Pois é, O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE! Dia desses, chegava eu a São Paulo, Cidade, grudado à janelinha do Cometa, buscando colher saudades por onde passasse. De repente, não mais que de repente, o trânsito parou. Algo bem normal, afinal era São Paulo e corríamos (?!) pela Marginal. Só o que não mais se fez normal foi o meu coração.
Ah, ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU CORAÇÃO, quando cruzo a Marginal e a James Holland! E foi bem ali que o Cometa parou. Dois segundos? Dois minutos? Não sei! O que sei é que pouco depois o Cometa voltou a rodar, levando consigo, sentado na poltrona onze, meu corpo, ainda grudado à janela. A Alma, esta, aproveitando a parada, descera.
Ainda bem que ela não se faz visível a qualquer um. As almas só se vêm quando gêmeas e se por acaso alguma estivesse vendo a minha naquele momento, a caminhar pela Rua James Holland, compreenderia o porque daquele andar meio malandro, malemolente, como que a sambar suavemente. Afinal, sendo gêmea, ela certamente se revestiria de romance, se apresentaria boêmia e estaria também a ouvir, naquele instante, VIOLÃO, PANDEIRO, TAMBORIM NA MARCAÇÃO E RECO-RECO. Se gêmea da minha, essa alma que então me via, também teria a lhe conduzir o tal do TELECOTECO.
E foi andando que EU PROCUREI, PROCUREI E ACHEI a quadra do meu coraçao. QUANTO RISO, OH, QUANTA ALEGRIA já vivera ali, sempre em meio a mais de mil pessoas no salão. Quadra cheia, SAMBA, SUOR E CERVEJA a não mais acabar. Loiras se fazendo mulatas; pés “quadrados” sambando desinibidos; ALEGRIA SOLTA PELO AR.
Diferente essa vez! Tantas idas àquele templo de culto à fantasia, de louvor à Felicidade e nunca antes sentira aquela sensação de angústia, aquele travor boca a dentro, aquela inesperada e desmontante desilusão. O som ainda fluía, mas era como se a ele faltasse energia, como se não tivesse vindo o repinique, como se coubesse perguntar – ONDE ESTÃO OS TAMBORINS, Ó NÊGA?!…
Caiu a ficha! Sim, a mosca da tristeza havia picado a Escola dona daquele barracão. E FOI NO CARNAVAL QUE PASSOU. Mas… ainda? Afinal, as ÁGUAS DE MARÇO já haviam fechado o verão! Como se pudesse me fazer ouvir, imaginei gritar bem alto: Ô gente, O QUE PASSOU, PASSOU! E O QUE PASSOU NÃO DÁ MAIS PRA VOLTAR, NÃO. Não é hora de desanimar. Maninho, Toninho, Tobias e não Tobias (como diria Shakespeare, se na Barra Funda houvesse nascido), a gente PRECISA DE SAMBA; DE SAMBA PRÁ GENTE SAMBAR!
Ah, TRISTEZA, POR FAVOR VÁ EMBORA! Eu sei que é triste; também EU CHOREI, NA AVENIDA, EU CHOREI! NÃO PENSEI QUE CAIRIA A ESCOLA QUE EU TANTO AMEI, amo e sempre amarei. É duro, mas temos que esquecer. E se lembrarmos, chegar somente até o desfile e recordar: – ah, MINHA ESCOLA ESTAVA TÃO BONITA… ERA TUDO O QUE EU QUERIA VER!!
Eu, pra não sofrer, não chorar, DEIXO A VIDA ME LEVAR, buscando forças, reagindo sonhando. E esse SONHO MEU VAI BUSCAR QUEM MORA LONGE, quem já mora lá no Céu: o MULATO, a DONA SINHÁ… E lá, ao lado de Narainã, em meio à passarada a revoar, juntos relembramos os velhos carnavais de outrora. E isto não me deixa desanimar.
Nossa Mocidade não é de desistir e muito menos nossa Velha Guarda, nosso presidente Maninho e todos os que vestem a alviverde Camisa. – Eu quero BOTAR MEU BLOCO NA RUA! – nosso novo grito de guerra. A furiosa vai de novo arrepiar!
Vamos dar vez ao Samba e na condução do Hernane, TODA A CIDADE VAI SAMBAR. A quadra vai de novo JOGAR ÁGUA PRÁ FORA, a alegria vai se espraiar ATÉ O DIA CLAREAR. Parece até que eu TÔ SÓ VENDO, SABENDO, SENTINDO, ESCUTANDO E NÃO POSSO FALAR; TOU ME GUARDANDO PRA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR.
Sim, virá logo outro carnaval e nossa Escola vai desfilar. E NESSE DIA, ENTÃO, VAI DAR NA PRIMEIRA EDIÇÃO: O CAMISA VERDE E BRANCO É DE NOVO CAMPEÃO!!!
Algo me disse, então, que meu grito não haveria de ter sido em vão. Não tinha sido à toa que Deus houvera feito o Cometa parar bem ali, em frente da Rua James Holland.
E foi assim que minh’alma voltou voando para dentro do ônibus, ainda a tempo de se recorporificar, antes que a Rodoviária se fizesse meu chão e me retornasse a razão, aquela mesma ali de cima, do começo deste… será que foi um sonho?
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