Minhas Memórias do Centro Novo e Velho de São Paulo

Em 1.967 mudei-me do interior do Estado para São Paulo; troquei o teclado do acordeom que meu avô italiano fazia questão que aprendêssemos, pelo teclado da máquina de escrever; tornei-me auxiliar da secretária de um primo que era Senador da República e presidia um dos dois partidos políticos que havia à época; esse diretório regional ficava na Rua 24 de maio, 208 – 6º andar, rua que não era calçadão como hoje; por ela passavam ônibus vindos da Praça do Patriarca, da Rua Cel. Xavier de Toledo, da Ladeira da Memória, etc… Esses ônibus seguiam para a Aclimação e Ipiranga e outros subiam a Consolação no sentido de Pinheiros, Vila Madalena, Vila Beatriz, Butantã, etc., passando em frente ao colégio Caetano de Campos, na Praça da República; hoje esse prédio abriga a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e a rua em frente tornou-se um imenso calçadão e acesso ao metrô República.
Era uma delícia poder fazer meu lanche, sentada em um dos bancos da Praça da República; admirando os pássaros e tartarugas que haviam por lá, sem contar as lindas crianças que brincavam felizes na Escolinha Municipal que havia dentro da Praça.

Saia do trabalho por volta das 18h30min e, pelo Viaduto do Chá, ia direto para a Escola Técnica de Comércio São Paulo, na praça Clóvis Bevilacqua, 64, escola essa mantida pelos primos e tios de meu pai; lugar que estudei por 2 anos; esse prédio era lindo, antigo, os elevadores fechavam com portas de grade de ferro e as escadas e portaria tinham o piso em mármore, ele foi o primeiro prédio a ser implodido em São Paulo, hoje a escola funciona no bairro da Aclimação.

As 22h30min retornava para casa, fazendo o mesmo trajeto: Rua Direita, Praça do Patriarca, Viaduto do Chá e na Cel. Xavier de Toledo, tomava o ônibus Vila Madalena, no seu ponto inicial, ele contornava o Teatro Municipal e entrava na Rua 24 de Maio, Praça da República, Av. Ipiranga, Consolação que à época sofria uma grande reforma, estava sendo alargada e do asfalto eram tiradas as linhas do bonde (não cheguei a conhecê-lo) lembro bem que o Cemitério da Consolação teve que mudar o seu muro de lugar e eu não suportava olhar para os túmulos tão desprotegidos e tão próximos da gente, no interior eles são feitos retirados da Cidade e, como as Cidades não crescem tanto, eles continuam afastados, essa reforma durou algum tempo e era difícil o acesso por ali.
O que mais ficou marcado em mim foram as passeatas estudantis, as manifestações de desagrado com o regime, que a juventude e povo brasileiro repudiavam naquele início de uma nova década; não podia ficar de fora, as coisas aconteciam dentro da sede do partido político em que trabalhava, ali vi muitos deputados chorarem por terem seus direitos políticos cassados e obviamente seus mandatos interrompidos; muitos detidos, torturados, desaparecidos; uma ocasião, retornando do trabalho direto para casa, na altura das Ruas Caio Prado e Maria Antonia, na Consolação, tudo estava parado, soubemos que um jipe havia explodido com um jovem estudante do Mackenzie dentro um verdadeiro horror; tivemos que descer do ônibus e seguir à pé, nunca caminhei tanto em minha vida e com o coração tão apertado, morava no alto da Rua Fradique Coutinho na Vila Madalena, em frente onde hoje há a Livraria da Vila.

Pouco ou quase nada de notícia era divulgada pelas Rádios e TVs naquela época, porém as noticias corriam de boca em boca, quando por algum motivo chegava atrasada em casa era o desespero dos familiares que ficavam no portão esperando; muitas foram as vezes que cheguei chorando e com a roupa e os meus cadernos sujos de tinta; quando havia passeata pela cidade, elas aconteciam na Av. Ipiranga, Consolação, Viaduto do Chá e no Largo São Francisco e a polícia com todo o seu aparato: cachorros, cavalos, gás lacrimogêneo, e outras armas como bisnagas de tinta vermelha, que espirravam em qualquer pessoa que aparentasse ser estudante, agiam da pior forma possível.

Meus olhos de menina, mesmo vivenciando todo esse movimento político, não perdia nada de vista, adorava passear na Loja Mappin que foi um marco para São Paulo e depois atravessar a Xavier de Toledo, no sentido da Eletropaulo, hoje Shopping Light, e ser conduzida pelo apito do guarda de trânsito Luizinho e todo o seu carisma.

São Paulo não tinha trombadinhas, os poucos meninos que ficavam na rua por algumas horas eram vendedores de flores, flanelas e mentex (uma pastilha de menta) nos faróis, às portas de Restaurantes, Cinemas e Boates. Os grandes Cinemas de São Paulo ficavam na Av. Ipiranga, São João e Consolação; São Paulo só tinha um Shopping, nas imediações da Av. Rebouças.
A Câmara Municipal de São Paulo ficava na Rua Libero Badaró e por volta de 1976, não sei o certo, mudou-se para o Prédio recém construído do Viaduto Jacareí, nº 100, na Rua Maria Paula, ocasião que também os 2 partidos políticos se mudaram para o subsolo do mesmo; nessa época tinha por costume admirar a Igreja da Sé, para onde ia quase todos os dias e também ouvir cantos gregorianos na Igreja de São Bento.

Creio que mesmo não tendo nascido aqui, conheço e amo essa Cidade, como se minha fosse!

Cleidiner Aparecida Ventura – Agosto de 2008

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