Falar de minha cidade causa prazer e emoção. Lembrar fatos de minha infância no Brás é, no mínimo, lembrar uma São Paulo esforçando-se pra ser uma grande cidade. Sempre faço comparações com outras grandes metrópoles; pouco lembro da década de 1930, muito na de 40, de 50 fortes recordações.
Em 1938 falecem, na família, meu avô Vito, meu tio Santo e minha tia Maria, dois irmãos filhos do meu avô e irmãos de meu pai. Um ano difícil.
Na década de 40, com início e término da segunda guerra mundial e queda da era Vargas, tomo conhecimento de tudo e de todos, lendo nos bondes "São Paulo, o maior centro industrial da América Latina", maior exportador de café do mundo, começa a mexer comigo.
Na sala de jantar, minha mãe apanha o pão com respeito clerical, faz o sinal da cruz sobre o filão, beija-o, fatiando em seguida, recolhe as migalhas na toalha e pulveriza-a sobre os pratos servidos, não permitindo que nada seja jogado fora. Se por ventura cai uma fatia no chão, com manteiga, ragu ou azeite, nossos principais ingredientes nos lanches, ela diz "não coma, o diabo lambeu, joga no forno" (a lenha, de casa). O pão, sobre a mesa deve ser sempre colocado na mesma posição em que sai do forno, a parte que aflora pra cima.
Esse respeito, essa adoração pelo pão, é uma tradição antiqüíssima; considerado alimento divino, não só por ser metáfora do corpo de Jesus, tempo em que já era o principal item na alimentação, mas por estar inserido em vários momentos da história da civilização, o primeiro alimento manipulado pelo homem.
Agora, quando o assunto é roupas, calçados e médicos pra família, o senhor Bartholomeu, meu pai, tem preocupações coletivas, nada de individualismo, com nove filhos tudo tem que ser no atacado. Com relação a médicos, graças a um bom Deus, nenhum de nós manifesta problemas que demanda constantes consultas médicas, nada mais grave que um sarampo, coqueluche, glândulas inflamadas etc. Vestidos, minha irmã Ana já está na escola de costura, cuida da parte feminina. Parte masculina, assim distribuída: ternos, Ao Empório Toscano, na ladeira General Carneiro; durante a guerra muda de nome pra A Metropolitana; calçados, só nas Casas Clark, na Rangel Pestana, encostada nas porteiras do Brás, que só vende o que fabrica na sua grande indústria da Moóca, burzeguim ou botas é o que meu pai arremata pros quatro filhos homens. A Clark não fabrica sapatos pra mulher e a única a utilizar o meio-ponto, isto é, o número não vai direto ao seguinte, 39, 39 e meio, 40, 40 e meio etc.<br>Barbeiro, dá até raiva; o cabelo cresce, vou ao barbeiro, o Paschoal, na rua do Lucas, sento na poltrona e leio no degrau (começo a ler as primeiras palavras) "Metalúrgica Ferrante". Peço um corte "americano", Paschoal raspa tudo, deixando só uma franjinha, ordens do senhor Bartholomeu, que é quem paga. Pra me consolar vou até o ferreiro da Rua Álvares de Azevedo, hoje Polignano a Mare, ajudar no alforje, movimentando o fole que alimenta o fogo da fornalha. O ferreiro tem um filho, bronco de tudo, com 25 a 30 anos, estúpido, grosseiro, respondão que aceita ajuda dos garotos da redondeza; gosto de ver o ferro em brasa, formando a ferradura, malhando a peça enquanto vermelha do fogo, até esfriar. Puxo o fole, pro fogo não morrer, o ferreiro, Tunico, discute, responde mal e briga com o pai, exibe seu físico brilhando de suor, cuidando do fino bigode e da vasta cabeleira negra, emplastada de gordura, penteia sempre só as laterais, deixa a parte de cima os cabelos encaracolados, descuidados, numa espontânea composição. Essa cabeleira é que me faz pensar, por que meu cabelo não é assim? É só deixar crescer e pentear pra trás, mas quem vai convencer o Paschoal de que a cabeça e o cabelo são meus e a vontade de aparar é minha? Ele sorri e passa a máquina zero.
Na minha modesta expectativa, isso não basta. Rio de Janeiro é a capital federal, a maior população do país, onde, por força de sua beleza natural, convergem os (poucos) olhos do mundo inteiro. Música popular, Carmem Miranda pra Holiwood, sinfônica, (até hoje chama-se Orquestra Sinfônica Brasileira e não do Rio de Janeiro, estadual, como nos outros centros…) rádios, (a do Ministério e Educação e Cultura, MEC do governo federal, só se ouve lá; se você tiver ondas curtas… aí sim). O Rio impera, ainda.
Resolvo dar uma guinada. Se meu pai tivesse acompanhado o irmão, indo pra Nova York, aí sim, mas, estou aqui, vamos arregaçar as mangas e ajudar esta metrópole se erguer, acima de tudo e de todos, em qualquer atividade.<br>Faço os quatro anos do primário no "Romão Puigari", tenho que freqüentar escola noturna, de dia não dá mais, com 13 anos preciso trabalhar. Largo a escola comercial, "30 de outubro", 1 ano depois, não agüento, durmo. Só me resta escolas profissionais e sempre lendo. Deixo os gibis, minha "praia" agora, são novelas policiais, "O Detetive" e o "X 9" e, pouco depois a grande revista de policiais e de mistérios: "Mistério Magazine" do Ellery Queen, da editora Globo, de Porto Alegre e daí pros romances, foi um passo.
