No outro lado do Atlântico

São Paulo, cidade natal querida, uma comunidade constituída de miríade de povos, fruto de imigrações em épocas diversas, incentivada pelas autoridades brasileiras desde o império, que viam tal estratégia como reposição de mão-de-obra retirada pelo abolicionismo. Houve imigração tanto antes da Lei Áurea como depois, mas o ano de 1888 teve o foco dramático da necessidade de novos trabalhadores para alavancar o nosso país. Falando de italianos, uma vez que meu bisavô era trevisano e a bisavó de Venécia, região do Vêneto, quero comentar as reações daqueles que ficaram na Itália, vendo seus entes queridos debandarem para a incerteza de outras plagas.<br><br>Embora seja uma boa medida se colocar do outro lado das questões, isso não é muito usual para a maioria, pois ficamos centrados nas complexidades de nossas vidas e seus desdobramentos. Chamou-me a atenção uma matéria na TV onde um conhecido proprietário de uma tratoria paulistana, retornava ao país de Dante e se reencontrava com remanescentes de sua família nas cercanias da cidade de Lucca. Foi chocante a recepção em algumas casas, pelas feições duras, emburradas e até raivosas. Fiquei perplexo tentando analisar aquela situação. Daí o que disse anteriormente, de nos colocarmos do outro lado, na pele dos outros; os que ficaram na Itália assistindo inermes aquele êxodo de seus entes queridos, no desespero da carestia imposta pela crise institucional, além das pragas que assolavam a Itália e outros países. <br><br>O visitante empenhado em rever o máximo de pessoas e de saber detalhes da vida da família e ora sendo tratado como um inimigo, um fugitivo e até mesmo um traidor da família e da pátria. Situação melindrosa! Recordo neste momento do ministro italiano conclamando os cidadãos italianos a ficarem e lutarem para ver o crescimento do país e a resposta dada pelo povo na imprensa de que se sacrificava, trabalhava duro, mas não tinha nada além de pão preto para colocar à mesa. Vestindo o personagem dos italianos que ficaram por lá não é difícil justificar o sentimento de revolta, abandono e de traição ao grupo familiar e ao país. Não se pode olvidar de que a origem da imigração era a carestia e a viagem com toda a família. Carregava uma profusão de incertezas, até mesmo da sobrevivência das crianças e dos mais idosos na longa travessia de 30 dias. <br><br>Ouvi de um neto de “Oriúndi” que parte da família pegou o navio certo e foi fazer fortuna na Pensilvânia, EUA, enquanto outros pegaram o outro navio e vieram dar na costa brasileira e estão reclamando até hoje. Mesmo que exista uma carga de ironia nessas observações, o fato é que não se sabia onde seria melhor, mais fácil e mais rápido conquistar a tão sonhada fortuna. Hoje, no século 21, os jovens ficam conjecturando sobre onde ir trabalhar e estudar fora do Brasil, para “celeremente” conquistar um pé-de-meia e aí reside o mesmo grau de incerteza em relação aos imigrantes no século XIX. <br><br>O movimento das pessoas pelo mundo à procura de melhoria de qualidade de vida é dramático e esbarra conforme a época e a conjuntura do país em proibições e retenções. Um cidadão brasileiro deportado de qualquer país nos revolta e deveria resultar em ação enérgica de nossos postos diplomáticos em cobrar a “isonomia”. Dramas que afligem em alguns tempos a humanidade provocam muitas reações e a imigração é uma delas. A sua ocorrência e variedade étnica sofreu miscigenação total no hemisfério sul e veio compor o perfil riquíssimo do cidadão brasileiro.<br><br><br>E-mail: [email protected]