Minha casa, minha vida na Vila das Belezas – 60 anos – parte I

Nasci em 1950, no Bairro de Vila Carmem no Brooklin, meus pais, Josef e Agnes, moravam de aluguel, no bairro citado, quando chegaram da Europa, após a Segunda Grande Guerra em 1947, depois de algumas andanças, pararam por um tempo maior na Vila Carmem. E começaram a procurar terreno para comprar, todos os fins de semana iam para diversos bairros da Zona Sul com essa finalidade, foram para o Jabaquara, Vila Mariana, Chácara Santo Antonio, Santo Amaro e nada de encontrar um terreno compatível com o salário de meu pai que era mecânico.<br><br>Em um certo domingo, meu pai passando pelo Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, viu uma propaganda de um bairro novo, chamado Vila das Belezas e os corretores ainda forneciam a condução para conhecer o local, chegando por lá, foi direto ao loteamento da família Gazzotti.<br><br>Nesse loteamento tinha diferença de preços, principalmente próximo á Estrada de Itapecerica da Serra, onde era mais caro, mas o corretor disse que mais para cima, no alto do bairro, era mais barato e foi assim que meu pai conseguiu comprar um lote de 10m x 25m, que era padrão naquela época e com direito a mais três metros, que eram para quem assumisse primeiro um valo que dividia os bairros de Vila das Belezas e do Jardim São Luiz, (esse valo um dia foi divisão de fazendas na região).<br><br>O lote, dentre muitos da “rua”, que era mais um caminho que se chamava Rua Projetada, um trecho de 200 metros, nos anos 1960 passou a ser chamada Rua B, que, já, se unia com a Rua B do Jardim São Luiz, que tinha e tem quase um quilometro, e nos anos de 1980 praticamente virou uma avenida chamada Rua João Fernandes Camisa Nova Junior. Essa rua de um lado tinha uma grande chácara e terrenos com mata fechada e do nosso lado apenas lotes vazios também com mata.<br> <br>Aqui no alto do bairro, a Vila das Belezas forma um bico que entra no bairro do Jardim São Luiz, esse bico tem cerca de quarenta lotes, vinte lotes de cada lado, todos demarcados com estacas de concreto e madeira. Meu pai pegou o lote de número sete, era todo reflorestado com eucaliptos e tinha pouco de mata nativa, apesar de pequeno a limpeza era difícil, pois a mata era fechada. Seria o primeiro lote a ser vendido naquele espaço, diferentemente dos loteamentos normais ou atuais onde o terreno é vendido todo limpo e com ruas definidas.<br><br>Depois de fechar o negócio com o loteador, meu pai trouxe minha mãe para conhecer o local, comigo no colo, e qual não foi o desespero dela, aos prantos chamou meu pai de louco e disse que jamais moraria ali, ela chorava e dizia:<br>- “acabei de chegar de um inferno, (guerra) e você quer morar no fim do mundo”<br><br>Pois ela morava em um bairro bom, que era o Brooklin, com muitas famílias européias e infraestrutura, mesmo pagando aluguel.<br>Os nossos únicos vizinhos eram: um casal de idosos de uma chácara que ficava em frente e um campo de futebol do time Vila das Belezas Futebol Clube que existia desde 1942. O bairro é de 1924. Desse campo de futebol tínhamos uma vista fenomenal da cidade, por isso o nome Vilas das Belezas.<br> <br>Os jogadores e as torcidas eram da parte baixa do bairro, a mais antiga e só tinha jogo aos domingos, alguns torcedores que iam ver o jogo do bairro Jardim São Luiz, passavam em frente ao terreno, viam meu pai trabalhando na obra e alguns comentavam:<br>- "mais um louco para morar nesse fundão".<br><br>Apesar de tudo, meu pai conseguiu convencer minha mãe de que era melhor morar ali do que pagar aluguel, mesmo porque os amigos que vieram juntos no navio da Europa, cerca de uns cinco casais, já tinham comprado seus terrenos e construído suas casas e tinham melhorado de vida, esse fato incentivou meu pai a fazer a mesma coisa, mesmo que o local fosse distante, mas com sua casa própria.