Estou fazendo a minha parte, trabalhando, em fábricas de calçados, fazendo horas extras, minhas irmãs em idade de casamento, preciso ajudar a fazer o enxoval delas e sempre lendo, lendo, lendo…
Após o Senai, vou trabalhar na fábrica de calçados "Brasil", na rua do Hipódromo, no Brás, onde seu proprietário arregimenta funcionários quando vence uma concorrência de fornecimentos de botas pro exército. Após cumprir com o contrato, o senhor Jaques manda todos os recém contratados embora, inclusive eu e meu amigo Antonio Iraola.
Nesta fábrica conheço um fervoroso postulante ao mundo artístico, Luiz, sonha em ser ator de teatro. Alto, magro, esguio, com bronquite atroz, fuma dois ou três maços por dia, tossindo e escarrando o dia todo, nos convida, a mim e ao Iraola, pra fazer uma ponta no circo Sarraceno, localizado no Tatuapé, especializado em representações teatrais.
Luiz, por seu interesse, está sempre as voltas com atores amadores, que buscam ou aguardam uma chamada pra um bico aqui, ali ou acolá, pra representar em teatro, cinema ou em comerciais. Desta vez, devido a proximidade da Semana Santa, a peça é a representação da Paixão e Morte de Jesus Cristo.
Eu, com 16 anos, sonhando sempre, além de maestro, grande jogador de futebol, exímio esgrimista, escritor, boxeador, atleta e dançarino, falta em minha "extensa e brilhante carreira de um "factótum" de araque, a de ator de cinema e teatro. Aceito o convite. (Talvez um caçador de talentos me veja atuar… quem sabe!) O Iraola, também. Sem nenhuma remuneração, nem passagem de bonde. Entrar no circo sem pagar, já vale.
Pensei que o Luiz fosse fazer o papel de Jesus, mas já tinha outro no seu lugar e ele não gostou muito. Quando chegamos ao circo, nossa, que decepção. O Luiz já tinha nos prevenido de que o dono do picadeiro era um senhor de idade avançada, apaixonado da arte circense, que não aceita o passar dos anos; circo-teatro não atrai mais público do que um jogo de futebol varzeano.
Luiz faz o papel de Caifaz e quando questiono sobre as falas, (não ensaiamos nenhuma vez) Luiz responde "vocês não vão falar nada, vão só mexer a cabeça, pra frente, concordando, vão ser os Doutores da Lei, tá?
Começo da peça, trapos, como arremedo de cortina, se abre… o público, se é que se pode chamar de público, 35 ou 40 pessoas, dentre os quais, 6 ou 7 garotos que distribuem os programas durante a semana, (retângulos de cor rosa ou verde, de 15 por 40 cm, muito usado na época).
No papel de um dos apóstolos, está um robusto balconista da 25 de março sentado na ponta da mesa da Última Ceia e quando Jesus fala que "um de vocês vai me trair", surpreende a todos, esse apóstolo, rechonchudo, bem nutrido, levanta em sinal de protesto e quando volta a sentar, é um estrondo só. A cadeira não agüenta seu peso e se despedaça toda, jogando o futuro Marlon Brando no chão, puxando a toalha e os objetos colocados na mesa, os outros apóstolos não conseguem segurar, pelo menos um sorriso, sequer, até Judas cai na gargalhada e Jesus procura de toda forma manter longe a ironia que a cena desperta.
No final, a crucificação, momentos de dor e contrição, desenrola-se as falas das mulheres, nisso o senhor Sarraceno, a "sota-você" sussurra pro maestro do pequeno conjunto musical, (violão, bandolim, saxofone, baixo e pequeno conjunto de caixas a guisa bateria): Godô, música, pô, música, cáspite. Godofredo, desatento ao desenrolar do drama, responde, sussurrando, também: é pra já. E toca um grande sucesso do Guerschwin, "pararala, pararala la la pampam," o baterista que sonha em ser Gene Krupa, arranca repiques, cruzando palhetas num ribombar contagiante. Cristo agoniza, com ele, o senhor Sarraceno, que só melhora quando a música para.
A peça está prevista pra três dias, voltamos no dia seguinte e, na hora do início, o senhor Sarraceno, retrato vivo da angústia, vai ao palco, voz embargada, dirige-se aos 5 ou 6 espectadores, numa atitude soberana diante de uma triste realidade: "Prezados senhores e senhoras, distinto público, por motivos de força maior, somos obrigados a suspender a função de hoje e a de amanhã; sem correria e algazarra, vamos devolver o valor de cada entrada". Cabeça baixa, deixa o palco para nunca mais voltar.
Na nossa juventude, eu e o Iraola, rimos bastante do ocorrido, passo um bom tempo contando pra familiares e amigos, gozando minha experiência na carreira artística, não levando em conta que, minha lúdica interpretação sobre o acontecimento, provoca risos e gargalhadas nas galhofas dos atores, até me dar conta que, pra este senhor Sarraceno não há ironia alguma, a tristeza e angústia que seu rosto transmite, é o grande final de uma vida dedicada a arte circense, o apagar das luzes da ribalta, traz, em vida, a morte anunciada, no decorrer dos últimos espetáculos que esse homem proporciona e que jamais quis acreditar.
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