Minha querida Santo Amaro de São Paulo

Todo lugar tem suas próprias características, de maneira a torná-lo um lugar único nas cabeças das pessoas que ali nascem e ficam durante todas as suas vidas.
O amor que alimentamos pelo torrão natal se assemelha ao condicionamento recebido pelo filho no seio familiar, tal como o sabor inigualável do tempero da comida da mãe, os jeitos e trejeitos dos irmãos, do pai, da avó etc…
Essas familiaridades levadas à cidade onde nos criamos, cada qual com a sua, faz você se identificar com os detalhes dessa cidade-mãe e, assim, individualizá-la entre as demais de seu estado e país. Os detalhes ficam por conta dos costumes, dos prédios, das tradições, das histórias que se contam e das personagens que se destacam durante o tempo de seu crescimento.
Em Santo Amaro não foi diferente, para as pessoas que lá viveram e cresceram durante as décadas de 1950 e 60, quando aquele bairro ainda mantinha sua principal característica, a de ser um bairro-cidade, distante do grande centro e provinciano pelo passado que teve.
Os costumes e tradições ficaram por conta das romarias a cavalo em direção à cidade de Pirapora do Bom Jesus – tradição que até hoje se mantém -, e das festas do Divino Espírito Santo, no Largo Treze de Maio. Entre as personagens que se notabilizaram, tivemos o poeta Paulo Eiró, o escultor Júlio Guerra, o político e farmacêutico Zé da Farmácia (vereador José Diniz) e uma parteira conhecida pelo nome de Benedita Martins ou “Dita Parteira”.
Tivemos um anãozinho engraxate (Toninho Engraxate), muito conhecido por suas firulas no Largo Treze, dois andarilhos conhecidos por BIG e Nega Luíza, e ainda a Corujinha, uma velhinha que pedia esmolas num carrinho de madeira. Os dois atacantes do nosso time de várzea – Picareta e Cartola – e o temido lutador Gatica.
Entre os prédios perdidos, restam lembranças do Grupo Escolar Paulo Eiró e do Cine São Francisco, que terminou num trágico incêndio.
Tudo isso grava os momentos de crescimento daqueles que nasceram em Santo Amaro, numa determinada época.
Retrata bem isso tudo o que ouvi certa feita de um menino, como forma de desabafo, que é uma historinha que agora peço licença para repetir para vocês:
Era uma vez um menino que cresceu ouvindo histórias de contos de fadas de sua velha mãe.
Ouvia esse menino histórias de um lugar onde o povo reverenciava o Divino Espírito Santo com majestosas festas. Histórias de um povo que pagava tributo ao Bom Jesus com cansativas cavalgadas (romarias a Pirapora do Bom Jesus).
Histórias de um lugar onde vivia uma velha e bondosa senhora negra que ajudava as crianças pobres e ricas a nascer (Dita Parteira).
Histórias desse mesmo lugar onde vivia um bondoso farmacêutico que atendia, como se fosse médico, as pessoas pobres com muito carinho. Tão bom era o farmacêutico que esse mesmo povo o elegia como seu representante junto ao parlamento da cidade grande (Vereador José Diniz).
Histórias de um lugar fantástico onde nasceu um homem que pintava sua cidade em coloridos quadros e que construía gigantescos homens de concreto (Júlio Guerra).
Histórias de um lugar alegre, onde vivia um anãozinho exótico que engraxava os sapatos das pessoas (Toninho Engraxate).
Histórias de uma praça que abrigava um coreto, que continha uma banda, onde as mocinhas casadoiras podiam passear com segurança (Praça Floriano Peixoto). Fato costumeiro sempre após a missa de Domingo na Igreja Matriz, que era ligada a essa praça por uma Rua Direita (Rua Capitão Thiago Luz).
Histórias de um cinema que queimou, para a tristeza desse mesmo povo (Cine São Francisco). Enfim, histórias de um lugar absolutamente romântico, lírico, alegre, seguro e fraternal, onde sua gente cultivava o hábito da cadeirança nos crepúsculos dos dias.
E essas histórias foram pintando na cabeça dessa criança um quadro colorido de um lugar que se aproximava do paraíso (Santo Amaro). E esse menino, que ouvia de sua velha mãe todos esses contos, foi crescendo, e à medida que começou a sair sozinho pelas ruas começou a identificar o lugar onde tinha nascido como sendo aquele das histórias de sua mãe.
Esse menino foi feliz porque ainda conseguiu essa identificação, mas foi entristecendo que viu tudo se acabar. Hoje o menino que virou homem, não é contra o progresso, mas vai gritar sempre contra a incúria dos administradores de sua terra, que sem se identificar com seus administrados, acabaram por permitir a derrocada de seu bairro- cidade.
Porém, ao mesmo tempo em que gritará contra tais desmandos, manterá sempre em suas lembranças as histórias de sua querida mãe.
Pois é. É como dizia Paulo Eiró: Feliz quem amou, feliz!

e-mail do autor: [email protected]