Na antiga Praça da República

Na Praça da República em 1964, na continuação da Av. Ipiranga tinha a Joalheria Casa Castro, em frente, um ponto de ônibus onde eu sempre esperava o ônibus da Empresa Auto ônibus Alto do Pari Ltda. Era hora de ir almoçar na Vila Maria, e este ônibus ia para o zoológico da Vila Maria que eu sempre ouvi falar, porém nunca vi. Entrou no ônibus comigo uma figura que chamava atenção de todos. Um homem bem alto, bem forte, parecia um gigante, muito moreno, cabelos cacheados e compridos, confesso que senti um pouco de medo, pois tinha uma expressão austera e uma postura que intimidava. Sentei-me na janelinha como sempre, e para aumentar o meu medo, ele veio e sentou-se ao meu lado. Quando colocou sua mão sobre seu joelho, que mal cabia entre o banco e o encosto da frente, "tremi"! Era uma mão de um tamanho que nunca havia visto antes. O ônibus saiu e ali fui eu naquela viagem em simpósio com todos os meus botões descendo a Av. Ipiranga (que na época descia). Por que do medo? Tinha vontade de trocar de lugar, mas ia chamar sua atenção. Durante o percurso, sem mover a cabeça, revirava os olhos para o lado atento a figura que permanecia erecta e com a expressão de quem ia executar alguém. Meu terror aumentava quando pensava em levantar-me, pois teria aquela figura que levantar-se também e bater com a cabeça no teto para eu sair. A sensação de claustrofobia foi tomando conta de mim e por momentos sentia-me um condenado a caminho da execução. O ônibus parava nos pontos e aquele personagem, para o meu alívio psicológico, nunca descia. Tentava olhar para fora, mas não conseguia conter a ausência que me aterrorizava.
Naquela época, este ônibus tinha o itinerário pela Vila Guilherme, e passava exatamente no meio do lixão, onde eram depositados os lixos recolhidos na cidade. Nesta passagem o cheiro era insuportável, e para meu desespero, senti e vi aquele enorme volume de homem vindo para cima de mim, quando ia começar a pedir socorro, ele olhou-me com um olhar terno e muito delicadamente pediu-me licença para abrir a janela. Quando olhei seu rosto desfez-se todo o pavor que eu criara dentro de mim. Reconheci-o, era Milton Ribeiro, o cruel "capitão Galdino Ferreira" do filme "O Cangaceiro" ganhador do Festival de Cannes. Sem que eu lembrasse, sua presença trouxe-me todo terror do personagem que sangrava suas vítimas penduradas pelos pés. Graças a Deus meu ponto chegou e eu desci aliviado como se estivesse despertado de um pesadelo. Mais tarde, vim a saber que Milton Ribeiro era tio de Ademar, ex-cantor de "Lino Amaro e seus cantores de Ébano", quem lembra? Ademar um dia foi meu professor de violão na Rua Aprigio Gonzaga 78 no Jabaquara. Ademar, um grande abraço onde quer que esteja, e desculpe por não ter sido um bom aluno.

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