<br><br>A partir daí todos os fins de semana ele vinha até o lote roçar o terreno, o que levou mais de um mês, e depois cercou com arame farpado para delimitar o lote melhor e de vez em quando nós trazia para acompanhar, eu ficava no carrinho e minha mãe ajudava no que podia.<br><br>Após o terreno estar roçado e cercado, foi feito o poço que com a terra ajudou a nivelar o terreno e cobrir alguns defeitos, por causa da localidade alta o poço chegava a 27m (vinte e sete metros) de profundidade, devido ao local ser alto, e o diâmetro, era padrão, cerca de 1,50m (um metro e meio), vale lembrar que, por exemplo, na Chácara Santo Antonio, onde morava minha madrinha o poço dava água com 5m de profundidade por isso a água não era boa, esse bairro era de terra preta e arenosa devido a várzea do Rio Pinheiros e com o tempo havia a necessidade de aprofundar o poço para alcançar outros lençóis freáticos, para não faltar água, pois o uso era grande devido a obra.<br> <br>Esse poço, depois de cavado, era ladeado no seu fundo, cerca de uns 5m de altura por tubos de concreto para não desbarrancar, quando o poço era “refundado”, a parede do poço abaixo dos tubos era revestida de tijolo e argamassa mesmo. Na borda do poço era construída uma mureta de 50 centímetros de altura e colocado uma laje de concreto com furo quadrado no centro com tampa, nessa mureta instalava-se o “sarilho” para puxar a água através de uma corda e de um balde, o “sarilho” tinha uma catraca roseta, que no caso de cansaço ao puxar a água ela servia de descanso, era só travar o “sarilho”.<br><br>Nas décadas de 1950 e 1960 os mais conhecidos “poceiros” eram o Zé poceiro, migrante de Minas Gerais, que criou e educou vários filhos com esse oficio, outros conhecidos eram o Mário e João “poceiro”, nossos vizinhos, que além da profissão eram jogadores de futebol muito conhecido na região, inclusive o João tinha o apelido de “João foiçada”, por causa de seu jogo violento no futebol.<br><br>Já em meados de 1952, meu pai começou a cavar os alicerces como ajudante de pedreiro para baratear os custos, comprou areia, tijolos, pedras, cimento, etc. Aos poucos e devagar ia levantando uma casinha de quatro águas, ou seja, quarto, sala, cozinha, banheiro, uma área e um puxado que servia de lavanderia com um poço dentro que foi a primeira coisa a ser feita, depois de cercar o quintal, a casa demorou mais que o normal para ser construído devido ao furto de material de construção que não tinha muita proteção.<br><br>Depois da casa levantada e coberta com muito “custo”, era colocado no telhado um ramo de eucalipto, costume da época, para dar sorte e dizer que a obra estava concluída. No final do ano, meus pais mudaram para cá, com a casa sem reboque, sem janelas e o piso bruto de concreto. As janelas foram fechadas com sobra de madeira, só tinha as portas externas, energia elétrica, nem pensar, ninguém no bairro tinha ainda, pelo menos na parte alta.<br><br>A rua não tinha nome, como já citamos, era chamada de projetada, pois ficava em um intervalo entre dois bairros, em um comprimento de aproximadamente 200 metros entre as futuras ruas Artur Bliss, (antiga, Rua Alessandro d'Alessandro) e Jose Geniolli.<br><br>Em 1956, já com alguns vizinhos, chegaram os postes, pois as ruas acabavam de ser abertas com aqueles grandes tratores, que faziam a festa da meninada que brincavam na terra removida e há luz elétrica em todo bairro, mas na nossa rua não, pois era projetada, em 1959 meu pai pediu energia elétrica emprestada do vizinho do fundo, lá era outro bairro, assim dispensamos os lampiões, a querosene e as velas e isso foi até 1962 quando meu pai e os vizinhos do lado, que foram chegando, fizeram uma "vaquinha" e compraram dois postes da Light, hoje Eletropaulo, pois ela só ligava a luz em casas com poste a menos de 40 metros de distância, portanto com a colocação desses postes tivemos enfim nossa própria energia elétrica. <br><br>Continua…<br><br><br>E-mail: [email protected]