O carrinho de Rolimã

Os rolimãs conseguidos depois de percorrer várias oficinas mecânicas do Paraíso, finalmente estavam comigo e tinham o valor de um troféu conquistado.

Agora a primeira coisa a fazer era chamar meus irmãos Paulinho e Cassinho para na garagem da casa da Rua Abílio Soares arquitetar os planos de construção de um carrinho de madeira com duas rodas no eixo traseiro e uma única, maior, no eixo dianteiro que daria dirigibilidade ao veículo.
É isto mesmo eixo traseiro e dianteiro era assim que os meninos do bairro falavam.

A oficina mecânica de onde vieram os rolimãs, ficava na Domingos de Moraes, ao lado do Colégio Ipiranga, ali perto do largo Guanabara onde havia o bebedouro dos cavalos.

Para chegar até a oficina, percorri a Bernardino de Campos até o fim, atravessei a Thomaz Carvalhal em frente a mansão da “Família Splendore”.
Segui pela calçada, vi a Santa Generosa à esquerda, o depósito de bananas a minha frente e o ponto com uns quatro carros de praça aguardando freguês.

A oficina em questão dava manutenção aos carros daquela época, os Chevrolets Belair, os Fordões 50 51, os Pontiacs os Mercuries os Dogdes e os sofisticados Oldsmobiles, todos carros importados.
Era lá que o meu Tio Nico levava o Studbaker. Aquilo sim que era um automóvel.

Os rolimãs bons para fazer os carrinhos vinham da transmissão destes carrões americanos. Isto também falado pelos meninos do bairro.

A madeira para o chassi um pedaço de tábua de pinho, usada nas formas de coluna de concreto, era material muito comum no nosso bairro onde sempre tinha um edifício em construção.
O tamanho da tábua era aproximadamente 90 cm de comprimento por 20 cm de largura.
Estas medidas eram obtidas a serrote e não podia faltar o corte do bico, em forma de V para caracterizar a frente do carro. Para os eixos das rodas sarrafos de pinho também material de construção. A madeira foi toda ela da obra do prédio de apartamentos que dava fundos para o nosso quintal.

Os pregos, Ah! Os pregos. O Papai tinha alguns, mas não serviam. Ou eram muito grandes ou muito pequenos. A solução encontrada foi catar no chão, no final da feira livre que acontecia na Rua Desembargador Eliseu Guilherme. Pregos das caixetas de frutas que feirantes desprezavam. Estes pregos tinham o tamanho certo.

Ainda faltavam duas coisas muito importantes: um parafuso de uns 15 cm com porca e arruelas e fazer um furo no bico do carrinho para montar o eixo da frente.

O parafuso tinha em casa. Era remanescente de um balanço de madeira cujos caibros de peroba rosa ainda estavam lá de baixo da escada da garagem. O parafuso estava enferrujado e com a porca muito apertada o jeito encontrado foi deixá-lo de molho dentro de uma lata, embebido em óleo de cozinha, por um dia e uma noite para depois com ajuda do grifo inglês e do alicate desapertar a porca e liberar também as arruelas que por sorte faziam parte do conjunto.

Agora só faltava fazer o furo no bico da tábua, mas como? Não tínhamos uma furadeira. Talvez um arco de pua com uma broca grande.
Ficou no talvez, pois, o buraco foi feito na raça. Um prego grande, o martelo e um pequeno formão foram usados para conseguir fazer o furo no tamanho certo, sem estragar a madeira.

Uma semana de trabalho e o carrinho estava pronto.

Não custou um centavo. Custou a imaginação, os improvisos e o tempo que era um recurso interminável naquela fase da vida.

Lá pelo final dos anos 60, a Av. 23 de Maio estava quase pronta, o asfalto sentido Rua Cubatão / Obelisco do Ibirapuera novinho novinho.
Eu estava cursando o último ano do curso científico e preocupado com o vestibular.
Meus irmãos ainda moleques construíram nosso derradeiro e último carrinho de rolimã. Que delícia, descer aquela ladeira de asfalto novinho.
Isto aconteceu nas férias de julho. Dois meses depois a avenida foi inaugurada. Acabou a brincadeira e rapidamente nos tornamos adultos.

Hoje passo todo dia naquele trecho da 23 de maio, lá pelas 18:30, aquele congestionamento, velocidade de 10 Km/ h.
O carrinho de rolimã andava muito mais que isso pelo menos um 30 por hora.

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