O apreciador de novelas

Quando eu era criança já ouvia novelas no rádio. Nem se cogitava em ter novelas na televisão que estava se iniciando com a Tupi, canal 3. Depois veio a TV Paulista canal 5 e em 1953 a Record canal 7. Mas era o rádio o dono das novelas. Tinha até uma emissora que só transmitia novelas o dia inteiro. Era a PR A 5, rádio São Paulo. Uma das escritoras famosas era Ivani Ribeiro.
Como eu ia pra escola e depois só jogava bola, novelas durante o dia nem pensar. Mas à noite na rádio Cultura tinha novelas. E eu ficava de ouvidos colados no rádio.
Era às 19 horas depois do programa seqüência das seis, que tinha Ronald Golias fazendo suas estripulias. Naquele tempo ele era também Aqua Louco. Um grupo de rapazes que faziam loucuras nas piscinas.
Quem escrevia as novelas da rádio Cultura era Fernando Balleroni, marido de Laura Cardoso. Falecido em 1973.
Eram novelas que caiam no gosto do povo. E, num horário em que as pessoas já estavam em casa vindo do trabalho. Então a audiência era grande. E a dona do lar fazia a janta ouvindo a novela.
Quem deu a partida para as novelas da televisão, foi a TV Excelsior, canal 9, em 1963. Com o Slogan “Eu também estou na Excelsior” a emissora contratou um elenco milionário. A maior parte vindo da TV Tupi, que sempre pagou salário baixo. Com dinheiro vindo do banco Bozzano Simonsen, a classe artística se viu num outro patamar em termos de salário. E a TV Excelsior mandou na audiência.
A primeira novela era um número de telefone: “2-5499, ocupado”. Escrita por Tito di Miglio, contava o drama de uma presidiária que trabalhava como telefonista na própria cadeia, e se apaixonou por um homem que não sabia de sua condição. Glória Menezes e Tarcísio Meira eram os protagonistas da trama. Foi a primeira experiência em vídeo tape, alcançando o maior sucesso. A Colgate-Palmolive encampou as novelas, além do patrocínio, passou também a exigir o melhor dos Scripts. Isto porque o crescimento dos produtos de cosméticos foi muito grande dado o sucesso que as novelas estavam provocando. A partir daí passou a contratar pessoas que dessem o melhor do seu trabalho. Uma contratação de peso foi Gloria Magadan: vinda dos Estados Unidos. Era especialista em novelas, ditou regras sobre os enredos nacionais.
Depois veio Ambição. Também com Tarcísio, só que seu par romântico era Lolita Rodrigues. Já a terceira novela da Excelsior foi a Moça que Veio de Longe, estreando o artista de cinema na televisão Helio Souto. Sua parceira na história foi Rosa Maria Murtinho. Que era justamente a moça que tinha vindo de longe, e tinha a participação de Gilberto Sálvio, cujo personagem era o cara ruim e malvado da novela.

