Parecia que todos os anjos e santos estavam aos prantos! Eu tinha certeza de que estavam desolados, profundamente amargurados pelo cenário.
Noite inigualável aquela!
Em procissão, uma boa parte dos moradores do Cambuci caminhava e rezava em uníssono pelas ruas escuras e sombrias daquele bairro de forte tradição operária naquela Sexta-Feira Santa.
A escuridão amedrontava! De olhares entristecidos, as mulheres mais idosas, especialmente elas, carregavam velas acesas na mão direita e cobriam-se com seus véus negros. Havia dor naqueles olhares! Olhares de donas de casa sem sonho, sem conquistas e nenhuma ilusão. Durante todas as suas vidas cozinharam arroz e feijão, alguma batata frita e uma carne de segunda. A vida seria somente aquilo. Nada mais.
Sexta-feira Santa de 1969. Criança ainda, eu jamais havia sentido tamanho pavor em praça pública. Os anjos choravam, sim, choravam muito, porque, lá de cima, podiam perceber e relembrar o martírio de Jesus pela sua opção sublime em apontar a todos os povos o caminho da verdadeira justiça, do amor infinito, do valor do perdão e do respeito ao próximo. Ele havia avisado que ninguém chegaria ao Pai se não fosse através dele. Não tínhamos aprendido ainda nada ou quase nada. Ainda não aprendemos.
E os anjos e santos, aos prantos convulsivos, observavam os caminhos daquele Brasil do arbítrio. Seria insuportável continuar a ver tanto sangue esparramado pelas esquinas, pelos porões, pavor, gritos lancinantes, certeza de perdas, descrença, sadismo vil e asqueroso, mães chorando os seus filhos mortos ou desaparecidos. Filhos que jamais teriam resposta do paradeiro dos pais. E pensariam: “como será que era o meu pai ou a minha mãe? Será que eles gostariam de me ver?”.
Nossa Senhora também chorou ao relembrar o martírio do filho, daquele filho que tentaria mudar os rumos da história. E os outros filhos, nós, simples e ignorantes, prestes a sucumbir à barbárie.
Chovia naquela noite. E as pessoas começaram a se abrigar como a fugir do pranto pesaroso que vinha dos céus.
Procissão é ritual de preces coletivas e já era praticado nos primeiros séculos da era cristã, ainda no tempo da perseguição, mas foi na Idade Média que essa expressão de fé teve o seu apogeu, sendo um grande acontecimento religioso e social, com cerimonial próprio e participação em massa de fiéis. As procissões medievais mais importantes foram realizadas na tradicionalíssima Península Ibérica dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
No Brasil, essas manifestações de fé, seguidas pelos andores com imagens dos santos do dia, foram instituídas em 1549, quando Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, desembarcou na Bahia desfilando em procissão com cerca de mil auxiliares, entre militares, burocratas e religiosos, com a finalidade de dar início à fundação da sede do governo da América portuguesa.
No período colonial – início da dominação portuguesa até a independência política – foram os jesuítas os responsáveis por adotar e propagar tais práticas de devoção, com a finalidade de atrair os nativos para a catequese e implantar o catolicismo.
Mas naquela Sexta-Feira Santa de 1969 a escuridão das ruas, a atmosfera de dor penetrante, a desolação me fizeram questionar o sentido da fé.
E a Páscoa, mais uma vez, bate às portas do coração. Para dizer que a vida vence o medo, a angústia e o sadismo. A Páscoa vem nos trazer algumas certezas. O choro existe, mas as lágrimas secam. O torturador açoita, mas um dia ele vai ter que acertar os ponteiros. Os sonhos existem e continuarão a existir apesar de todos os empecilhos para a sua concretização. O perdão existe quando a gente passa a ter a paciência para compreender o que aconteceu.
E a Páscoa vem nos avisar que ainda há tempo para aprendermos: ninguém vai mesmo ao encontro de Deus se não passar pelo aprendizado de Jesus. O aprendizado que se traduz em humildade, respeito, aceitação do diferente, o saber que a justiça é muito tardia, mas que deve ser buscada incessantemente. O sorriso pode ser o motor de algumas mudanças – quem sabe, para uma vida inteira. E que cada pessoa é filha de Deus sim e, por esse motivo, deve ter uma importância imensa na construção da vida.
Mas essa lição sabemos de cor… Só nos resta aprender.
Uma felicíssima Páscoa a todos, com a certeza da vitória da luz sobre a escuridão e do sorriso de olhar confiante sobre as lágrimas grossas de sal.