Natal de 1958

Esta história se passou em um lugar chamado Vila Jacuí – São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo.
 
Vinte e quatro de dezembro. Na televisão da dona da casa onde José morava só se falava em ceia, troca de presentes, confraternização, Papai Noel. Para aquele menino pobre era uma realidade que não estava ao alcance das mãos. Saiu para a rua e foi se encontrar com os colegas. Bateram papo e alguns foram para casa, talvez curtir um prato de arroz e feijão com ovo. 
 
Outros, mais abastados, iriam curtir a ceia tão falada, regada a espumante, vinho, refrigerante, peru, pernil… Só ficou José e Nenê, tão pobre quanto ele. Conversa vai, conversa vem e Nenê disse: 
– Sabe Zé, ouvi falar que vai ter uma ceia na casa do Ari. Vamos lá, a gente fica em frente da casa, quem sabe alguém chama a gente para entrar. 
 
José concordou imediatamente e foram esperançosos, descendo a rua enlameada. Quando chegaram, viram as luzes coloridas da árvore de natal piscando, como que convidando-os a entrar. Ouvia-se o barulho de vozes, gargalhadas, crianças correndo e ao fundo uma música natalina. Ficaram ali parados, muito tempo, quando de repente, aquela garoa fina que teimava em cair o dia inteiro se transformou em grossos pingos de chuva e começou a molhar aqueles corpos franzinos e a arrastar ladeira abaixo a esperança daquelas duas crianças que não tiveram outra opção se não despedir-se e voltar para casa de barriga vazia, com a certeza de que o Natal dos homens não foi feito para todos, mas para alguns privilegiados.
 
Me comoveu muito quando ouvi esta história, há não muito tempo atrás. Estávamos próximos do Natal e José me disse que não gostava muito dessa data, pois não lhe trazia boas recordações e em poucas palavras me contou esta história que não é só a história de sua vida, mas de muitos brasileirinhos por esse país afora, hoje mesmo, em pleno século XXI, que são excluídos de uma festa que poderia ser a mais bela do mundo, se todos dessem o devido valor que ela merece e ao aniversariante.
 
José já não está mais entre nós, pois no dia 5 de novembro de 2013 nos deixou, com muitas saudades no coração e a certeza de enquanto imperar o materialismo na vida das pessoas, o lado espiritual ficará para sempre apagado.
 
Adeus José, meu querido irmão, agradeço a Deus por ter desfrutado da tua presença na minha vida.