Natal de antigamente

Vocês vão dizer: ela vive pensando no passado. Não tiro a razão de vocês pensarem isso, mas é que naquela época existia uma coisa diferente entre as pessoas: amizade, coleguismo, ajuda entre os vizinhos, participação entre todos.

Como eu já falei, eu morava numa vila chamada Castanheiro na Vila Mariana.

Quando essa época chegava a minha vizinha, me levava na Teodoro Sampaio, aonde ela fazia as suas compras de natalinas. Ao chegar a sua casa, dispunha de todas suas compras para que eu tivesse participação nelas, pois mais tarde ela me ensinaria fazer meus enfeites natalinos. Enfeites de porta simples feito de macarrões, de canudinhos de plástico, de estrelas de papel alumínio coloridos, centros de mesas feitos com garrafões de vinho de outros natais, árvores de isopor forradas de caxetinhas, com as coroas dos abacaxis pintados com “colorjet” e depois colocados em cada ponta uma bolinha colorida e muito outros enfeites.

Dona Juditi procurava me ensinar uma sobremesa nova para agradar os meus convidados. Eu e meu irmão líamos receitas da coleção Bom Apetite, pois meu irmão era muito formiguinha e sempre queria mais sobremesas.

A árvore de natal era natural (errada hoje pela ecologia), mas naquela época era assim feita. Colocávamos um papel em volta do vaso, que imitava pedra e picávamos algodão para parecer neve. As bolas eram todas trabalhadas, mas eram de vidro, que quebravam com qualquer descuido.

Na ponta da mesma havia sempre uma ponteira e no meio de tantas luzes e cordões coloridos, minha avó colocava maçãs, nozes, chocolates com formatos de garrafinhas de Papais Noeis e moedas, que iríamos comê-las no dia da "Bifana”, que é o Dia de Reis (seis de janeiro).

Na véspera do dia de Natal era uma correria, pois era costume da nossa casa fazer "capeletes” (minha vó contava um a um para saber a quantidade que ela havia feito). Em média eram 800 e no meio de tantos,tinha o “capeletão” da sorte. Os capeletes sempre eram feito “ao brodo” em um grande caldeirão. As comidas na nossa família eram as mesmas: batatas cheias, torta de palmito, salame, queijo bola, azeitonas, aliche picadinha com salsinha e, como não podia faltar em uma família italiana, a lasanha feita com muito molho e muita muzzarela. Que delícia!

Todos vizinhos iam em casa para se cumprimentarem e desejarem um bom Natal.

Conversa vem, conversa vai, um aperitivo, uma guloseima e todos brincavam e ficavam esperando a meia noite. Ah! Meia noite, olha, olha! O Papai Noel chegou, que folia, que alegria! Uma emoção tomava conta de toda vizinhança e de todos participantes. Que beleza! Cada família retornava a sua casa para receber e abrir os presentes de natal.

Na minha casa era um pouco diferente, pois o meu pai trabalhava em um restaurante e portanto a festa terminava ali. Minha mãe fazia uma prece e íamos para cama para ansiosamente esperar o amanhecer para recebermos os nossos presentes. Não eram muitos, mas como todos os vizinhos se presenteavam, a quantidade de presentes aumentava e então virava uma folia. A cama logo era arrumada, pois todos os presentes eram colocados sobre a mesma com seus respectivos cartões para que todos compartilhassem dos presentes.

Hora do almoço, outra folia. Quem pegou o “capeletão”? Quem pegou? Quem foi? Uma delícia, sabor sem igual. Risos, aplausos, pedidos, enfim era o Natal.

À tarde os mais velhos se reuniam ao redor das mesas para jogar tombola e as crianças ficavam fazendo desenhos, brincando de amarelinhas, céu e inferno com os pedaços de gessos dos garrafões de vinho.

“Ah”! Que saudades desses Natais. Naquela época havia sim uma festa de confraternização de um Natal feliz, simples e harmonioso, pois nos nossos corações havia o espírito natalino, que era o amor um com os outros.

E aqui ficam os meus sinceros votos de um Natal repleto de amor uns com os outros, lembrando que essa data foi feita não para grandes gastos, mas que todos termos nos nossos corações o amor e o respeito ao próximo.

Bom Natal! “Hoje a noite é bela, vamos eu e ela juntos a capela, felizes a rezar. A soar o sino, sino pequenino vem Jesus menino nos abençoar. Bate o sino, pequenino, sino de Belém, já nasceu Jesus para o nosso bem. Paz na terra, bate o sino alegre a cantar, abençoe Jesus menino esse nosso lar.”

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