Na Rua dos Italianos

Janeiro último. Numa tarde de sábado nada ensolarado, após a visita ao Memorial da Resistência, na Estação da Luz, resolvemos passear no Bom Retiro. Há quantos anos eu não caminhava por ali! Foi uma decisão planejada com antecedência, sentida numa dimensão muito grande, afinal a minha avó falava alguma coisa sobre a Rua dos Italianos, mas não consigo me lembrar muito bem, mas ela falava. A minha avó tinha doces recordações sobre os bairros pelos quais havia passado parte da vida desde que veio do interior das Minas Gerais. Sempre falou da Cantareira, do Mercado, da Rua Abílio Soares, no Paraíso… e também da Barra Funda.

Faz tempo! Eu tinha vinte anos quando descobri a Rua dos Italianos. Eu me sentia importante ao tomar o ônibus a partir do Largo do Cambuci, descer na Estação da Luz e caminhar pela Rua José Paulino e, lá pelas tantas, vira-se à esquerda e depois à primeira direita, e lá está ela, a Rua dos Italianos, com os seus encantos e muitas histórias.

Assim, há três décadas, eu frequentava a rua uma vez por semana para trabalhar num jornal de oposição à ditadura. No início da minha empreitada como uma simples revisora de Português, eu trabalhava na sede dos Diários Associados, na Rua 7 de abril. Eu gostava dali. Era um trabalho realizado numa grande redação e tudo aquilo me fascinava muitíssimo, aquele barulho, a agitação, a hora a cumprir, quase nenhum tempo para uma pausa para o café. E a vida continuava vibrante com aquela beleza da força da juventude, aquela enorme certeza de que é possível mudar o mundo, romper o autoritarismo, construir um Estado de Direito, fazer o país andar com dignidade e confiança nos seus filhos.

Mas da 7 de Abril nós fomos enxotados pela Polícia Federal depois da morte do torturador Sérgio Fleury. Fizemos muita festa pela passagem do carrasco para o andar de baixo, fizeram música, uma paródia da "Jardineira" (Ó ditadura, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi o Fleury que caiu do barco, deu dois suspiros e depois morreu"…). Bêbado, ele havia caído de um barco em Bertioga e foi para o além. Batera com as dez, diriam os mineiros… E então, expulsos dali, tivemos que procurar gráficas que nos aceitassem por São Paulo afora.

Na Rua dos Italianos havia uma que nos recebeu bem. Do início do século XX, a gráfica era escura e o barulho ensurdecedor das máquinas jamais consegui esquecer. E não era só. O cheiro do chumbo derretido para que o linotipista pudesse imprimir os nossos textos parece que invadiu as minhas entranhas… também não pude esquecer. Ali não se conversava, simplesmente porque não podíamos nos ouvir. Era uma daquelas gráficas que cheirava a história do proletariado da região, as lutas por direitos trabalhistas, por melhores salários. Dali era possível se enxergar com exatidão uma parte da história social de São Paulo, o anarquismo, as greves operárias e a constante luta por dignidade.

Naquela época, às vezes, saíamos para tomar um café, daquele café de bar mesmo, no balcão, com aquele copinho típico, que até hoje gosto de apreciar. Dali eu saía para dar aulas de História, afinal o que eu queria mesmo era mudar o mundo, o nosso mundo encardido pelo arbítrio, com um cheiro característico de medo e desencontro com a civilização. Muitas vezes eu saía dali literalmente correndo, tal era o medo de estar sendo perseguida por alguém.

Dessa última vez que caminhei na região eu não consegui localizar a gráfica. Provavelmente se foi. Mas andei por ali, olhando com atenção e ternura todos os lugares. Como não poderia deixar de ser, paramos numa padaria de esquina, em funcionamento desde meados dos anos 60, e comprei pão de queijo. Eu queria sair dali com o gosto do lugar, um lugar que mudou, um Bom Retiro que não é mais propriamente um bairro judeu. Hoje existem ali coreanos e paraguaios, dividindo o comércio popular da região. Os judeus já lutaram muito e os seus filhos cresceram, estudaram, cursaram universidade e abandonaram o comércio.

Na padaria, conversei com o proprietário, que me deu algumas orientações sobre o bairro. Saí dali feliz e de olhar brilhante, segurando firmemente o pacotinho do Empório dos Pães, carregando também um rocambole de chocolate para apreciar, lentamente, em casa, fazendo as minhas recordações, realimentando sonhos e esperanças. As esperanças do tempo de juventude, em que tudo é possível, tudo tem cor e beleza, sentimento carregado de uma força aparentemente infinita de que é possível ser responsável pela construção da própria história, pela mudança da história do país, buscando humanismo e doçura e com as imensas saudades das coisas do tempo.

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