Memórias malvadas

Nos anos 60, meu endereço comercial era, também, Rua Augusta, 810.
Eu trabalhava numa empresa de nome LARA CAMPOS concessionária Ford-Willys estabelecida poucos metros acima do Cine Marachá.

O pessoal da administração, não sei como, parecia selecionado por forças ocultas, pois, assim que admitido passava a integrar de corpo e alma aquela confraria.

Isso aconteceu, inclusive, comigo!

A equipe masculina era formada por diversos “anjos da cara suja” (em alusão ao filme do mesmo nome): Nadyr Cortegoso (contador), Álvaro Henrique Hass (sub-contador), Edgard José da Silva (tesoureiro), Miguel S. G. Chammas, José Carlos Munhoz Navarro, Franklin Benevides de Oliveira, Lourival Melquiades de Oliveira, Fábio Meletti, Taketoshi Hayashida, e ainda, o Danilo e o Gonçalo, cujos sobrenomes me escaparam da memória no momento. As moças, por serem calmas e comportadas, apenas faziam numero e riam de nossas aprontadas, somente uma vai merecer nestas memórias um destaque especial. Seu nome Antonia Donangelo, a Toninha.

Os componentes masculinos acima declinados, profissionalmente falando, eram competentíssimos, mas, nas farras e malvadezas se sobrepujavam. Eram de uma sintonia e afinidade tão grande e por mim nunca mais encontrada.

Um pensava e os demais, sem qualquer contato, se agrupavam para completar o pensamento.

Como foi o caso da Antonia que aqui vou relatar:

Antonia era imigrante italiana, moradora do Bixiga, estudante do Colégio Frederico Ozanam e, portanto, minha colega. Era uma moça mignon, baixinha, e toda elétrica. Dentro seus maiores medos o que mais se acentuava era o medo de cobras (ofídios e congêneres).

Na malícia dos membros masculinos esse medo era bastante questionado e provocava piadas e risadas desenfreadas.

Apenas mais um detalhe: Meu pai nessa época era viajante e todos no escritório sabiam disso.

Um dia cheguei de manhã ao escritório e depois de cumprimentar a todos (trabalhávamos num salão de vão livre onde todos viam e ouviam a todos) fui questionado por “seu” Álvaro: E teu pai Miguel, está bom?

De imediato respondi que estava e que tinha retornado no dia anterior de uma viajem ao Mato Grosso (ainda não havia sido feita a separação) e me trazido alguns presentinhos de lá.

Pronto, bastou isso para que as máquinas criadoras de maldades começassem a funcionar e delinear um plano de ação para próxima maldade.

Antes do almoço já tínhamos todo o plano bolado, eu saí para almoçar uns 15 minutos antes e ao invés de ir para casa fui direto para o centro da cidade onde comprei nos camelôs do Viaduto do Chá uma cobra coral de látex mais do que perfeita, o capital investido nessa aquisição havia sido rateado entre todos os membros maldosos.

Comprado o objeto fui para minha casa, almocei e, depois, preparei a surpresa. Acondicionei a cobra numa caixa de sapatos devidamente furada para permitir que o ar transitasse por dentro dela, amarrei o objeto comprado com um fio de nylon para pescaria, quebrei a tampa da caixa para permitir que ela se dobrasse e, depois de testar com sucesso a engenhoca, me dirigi para o segundo expediente, levando além da engenhoca um jornal que meu pai trouxera de Mato Grosso.

Eu nessa época já morava na Rua Major Diogo e fiz questão de fazer a caminhada até a empresa de forma bastante calma para dar tempo a todos de estarem nos seus postos quando da minha chegada.

Chegando, fui fazendo alarde da minha chegada e dizendo para os colegas: – Olha aí gente, trouxe um jornal de Mato Grosso para vocês lerem as novidades…

Entreguei o jornal ao Sr. Álvaro e todos os demais circundaram sua mesa para ler e comentar as notícias.

Então, da minha mesa, fui dizendo enquanto me aproximava do grupo:
– Olhem a lembrança que meu pai trouxe para mim. E, mais próximo, mostrei a caixa que, no meu gesto, soltou a tampa e com um pequeno auxílio do fio de nylon a cobra pulou sobre todos, mas em direção da Toninha, que num gesto desesperado deu um grito fortíssimo e despencou desmaiada.

As gargalhadas iniciais foram silenciando na medida em que a Toninha não dava sinais de recuperação e apavorados resolvemos levá-la para um pronto socorro.

Como mulher, a Toninha estava nos dias críticos e o susto quase causou problemas maiores que, graças a Deus, foram contornados.

Dias depois, com a “carcamana” já recuperada, o caso não serviria mais de lição e novas maldades seriam boladas.

Essas novas maldades serão objeto de novos relatos.

Por hoje chega!

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