O balançar do pessegueiro

Quando terminei o primário no Grupo Escolar "Gomes Cardim", em 1965, a alegria não cabia dentro de mim, pois eu não via a hora de fazer parte da turma do Ginásio Estadual "João Ernesto de Souza Campos", o "JESC", no Cambuci. Era a turma dos grandes, eu já havia saído da turma dos pequenos, e isso era muito orgulho pra mim, pois já tinha doze anos. Eu poderia começar a ir sozinho para o ginásio, minha mãe não precisava mais me levar, pois eu já estava no "ginásio", e era o que eu fazia todas as noites.

Por volta das 19h00, ao ir para o ginásio, eu passava em frente a um prédio na Rua Basílio da Cunha, esquina com Avenida Lins de Vasconcelos, e, do outro lado da calçada, havia um pé de pêssegos, que ficava beirando o muro do ginásio.

Certa noite, notei que havia alguns pêssegos, e resolvi subir no pé para apanhá-los. Qual foi a minha surpresa que olhando para o outro lado da calçada, ou seja, onde estava o prédio, percebi que havia uma janela aberta no primeiro andar, e uma moça de 25 a 30 anos, aproximadamente, estava se trocando.

Aquela situação me deu um frio na barriga que eu não sabia se apanhava os pêssegos, se eu descia da árvore, enfim, eu nunca havia presenciado tal situação. Não comentei nada com ninguém, e, no dia seguinte, eu não via a hora de ir para o ginásio.

Praticamente no mesmo horário, subi na árvore, e eis que a moça novamente estava lá se trocando. Isso ocorria todas as noites, pois creio que ela deveria chegar do trabalho próximo daquele horário, tomar banho e se trocar.

Isso se seguiu por um bom tempo, até que em uma noite, tive a brilhante idéia de contar para os meus amigos do ginásio o que os meus olhos contemplavam todas as noites. Os meus amigos me rodearam, me senti importante, pois até os mais velhos se interessaram pelo que estava ocorrendo, até que contei onde ficava o pessegueiro.

Na noite seguinte, quando cheguei e vi aquele pessegueiro balançando, aquele monte de gente em cima da árvore, percebi que a festa logo iria acabar. Não tinha um lugar para eu pôr os meus pés nos galhos da árvore, de tantos amigos interessados em apanhar pêssegos. Era um tal de "fica quieto", "não faz barulho", "a mulher vai ver", e até que a mulher viu mesmo. Ela, olhando pela janela, vendo aquela árvore balançando, um monte de molecada descendo e correndo para o ginásio, só restou fechar a janela.

Na noite seguinte, no mesmo horário, e com a esperança de ver aquela moça novamente, vi que a janela estava fechada. Todas as noites eu passava e não via mais a janela aberta, e tudo pelo balançar de um pessegueiro.

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