Nas tardes da Vila Olímpia, não havia como sair do trabalho sem passar pelo bote do Celestino sem dar um tapa no beiço. O boteco do Celestino anos antes era Mercearia Algarve, do seu José Ignácio Alves, pai de Antonio e do Zé, que jogavam comigo no Flamengo da Vila. Ambos tinham apelido de Marta Rocha, pelo fato de terem pernas bonitas. Eram pernas roliças e lisas. Mas nenhum deles era tido como homo sexual, pelo contrário, tanto um como outro andavam muito bem acompanhados. No boteco do Celestino reuniam sempre os que jogavam no Flamengo e membros da parte diretiva. Era ali que ficava a lousa onde eram anotados os adversários do Flamengo e repousavam as taças ganhas pelo clube. Malvino, Carioca, Dilú, Zé gaiola, Álvaro, Celestino padeiro, e José Ângelo (Zé caipirinha) eram fiéis às pingas da tarde, que moviam a alegria e a boca mole de onde saiam fofocas mil. O que mais se falava ali era de chifres. E como tinha chifrudo naquele pedaço da Avenida Cardoso de Mello. Só num quarteirão contava–se dez. Lideradas por dona Rosa, tida como professora de iniciantes. Ela era nova, seu marido, Mane sapateiro, era uns 20 anos mais velho do que ela. Ela gostava de rapazes novos. Tinha uma filosofia: essa rapaziada quanto mais a gente dá, mais eles querem. Sua filha muito linda também. Zé caipirinha era o pião das fofocas e das piadas. Contava cada história que a gente pensava que era mentira, mas sempre tinha gente confirmando que era verdade. Numa ocasião, um domingo de 1975, jogavam São Paulo e Atlético Mineiro pela decisão do campeonato brasileiro no Mineirão.<br>Zé caipirinha era um sãopaulino roxo, estava cabreiro porque Serginho Chulapa não ia jogar por estar suspenso. Por outro lado também Reinaldo do Atlético mineiro não ia jogar por estar machucado. Com o jogo em desenvolvimento, e ele à frente da televisão, com um canudo de ferro colocando pólvora e socando com uma vara, ficava xingando os sãopaulinos que não marcavam gols, e os adversários que davam pontapés. O jogo estava acabando e ele ainda não tinha terminado de socar a pólvora, e posto o pavio. Mas o jogo acabou empatado e foi para a prorrogação que terminou empatada. Teve as penalidades. Aí deu tempo de acabar seu trabalho de mais de cento e vinte minutos. Ia ser batido o ultimo pênalti, Toninho Cerezo deu um chutão e a bola foi por cima. São Paulo Campeão.<br>Zé caipirinha do seu Apartamento do segundo bloco da Rua Alvorada, com suas janelas para a Avenida dos Bandeirantes, colocou fogo no pavio e mando para baixo. A peça caiu no pátio, deu um tremendo estouro.<br>Foi um susto muito grande para os moradores, uma verdadeira correria pelas escadas abaixo. O síndico se antecipou. Pode crer que foi aquele louco do José Ângelo. Outro não faria uma coisa dessas.<br>E as histórias rolavam, Zé Caipirinha estava contando pela décima vez o caso do Dirceu que estava com um homem pelado no chuveiro usando a parte traseira para satisfazer seu companheiro. Nisso chega sua esposa com as filhas da escola e deu o maior flagra. Também ela já tinha chifrado ele com pelo menos dois.<br>Até com os cachorros, contava ele, sem um riso nos lábios, talvez curtido pela pinga. Celestino o dono do bar era na verdade leiteiro. Entregava leite na zona Oeste da cidade de São Paulo. Tinha um ajudante. Na parte da manhã deixava sua esposa e filha tomando conta do bar, para poder entregar o leite Leco de quem era contratado. Quando a esposa não estava por perto ele contava vantagem. Sabe, eu tenho super potência. Necessito de no mínimo três mulheres para me satisfazer. Na verdade quem viu de perto, disse que ele tinha até mais. De manhã quando estava entregando leite, fazia suas visitas a ela, em seu apartamento antes de a amante ir para o trabalho, enfermeira que era do Hospital das Clinicas. Às vezes seu empregado entregava leite sozinho e ele na maciota lá, ou na cabine do furgão com outra. Mas sua potência começou ficar abalada quando conheceu Lola, tremenda mulata, miss colorede, do time do Café do Ponto ali da estrada da Boiada (Rua Diógenes Ribeiro de Lima).<br>Começamos a ver Celestino mais magro, rosto chupado. Seus casos anteriores já tinham sido desprezados. Lola era a dona do bastão. E como brincava ela com o bichinho dizia ele todo garboso. Quando o carro tremia, ele ficava com medo que algum guarda civil chegasse e os prendessem. Na casa de Lola não podia ir. Quem quebrou o galho foi a cunhada dela. Desquitada, saía cedo para pegar o “busão” para o trabalho. Então ela cedia sua casa. Ele um dia teve que colocar um pano na boca dela senão acordava a vizinhança em plena madrugada. Que mulheraça aquela mulher, dizia ele rindo a toa. De repente vimos o homem tomando Caracu com ovo, e com casca e tudo. A casca do ovo tem cálcio, era a lenda. A mistura era chamada de caracalcio. Os ingredientes: Caracu, Ovos, mais Açúcar, eram misturados no liquidificador. Segundo as línguas levantava o moral mais do que a flautinha Árabe. Ovos de Codorna também faziam parte do seu cardápio. Ypê roxo. Água Oxigenada. Cynar, que tinha alcachofra. Tudo que se dizia de afrodisíaco, Celestino mandava pra baixo. Íamos de segunda a sexta feira no boteco, às 18 horas, horário de saída do trampo.<br>Mas o bicho pegava mesmo era na sexta feira, que se celebrava a véspera de um bom final de semana. Nesse dia ia um português feirante, levava sardinhas para assar na brasa. Somente ele conseguia tirar a sardinha da grade sem que ela ficasse grudada. E tome sardinhada, regada à pinga da boa, que o Celestino ia buscar em Bom Sucesso, na via Dutra.<br>Numa dessas sextas feiras a alegria foi estancada por ladrões que foram assaltar o estabelecimento. Limparam todos que estavam no bar. Lá se foram relógios, correntes de ouro, medalhas. Só não mexeram com Silvio, que era dono da mecânica do lado. Ele estava de macacão todo sujo de graxa, tomando uísque. Momentos antes de os ladrões entrarem, a mulher do Celestino tinha retirado do caixa dois milhões de cruzeiros, da entrega do leite e mais feria do dia do bar que estavam no caixa.<br>Dali do bar os ladrões levaram 200 cruzeiros em dinheiro. Quando eles estavam saindo um deles pegou cinco cruzeiros e deu para o Silvo. Tome companheiro, paga sua cerveja. Você é um trabalhador que nem “nóis”. Justamente o Silvio, que era o que mais dinheiro tinha no bolso, duzentos e cinqüenta cruzeiros.<br>Foi um riso geral quando os ladrões já tinham saído. Quando a filha de Celestino se casou com Cláudio Deodato, que era zagueiro do São Paulo, Celestino se mudou para Santos. Um dia estava com o caco cheio e foi atropelado na avenida que passa beirando a praia. Morreu.<br><br>e-mail do autor: [email protected]