Minhas tias e eu

É realmente inusitado o fato de um, como devo me classificar: idoso, ancião, prá lá da idade, gagá… (nasci em 1930, é só fazer o cálculo), já disse em outra ocasião, sentir-me feliz em voltar no tempo, de recordar minha infância, minha juventude, minha maturidade, enfim, até o dia de ontem. Evidentemente essas recordações nem sempre são de alegrias. Mas, como se sabe, recordar é viver e acrescento que recordando é que se vive.<br><br>Em qualquer tipo de situação, como na própria ciência, sua história é fundamental, pois só sabendo como a coisa aconteceu é que se pode interpretar e acrescentar. Do mesmo modo, recordar episódios de nossas vidas nos esclarece e nos propicia evoluir. Vou agora servir-me de minha “nave-mente-temporal” para recordar alguns momentos.<br><br>Lembro-me com satisfação das idas com minha mãe, quando pequeno, à casa de minha tia Mariquinha, na Rua Maestro Cardim. Ela morava em uma imensa casa rodeada por enormes e bem cuidados jardins. Aí eu brincava com meu primo de mesmo nome que eu, Álvaro. Ainda hoje sinto o aroma do lanche da tarde, onde eu comia certas coisas apenas lá. Era servido na sala de estar. Eu ficava maravilhado, pois para mim era também novidade o próprio vir servido por uma moça que o trazia da copa (para mim era novidade também esse nome) e a bandeja era trazida por um elevador manual – a cozinha ficava no andar de baixo.<br><br>Outra tia onde fui muitas vezes "filar a bóia", levado por um primo, tia Tereza, na Rua Dino Bueno. Apenas lá eu comia uma iguaria que ninguém mais fazia cérebro (miolo) de boi, empanado e frito. Com minha mãe fomos várias vezes ao bairro do Ipiranga, na Rua Bom Pastor, na casa da tia Apolinária. Lá eu sonhava em ter, no futuro, como minha tia, uma pequena loja, na época chamada de bazar, onde eram vendidos todos os tipos de miudezas necessárias para o reparo de roupas, costura e outras utilidades.<br><br>Em Santana morava outra tia, a Rosinha. Não me lembro, infelizmente, o nome da rua. Perto de sua casa circulava um trem, há tempo desativado. Em Pinheiros morava minha tia Elvira, na Rua Alves Guimarães (rua em que nasci). Meu tio era dono de cinemas. Claro que meus primos e eu assistíamos diversos filmes e, às vezes, quando o tempo permitia, um longa metragem. Claro que tudo era de graça.<br><br>Na Mooca morava minha tia Ada, na Rua Ana Neri. No bairro moravam muitas famílias de espanhóis e, com frequência, à noite se ouvia ao longe o som da zabumba. Já quando jovem, ia visitar minhas tias Olga, Anita e Líbia que moravam no Tatuapé, na Rua Vilela. Lá nos lembrávamos dos velhos tempos em que moraram no bairro do Brás.<br><br>Meus pais nunca tiveram automóvel, coisa muito comum na época, de modo que fazíamos todas essas visitas utilizando coletivos. Na época tudo era deliciosamente tranquilo, de tal modo que, recordo, pouco esperávamos pela condução, pelo menos nesses horários, e, sempre pelo pouco transito, logo chegávamos ao destino (a cidade era muito menor), sem canseira. Os adultos ficavam conversando por horas. O radio era incipiente, televisão não existia. Além da condução (bonde e ônibus), com frequência eram necessárias longas jornadas a pé.<br><br>Hoje revivendo esses momentos felizes concluo que naquela época além do prazer de manter contato com os familiares, praticava-se o melhor dos esportes que é o de andar. Devido às notícias não circularem rapidamente, tanto as boas como as más, todos, creio, possuíam invejável higidez mental. As dificuldades financeiras eram notórias, mas como não havia o que hoje se chama de mídia, prepotente, enganosa e massificante, a compulsão pela compra não existia. As crianças e os adultos não sentiam a premência de comprar, de ter. Lembro-me de que minhas brincadeiras eram realizadas na rua, em frente de casa com amiguinhos vizinhos (todos do mesmo nível, portanto sem invejas nefastas). Brincava-se de bola de gude, caixeta, de futebol com bola de meia, ou quando um colega ganhava no Natal, com bola de borracha. Com os ferimentos adquiridos nas brincadeiras, adquiria-se, pela natureza, imunidades.<br><br>Com o passar do tempo, as necessidades surgiam, como a de, graças aos hormônios, voltar-se para o sexo oposto, daí os "footings", no meu caso feitos nas ruas Palmeiras e Sebastião Pereira. Claro que nessas alturas as tias eram esquecidas. Os momentos de seriedade e necessidade de sustentabilidade começavam a se delinear.<br><br>Graças a Deus agradeço à família que tive, às tias maravilhosas, à profissão que exerci, à esposa que foi imensamente importante, hoje vivendo do lado de lá, às duas filhas e a tudo que me foi concedido materialmente. Os mais jovens não gostam das recordações dos velhos. Sossegado no meu canto (delicioso) continuo curtindo-as e às vezes passo para o papel (agora no computador) ansiando para que este site maravilhoso (que não faz distinção de idade) as transforme em realidade e que alguém, lendo-as, passe a ter suas próprias recordações e também as lance aqui para que ajam como vívidas sementes.<br><br><br>E-mail: [email protected]