Minhas Memórias do Bairro do Cangaíba

Meu pai adquiriu um terreno no loteamento denominado Jardim Gôndolo, no ano de 1950, que pertencia ao bairro do Cangaíba. Sem luz nem água encanada. Construiu a casa onde moraria de 1951 a 1975, quando nos mudamos para Guarulhos, por conta de uma desapropriação. A energia elétrica era “emprestada” de uma vizinha e a água era de poço artesiano. A “nossa“ energia elétrica só foi ligada em 1963.

Em 1964, tivemos nosso primeiro televisor – General Eletric. A rua era de terra e havia, em frente, a estrada de ferro que faz a ligação Brás – Calmon Viana. Vi passar por ali muitos trens carregados de minério de ferro, enxofre, gado, automóveis e, inclusive, o famoso “Trem de Prata”, que fazia a ligação São Paulo – Rio de Janeiro. Este último nunca atrasava. Podia-se olhar no relógio e ele estava sempre no horário! Infelizmente, esta ferrovia também era palco de tragédias: pessoas atropeladas pelo trem (ou por desatenção ou vontade própria!) e descarrilamento de trem de carga.

Quando a rua foi asfaltada (eu tinha uns cinco ou seis anos), por debaixo do piche, em frente à minha casa, ficou uma casca de banana que alguém havia jogado na rua.

Em 1966, com sete anos, fui estudar no Grupo Escolar Barão de Souza Queiroz, que fica na Avenida Gabriela Mistral, na Penha. Naquela época, a condução era escassa e eu andei por quase 2,5 km de casa até o grupo por algumas semanas. Depois de duas semanas, comecei a ir de ônibus, que antigamente apelidavam de “poeirinha”, justamente porque vinha de locais onde não havia asfalto e, de verde e amarelo que era, tornava-se bege de tanto pó.

A minha casa tinha vista para o rio Tietê, na divisa de São Paulo com Guarulhos. Antes da retificação, a cada tempestade, a “Vila do Sapo”, como era apelidado o loteamento que ficava do outro lado da estrada de ferro, inundava, pois o rio subia demais. Era “Vila do Sapo”, pois a região foi sendo habitada pouco a pouco, numa região que era um brejo, cheio de sapos.

Hoje, a rua onde eu morava está duplicada, asfaltada, com água encanada e é um dos principais corredores de acesso de quem vem do Centro via Marginal para o bairro de São Miguel Paulista, com acesso pela lateral da Ponte do Imigrante Nordestino.

Esqueci de um detalhe: meu pai, todos os sábados, ia pescar no rio Tietê e, às vezes, eu ia com ele… A gente pegava peixe graúdo! Hoje, onde estão estes peixes? Infelizmente a poluição, o esgoto doméstico e o industrial acabaram com eles.

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