O Parque do Ibirapuera me é bastante familiar. Desde criança por lá andava, início dos anos 1950. Geralmente de bicicleta era tudo aberto, não havia cerca ou grades. Eu, que sempre morei pelas proximidades, ia sempre por lá dar umas bandas de bicicleta, e também levado pelo anúncio do rádio que a Portuguesa de Desportos treinava onde seria o parque, num campo bem gramado pelas imediações do instituto Biológico. Éramos felizardos em poder ver grandes craques como Djalma Santos, Brandãozinho, Pinga, Muca, Julinho, Renato.<br><br>Tinha o lago, que recebia as águas do córrego do Sapateiro, vindo lá da Vila Mariana. Tinha uma estradinha asfaltada e estreita que levava os veículos pela Rua França Pinto, passando pelo instituto biológico, posteriormente Avenida Rodrigues Alves, em direção à Rua Domingos de Moraes. <br><br>Para nós, o nome era a Vila Puéra. Quando minha mãe disse que o nome correto era Ibirapuera, para nos soou estranho, pois Vila Puéra já estava incorporado ao costume da pronúncia. Quando chegou o ano de 1952, já se falava em construir os prédios para se formar o centro das festividades do IV Centenário, que estava por dois anos. A cada ano que ia passando, a gente contava como se fosse uma contagem regressiva.<br><br>Em 1952, se dizia que a cidade de São Paulo estava festejando o trecentésimo nonagésimo oitavo ano, depois o trecentésimo nonagésimo nono, para depois chegarmos ao quadricentésimo ano de vida. Ou seja, o tão decantado quarto centenário, que se escrevia em algarismo romano os números iniciais. <br><br>Aquele que era nada mais do que um matagal, virou um canteiro de obras. Muita gente, entre engenheiros, mestres de obras e obreiros, construía os prédios e a enorme laje. Era comum ver lá o governador Lucas Nogueira Garcez e o prefeito Jânio Quadros inspecionando as obras. Logo em seguida, estavam montando o Monumento às Bandeiras, o chamado empurra, empurra, de Victor Brecheret.<br><br>As emissoras de rádio se faziam presentes quando as autoridades por lá estavam. Vi Tico Tico e Murilo Antunes Alves. A reportagem da TV Tupi sempre mostrava o andamento das obras pelo noticiário do repórter Esso, à noite. Dentro do parque, outra obra estava sendo feita: era num barracão ali construído, que um italiano de nome Galileu Emendabile, sempre de roupa suja de reboco e tinta, construía os blocos que seriam o Mausoléu aos Heróis de 32. Quando o parque estava sendo inaugurado, o mausoléu ainda estava cercado por andaimes e sua inauguração foi feita bem depois.<br><br>Era intenção das autoridades inaugurarem o parque no dia do aniversario, 25 de janeiro, mas as obras estavam atrasadas e durou mais sete meses. No dia 21 de Agosto de 1954, se deu a inauguração. Estava eu com meus irmãos e minha mãe, adentrando o parque pelo portão numero nove, pela Avenida Indianópolis, que hoje é Republica do Líbano, passando pelo lado do lago onde tinha o restaurante aquático, com uma parte adentrando as águas do lago, onde também se alugava um barquinho tipo pedalinho para umas voltas nas águas do lago.<br><br>Depois de passar pela ponte, entrávamos pelo primeiro edifício que, por muitos anos, ficou sendo o gabinete do prefeito a partir de 1957 – idéia do prefeito Adhemar de Barros. Andando sob a grande marquise, ia dar na Oca, depois o prédio da Bienal, que deu o que falar pelo modernismo, que o povo conservador ainda não se acostumara. Modernismo que teve seu início tímido em 1922, na celebre Semana Modernista, inspirada por intelectuais, artistas plásticos e músicos, tendo à frente os escritores Mário e Oswald de Andrade.<br><br>Mais adiante, a grande área destinada às feiras. Salão do Automóvel, Salão da Criança, Fenit, Feira da Mecânica Nacional e muitas outras, organizadas pela agência Alcântara Machado. Dando a volta pelo lado oposto, tinha o Salão Japonês e, por fim, o Planetário, uma das grandes atrações do parque. <br><br>Na marquise, tinha o Museu de Cera em que, quando fui, na excursão da escola, paguei o maior mico. Para não ficar na enorme fila do guichê, fui no guichê ao lado. Fiquei por alguns segundos e nada de a moça me atender. Só depois que eu vi que ela era de cera. Como eu era burro! <br><br>Mais ao fundo, próximo onde ficava o salão destinado às feiras, tinha o parque Sangrilá, semelhante ao Playcenter, da Marginal do Tietê. Muita atração tinha aquele parque: montanha russa, roda gigante, mas a atração mesmo era o tapete mágico. A gente subia bem alto e depois descia sentado no tapete, numa canaleta encerada em espiral, até chegar em baixo, onde uma espécie de bacia te recebia.<br><br>Enfim, o Ibirapuera estava começando; seria o parque dos nossos encantos, dos nossos namoros. Quantas vezes a lua cheia foi vista por pares encantados com a lua. Sei lá, com a vida, com o companheiro, ou quem sabe com as belezas que o parque já mostrava.<br> <br>Infelizmente, nem tudo eram flores. Onde o amor devia prevalecer, o ódio, a inveja ou a falta de amor de alguns, a violência, também fizeram parte da história do aprazível local de diversão. Lazer, e por que não dizer amor, tiveram seu brilho empanado pela violência. Estupros aconteceram e, pior, corpos apareceram boiando nas águas do lago.<br><br>e-mail do autor: [email protected]