Uma japonesinha chamada Alice

Lendo e assistindo a tantas festividades e homenagens aos japoneses neste ano de 2008, em que se comemora o centenário da chegada da primeira imigração japonesa no Brasil, não pude deixar de recordar histórias e experiências de muitos anos atrás.
Acho admirável a forma como eles conseguiram superar tantas dificuldades, a começar pela linguagem e escrita, fazendo destas diferenças acertos rumo à harmonia e integração que essa imensa colônia atingiu, a ponto de nosso conhecido bairro da Liberdade ser chamado de Japão Brasileiro, com características de bairro japonês maiores das que são encontradas em bairros atuais do Japão, o que é muito bom para que possamos usufruir de suas coloridas e elaboradas tradições.
Atualmente muitas de suas festas e tradições me são familiares, por eu ter estudado mais de doze anos filosofia oriental, como contei anteriormente, e ter escrito várias vezes sobre eles e seus eventos, como o Bunka Matsuri – um pedaço do Japão em São Paulo escrito em 17/3/2005; o Hanamatsuri, o Festival das Flores realizado em Abril, o Tanabata Matsuri, o Festival das Estrelas realizado em Julho, quando as principais ruas do bairro são enfeitadas com bambu e grandes enfeites de papel, simbolizando as estrelas, onde os visitantes podem colocar um pedaço de papel com pedidos que desejam ver realizados, uma história sobre um engenheiro nissei construtor e campeão de pipas, outra sobre o Ano Novo em 2006: Xin Nian Kuai Luo 4703 / 2006…
Hoje em dia ao andarmos pelas ruas e barzinhos da cidade encontramos muitos jovens nisseis e sanseis, ou senhores em grupo de amigos durante a happy hour, completamente integrados em grupos não só de paulistas, mas de descendentes de outros imigrantes, em propagandas de TV e jornais, suas lojas e restaurantes em profusão pela cidade, mas na minha infância, isso era bem diferente.
Não havia da minha parte ou de minha família nenhum preconceito, o que havia era uma espécie de curiosidade e atração por aquelas pessoas visivelmente diferentes em aparência e hábitos, quietos e retraídos pela dificuldade da comunicação entre as duas línguas.
Meu primeiro contato foi com uma japonesinha, sim porque naquela época todos os olhinhos puxados eram japoneses. Nem se imaginava palavras como nissei, sansei, etc. Assim me recordo dela na carteira do colégio do primeiro ano primário.
Seus olhos logo me chamaram atenção.
Quando a professora pediu que cada uma ficasse de pé dizendo seu nome, onde nasceu… Não deu outra, quando ela levantou-se e falou:
– Sou brasileira, meu nome é Alice… Começou a confusão…
Todas perguntavam de uma só vez:
– Como você é brasileira? Se você é japonesa…
E ela pacientemente e educada respondia:
– Sou brasileira…
Já ouvindo outra pergunta:
– Onde você nasceu?
– Em São Paulo…
Com a sonorização do grupo:
– Como? Se você tem olhos puxados?
Afinal italianos, franceses, alemães todos tinham o visual externo parecidos, ou melhor, olhos mais ou menos amendoados, portanto assimilamos que quem nascesse em São Paulo não podia ser diferente…
A professora tentou por ordem na confusão, apesar de que ela também estava curiosa com a história…
– Me chamo Alice…
Outra confusão:
– Como você se chama Alice? Esse não é nome de japonês…
Esclareço que tudo isso ocorreu totalmente sem maldade ou preconceito, palavra, aliás, que desconhecíamos, apenas com a curiosidade natural das crianças diante do inusitado.
Pacientemente ela tentou explicar, mas, tudo estava confuso para cabecinhas de seis e sete anos, mesmo os adultos pouco sabiam desses imigrantes, além de que tinham aquelas quitandas cheias de frutas e comidas que comprávamos, mas falando e respondendo o mínimo e fazendo contas num aparelhinho tão confuso quanto a língua deles cheio de bolinhas de madeira…
Nos dias seguintes fomos esquecendo aquela problemática que para nós já não tinha o menor sentido, pois ninguém usava a nacionalidade e o local em que nasceu no dia a dia, e Alice foi conquistando a todos pelo seu jeitinho quieto, educado, respeitoso e, principalmente, estudiosíssima.
No final do ano seus pais haviam arrumado uma colocação ou um serviço fora de São Paulo e Alice despediu-se de nós para ir embora com eles…
Todos ficaram muito tristes, pois Alice já fazia parte de nossas vidas.
Nunca mais a vi, mas a lembrança daquela menina meiga, falando baixinho, seus modos reservados e educados, permaneceram na minha memória com muito carinho.

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