Meus cartões

Doris Day escreveu, e bem, sobre seus postais paulistanos. Quem não os tem?
Não sou exceção, então aqui vão os meus, mais emocionais que tradicionais.

A antiga entrada de S.Paulo, estreitíssimo pontilhão, no final da Av.Raimundo Pereira de Magalhães, a estrada velha para Campinas.Verdadeiro buraco de rato, lá continua, tão exíguo e baixo como antes, devendo causar um frisson nos estômagos dos ocupantes dos ônibus, que ali passam raspando seus tetos, rumo ao Anastácio.

O desaparecido portal do Pque.Siqueira Campos, em estilo greco-romano. Com uma belíssima pérgola, e para mim, ainda adolescente, duas estonteantes e lascivas estátuas de ninfas nuas, Nostalgia e Aretuza, obras em mármore do mestre Leopoldo e Silva. Verdadeiro espetáculo para quem passava na Av.Paulista de então. Aretuza foi levada para dentro do parque, e Nostalgia, infelizmente, jaz esquecida numa sinistra pracinha diante do Jockey, sujeita a mutilações. E ainda aguardando um benfeitor que a devolva ao Trianon, seu Paraíso Perdido.

A vista, numa tarde dourada de outono, descortinando toda a tranqüila cidade ao norte do terraço da igrejinha que fica na R.Frei Caneca, e que ainda marca as horas com toques de sino.

O Estádio do Pacaembu, onde treinei, quando jovem, pelo DEFE. Fazia o Cooper pelo gramado, tendo ao fundo a réplica do grande mármore de Michelangelo, o Daví, e a extinta concha acústica. Eu corria bem, e deixava para trás meus colegas.

A Catedral da Sé,vista ao longe e banhada ao Sol, de uma birosca a caminho da Penha, nos anos 50, como contei em "Romaria ao Santuário Vila Formosa".

A estrada de ferro, com seus trens manobrando, pachorrentos, próximos à Estação Barra Funda, vista da casinha de minha tia Maria José, na R.Lopes Chaves. Ali bem perto, num boteco da Copa de 50, vi uma garrafa ser estraçalhada no chão, junto com palavrões de desespero. Era o gol de Gighia, e a vitória do Uruguai.

O belo Parque Ibirapuera que conheci no IV Centenário, com o Planetário, a Oca, as grandes marquises de Niemeyer e a desaparecida Espiral do Centenário, tudo ainda "clean" e novo em folha. Na mesma noite, triângulos prateados choveram dos céus, e eu estava numa leiteiria, na Xavier de Toledo, bem próxima da Pça.Dom José Gaspar.

Cenas de emoções do passado, estas coisas a gente nunca mais esquece.