicos e perguntei:

– Deus, por acaso vai me dar uma outra perna?

O rapaz muito calmo respondeu:

– Não, Deus não vai lhe dar outra perna, mas ele vai lhe dar consolo suficiente para que você possa viver muito bem com apenas a perna que lhe resta.

Foi o que realmente aconteceu. Hoje eu vivo muito bem sem dinheiro, sem amigos, sem religião e sem a perna direita. Deus deve realmente existir, embora ainda não tenha aparecido alguém que possa explicar dentro do parco conhecimento da humanidade como a coisa funciona. Nenhuma igreja, seita, loja, padre, mestre, pastor, missionário possui o conhecimento que possa confirmar a presença de Deus. Somente as pessoas humildes e de boas intenções podem sentir, imaginar e transmitir o que possa ser Deus em nossas vidas.

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