Uma tarde para dar maior impacto na novela colocaram na sacada da TV Excelsior, que dava para a Rua Nestor Pestana, Helio Souto e Rosa Maria, para se beijar. Foi aquele beijo esfuziante. Mauro Mendonça marido de Rosa Maria, perguntado de como tinha visto aquela cena disse:
– Senti algo estranho correndo pela minha espinha dorsal.
Foi uma novela que deixou muita saudade. Era baseada numa história verídica dos estados Unidos, em que uma empregada de Nelson Rokeleller se apaixonou pelo patrão.
Na história da novela a moça (Rosa Maria Murtinho) que se apaixonava pelo patrão, Helio Souto, galã que deixava as moçoilas loucas de paixão e que na vida real ele (já falecido), na época, se casou com Maria Helena Morganti, filha do fazendeiro que tinha usinas de fabricação de açúcar (Açúcar Morganti).
A TV tupi, para não ficar atrás, também começou a fazer novelas. E tinha um belo cast de atores e atrizes, que faziam o TV de Vanguarda aos sábados à noite. Um teatro ao vivo. Mas não em capítulos. Pois ainda não se tinha o recurso do vídeo tape (teipe).
O TV de Vanguarda tinha aqueles artistas iniciantes, que fizeram parte da inauguração da TV de Assis Chauteaubriant. Lima Duarte, Norá Fontes, sua nora Suzana Vieira, Valter Foster e Vida Alves, faziam parte do elenco da emissora do alto do Sumaré.
Aliás, dizem que foi a Tupi quem fez a primeira novela em 1952, com aquele beijo que escandalizou o Brasil. Mas, na verdade, foi um arremedo de novela que nem final teve. Não Passou daquilo.
Mas a Tupi não era páreo para a TV Excelsior. Perdia de longe no IBOPE. Tinha a Tupi grandes Scripits em novelas e bons atores e atrizes. Toni Ramos, Eva Wilma, Carlos Zara, Luis Gustavo, Sergio Cardoso, Antonio Fagundes, na novela O Machão. Nino o Italianinho, com Juca de Oliveira, Manoel Maria com Sergio Cardoso eram temas que pegava duas colônias a, italiana e a portuguesa e mesmo assim não encostava, na Excelsior, que tinha um carisma impressionante.
Mas foi em 1964, que a Tupi deu uma tacada de mestre para tentar desbancar a TV Excelsior. Colocou no ar uma novela de autoria de um escritor cubano, Felix Cagnet, que já havia sido radiofonizada no início do ano 1950. O DIREITO DE NASCER. Teve a participação de Paulo Gracindo. Era a história de Albetinho Limonta, que era representado por Hamilton Fernandes, que tinha Mamãe Dolores, e que também ficou por muito tempo no ar. Esse autêntico dramalhão, arrancou lágrimas de muita gente. Albertinho Limonta filho ilegítimo de uma freira e apaixonado por uma prima. Ninguém sabia de nada a não ser a mãe adotiva, a negra mamãe Dolores, meiga e compreensiva. Depois de muito enrolar, pois a novela estava sendo esticada, a festa de encerramento foi no ginásio do Ibirapuera.
Em 1965, a TV Excelsior recebeu um tremendo golpe. O governo militar do qual o proprietário da TV, Mario Simonsen, era adversário político, e não fazia a linha dos governistas, ficou na alça de mira do governo. Um jornal publicou que haveria intervenção na TV Excelsior. Os artistas faziam apelos à população, por apoio. Edson Leite, corajosamente, numa espécie de editorial, dizia a um dos detratores que mataria o cidadão com seu revólver. E a coisa parou por aí. Nada demais aconteceu, até então.
E foi nesse período que a TV Excelsior colocou a novela que mais tempo ficou no ar. Redenção. Que tinha Rodolfo Mayer (o prefeito) Márcia Real (esposa), Mirian Meller (Ângela), Francisco Cuoco (médico), Lelia Abramo e Vicente Leporace, pais de Ângela. Durante de dois anos essa novela esteve no esteve no ar. Quando Redenção completou o capítulo de número 400, Lolita Rodrigues arrumou uma tremenda confusão envolvendo o diretor da novela Waldemar de Moraes. Quando o fato chegou ao conhecimento direção da emissora Edson Leite e Alberto Saad foram ver o que estava acontecendo. Aí que se ficou sabendo que era uma brincadeira com o diretor pelos 400 capítulos. Waldemar quase morreu do coração nessa brincadeira.
Quando a Excelsior apresentou a novela Fera Indomável, a novidade foi a estréia de Regina Duarte nas novelas. Até então, ela só tinha feito filmagens de propaganda da Kolinos.
Em 1970, quando o governo militar achou que a TV Excelsior já estava por demais, cassou a concessão e os artistas em sua maioria foram para a TV Globo que ainda engatinhava nas novelas.
Tinha Véu de Noiva, O Xeique de Agadir, Verão Vermelho. Já contando com Tarcisio Meira e Gloria Menezes.
Mas o impulso mesmo para liderar a audiência no ramo de novelas, veio com Irmãos Coragem em 1970, a primeira grande história assinada por Janete Clair. Com a TV Excelsior fora, a Globo reinou praticamente sozinha, pois a Tupi já dava mostra de estar a beira da falência, o que aconteceu dez anos depois. Nas grandes empresas sempre foi assim. Faltou o chefe, a empresa caiu. E o chefe era Assis Chateaubriant Bandeira de Mello. Depois disso a Globo pegou no breu com as novelas. Em 1972, já era uma febre. Começou a ter o merchandising, os discos, com as trilhas sonoras. A Som Livre, de Walter Clark, o grande executivo da rede Globo.
Nesse ano veio mais uma novela de Janete Clair. Selva de Pedra. Já estávamos no período que até os homens chegavam cedo em casa para não perder o capítulo, e torcer contra a personagem de Diná Sfath, que era a malvada da história e que judiava da personagem de Regina Duarte.
Em 1973 veio a novela que mostrava que os folhetins estavam em fase de revolução. Cavalo de Aço. O cavalo era uma moto pilotada por Tarcísio Meira, que tinha como a mocinha da história Gloria Menezes. Foi uma novela que despertou paixões, e pela primeira vez nas novelas tinha o segredo de quem matou alguém?
E aquele alguém era o Velho Max. Senhor Maximiliano, interpretado pelo grande ator Ziembiski. Como mais tarde vieram Salomão Haialla e Odete Reutmanm. Estava sendo uma grande novela. E para muitos o foi.
Mas para mim o autor cometeu um erro grasso. Uma coisa que jamais aconteceu nas novelas. Talvez deva ter sido uma distração, que passou batido. Quando a novela estava indo para seu final, a expectativa do público era querer saber quem tinha matado o velho Max. Na bica para matar aquele velho prepotente que enchia o saco de todos estava o personagem de Tarcísio Meira, a personagem de Glória Menezes, Atílio personagem de Carlos Vereza e mais um ou outro. Todos estavam escondidos no jardim, por trás de árvores e plantas.
O interessante é que ninguém via o outro como pretendente em matar o velho. A futura vítima estava na sua enorme sala de estar e estava conversando com sua amiga personagem de Arlete Sales, que era sua hóspede.
Nisso ela se despede dele e vai dormir. Seu quarto ficava na parte de cima. Depois que ela entrou no quarto, ouviu-se um tiro. Ela, assustada, abriu a porta e deu um grito. Desceu a escada e foi socorrer o velho Max. Chamando por socorro.
Daí pra frente, por muitos capítulos, ficou aquele negócio. Quem matou o velho Max? E esse papo foi até o último capítulo. As apostas eram de que a personagem de Gloria Menezes seria a autora do tiro, porque era ela que mais ódio tinha do velho.
E no último capítulo veio a bomba. Quem matou o velho Max foi justamente a pessoa menos indicada para ser a autora do tiro. A personagem de Arlete Sales.
Se depois do tiro ela abre a porta e fica assustada por ver o amigo caído ao chão, jamais poderia ter sido ela a autora do tiro.
No Jornal Nacional do dia seguinte, o autor da novela que não me lembro o nome, foi entrevistado. Perguntado por que ele escolheu a Arlete Sales como assassina, ele respondeu:
– Qualquer um podia ser o assassino. E eu optei por ela.
Acho que ele se esqueceu de ver a gravação do capítulo anterior.
Daí para frente passei a não ser muito fanático por novelas.

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