Memórias em flash

Começo aqui dizendo que, atualmente, estou morando em Campinas, no interior paulista, mas nasci e cresci em São Paulo. Vivi nesta cidade até 1982, quando dei baixa no exército, indo morar em Campo Grande, MS. Morei um tempo também no sul de Minas Gerais e em Barretos. Durante todos esses anos, nunca vou me esquecer de fatos interessantes que vivi. Dos sentimentos que deixei em São Paulo, dos cheiros, dos sons, do passo rápido que todo bom paulistano tem, que cultivo até hoje… (para desespero de minhas filhas).

Essas coisas ficam enraizadas na gente! Eu me lembro que quando trabalhava nas Indústrias Votorantim, no prédio antigo ao fundo do Teatro Municipal, costumava ficar nas horas vagas, ou na hora do almoço, observando o que podia do terraço do prédio. Eu trabalhava no último andar. No oitavo. Não era alto, mas podia observar a Praça Ramos de Azevedo e boa parte do Vale do Anhangabaú.

Tenho saudades de todas as épocas e fases. Quando eu era pequeno e minha mãe limpava meus olhos com um lenço molhado em saliva, junto a um daqueles postes de iluminação antigo, com o brilho do asfalto molhado refletindo as luzes ao chão.

Daqueles pontos particularmente obscuros por entre as pontes e viadutos constantemente cheirando a urina. Não qualquer ponte ou viaduto, mas o do Chá, ou Santa Ifigênia, além das passarelas.

Quando voltei, depois de uns dez anos, e cheguei na cidade, por incrível que pareça, aquele cheiro do Tietê não me desagradou como eu acharia que poderia acontecer. Eu respirei fundo e me lembrei da infância. Eu sei que parece loucura, mas eu me senti bem com aquilo. Minha companheira estranhou muito. Eu acho que o que sinto por essa cidade tem muito disso… Muito de visão, de cheiro, de sentimentos.

Do Horto florestal com aqueles cisnes, e aqueles parques espaçosos que íamos no fim de semana. Das grandes avenidas com os movimentos estonteantemente constantes. Do sufoco no interior do túnel da 9 de Julho. Eu posso dizer que já atravessei a pé esse túnel e sobrevivi. A sensação é de quem está nascendo quando chega no fim.

Eu sei que, para muitos, isso pode parecer masoquismo, mas o que posso fazer? Eu gosto de explorar todas as nuances, todos os aspectos dessa cidade. Alguns anos atrás, eu fui com meu irmão ao Metrópolis (acho que é esse o nome do lugar, fica na Paulista) e, após algumas cervejas e um som ensurdecedor, saímos e, quando eu estava no meio do canteiro central da avenida, tive que subir em um murinho e tentar abraçar a cidade ao meu redor. Uma chuvinha fina me acertava o rosto. Meu irmão me chamou a atenção, mas depois viu como eu gostava de estar ali. Não estava embriagado, mas me achava mais livre para exteriorizar o que sentia.

Nasci na Lapa, morei na Casa Verde, mais precisamente no Imirim. No final dos anos 70, fui muito ao Ibira de moto. Aliás, nessa época, deixei constantemente partes de meus joelhos e cotovelos nas ruas e avenidas. Ainda tenho algumas cicatrizes.

Acho que já passei por quase todas as provações que um bom paulistano passa diariamente. Trabalhei como ofice-boy, peguei ônibus e metrôs lotados (daquele tipo que, se tirar o pé do lugar, não consegue mais colocar de volta). Já me enfureci em congestionamentos, respirei resíduos de gás lacrimogêneo após alguns distúrbios na cidade. Já sofri com enchentes – e foram muitas vezes -, perdemos muitas coisas com elas. Já tossi bastante com a poluição, mas também já conheci pessoas maravilhosas que parecem só existir nessa cidade. Uma miscigenação de personalidades, e outras muito interessantes particularmente, como o Dr. Antonio Ermírio de Moraes, que conheci pessoalmente (fui office-boy dele um tempo).

Essas e outras lembranças me vêm constantemente. Fico feliz às vezes, e depressivo noutras. Quando vejo o quartel onde prestei o serviço militar ficar abandonado daquela forma. O quartel no Parque Dom Pedro, que justamente fora tombado como patrimônio histórico na minha época, agora é tombado pelo descaso e pelo tempo. Quando vejo que os mesmos problemas que enfrentava há vinte, trinta anos atrás, são os mesmos que os paulistanos enfrentam hoje, frutos de um completo descaso das autoridades. Isso sim me revolta.

Porém, apesar de estar em outra cidade, de ter perdido meu sotaque…, ainda me sinto paulistano. Talvez isso contribua para manter o tabagismo, talvez por isso eu também tenha entrado um pouco na prática ecológica em minha empresa. Um misto de saudosismo com a tentativa de ajudar, de alguma forma, a mudar um pouco e melhorar o aspecto dessa cidade.

São Paulo pra mim é uma gigantesca bolha em expansão. Muda sua forma, mas mantém a sua essência. Um dia…, se eu puder, e a cidade me aceitar…, eu volto!

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