Ontem, mais uma vez, tive que chegar ao centro desta São Paulo de todos os paulistanos. Para corrigir um pequeno contratempo bancário, fui obrigado a me deslocar até a Praça Clovis Bevilacqua, que nos dias atuais está definitivamente geminada com a Praça da Sé e com a Praça João Mendes. É ali, no inicio da Avenida Rangel Pestana, que está instalado o grande quebra-galhos da administração pública, o nosso “Poupa Tempo”. Excelente ferramenta dos tempos atuais, onde serviços públicos de todas as esferas podem ser agilizados de forma real sem nenhum ônus maior.
Pois bem, fui fazer o que precisava e, depois, vendo o adiantado da hora, conclui que não seria necessário retornar ao escritório. Decidi, então, me permitir uma nova incursão memorativa ao passado.
Saí do prédio onde está instalado o Poupa Tempo, atravessei a Avenida Rangel Pestana, na altura em que outrora havia ainda, de forma real, a Rua Anita Garibaldi, e avancei no sentido da Rua Roberto Simonsen. Lembrei-me que, antigamente, na calçada limítrofe entre a praça e essa rua, era o ponto final dos bondes que iam para a zona leste, muito utilizados por mim nas minhas andanças de office-boy.
Entrei. Então, na Rua Roberto Simonsen, procurei por um prédio pequeninho onde outrora, no primeiro andar, estava instalada uma fabriqueta de gravatas que muito ajudou na composição da minha elegância. Para lá me dirigia sempre que estava de posse de uma nova fatiota e, com um retalho da fazenda com que o terno havia sido confeccionado, eu escolhi as fazendas com que seriam encomendadas as gravatas que combinassem com o terno. Dois dias depois, a encomenda estava pronta e eu poderia sair com a roupa combinando com os adereços.
No lugar do prédio e da fabriqueta, agora só estacionamentos feios e mal cheirosos. Que pena! Mais adiante, depois da esquina da Rua Wenceslau Brás, onde antigamente estava instalado o tradicional Restaurante Barsotti, deparei com a mansão da nossa Marquesa de Santos, devidamente fechada e em obras de restauração.
Lembrei-me que ali, no passado mais recente, estava instalada a Delegacia Central de Polícia, para onde eram encaminhados os meliantes aprisionados e, no carnaval, os foliões mais afoitos que ali ficavam até o meio-dia da quarta-feira de cinzas. Essa ocorrência era aguardada por muitos. Era gozado de assistir, em pleno primeiro dia da quaresma, então respeitadíssima, os indivíduos, ainda fantasiados, ganharem as ruas, uns envergonhando outros, mais liberais, brincando com a situação.
Vi, ainda, os prédios que circundam o Pátio do Colégio, com sua beleza antiga em contraste com os arranha-céus da atualidade.
Desci a Rua Boa Vista e fui embarcar no metrô no Largo São Bento, não sem antes dar uma olhada na esquina da Rua Libero Badaró com o referido largo e buscar, na memória, a imagem gravada do antigo prédio, onde estava instalada a Rádio Bandeirantes, e da adega fronteiriça desse prédio. Por muitas vezes, junto com meu pai e na companhia de alguns “astros” da rádio, entre eles o querido Vicente Leporace, enquanto tomava um refrigerante, assistia-os bebericar taças de vinho acompanhadas com queijo gorgonzola, que eles catavam com os dedos de cima do balcão de mármore branco, inclusive os bichinhos que comprovavam a autenticidade da iguaria.
Desci, depois, os meandros do metrô, e fui embora, embalado pela saudade.
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