No Cambuci – anos 70

Quando a avenida Lacerda Franco foi asfaltada, em 1971, eu caminhava até o meu colégio, o Nossa Senhora da Glória, ali pertinho do Largo do Cambuci. Aquele cheiro de pixe era insuportável, logo pela manhã. Aos poucos, os paralelepípedos iam desaparecendo, meio que apagando aquelas imagens de São Paulo mais lento, dando espaço para a fluidez do trânsito, uma espécie de abertura para o progresso mais rápido. Era a época da ditadura, da infeliz ditadura, que falava que esse é o país que vai pra frente, ô,ô,ô,ô,ô.
O colégio, o Glória, era aquele colégio marista tradicional, com azulejos marrons em todos os corredores e com duas entradas. O seu João era o porteiro, com o seu infalível sorriso dourado, magrinho e sempre bem educado. Ele carimbava as presenças e ausências dos alunos nas cadernetas escolares. Há alguns anos estive ali de novo, fazendo minhas habituais visitas, batendo foto do seu João e o meu antigo professor de Física, o Irmão Leonardo, que muito contribuiu para a minha formação humana. Naquele tempo os professores não empregavam a palavra ética, mas o comportamento era ético o tempo todo. Por esse motivo e com absoluta certeza a vida de muitas daquelas pessoas deu certo, sobretudo quando o assunto é dignidade e respeito para com a vida e os demais.

Seguindo em direção à rua da Independência, havia uma pequena fábrica de chocolates, a Toy. Era do lado esquerdo de quem ia. Era pequena, de fundo de quintal, mas o cheiro chegava lá fora com toda a poesia que o chocolate traduz. Essa foi uma das lembranças mais adocicadas da minha juventude – a fábrica da Toy, muito embora íamos até lá só de vez em quando, pois o dinheiro era, para nós, um grande problema.
Com o Cambuci, com o Glória e com a Toy comecei a sonhar e a acreditar que o mundo poderia ser bom e justo a partir do lugar de raiz, mais o conhecimento, e, junto dele, a perseverança, a luta, a paixão pelo saber, o companheirismo dos mestres, sábios e pacientes mestres, que serão aplaudidos de pé, com todas as honras, por todos os Santos quando chegarem aos céus. Mas para se manter o amor pelo chão, para se dar o grande valor à escola – essa escola chamada vida – o chocolate é mais que necessário, sobretudo o chocolate da Toy, que também serviu para aplacar – um pouquinho, só um pouquinho – o amargor da ditadura.

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