Aos 18 anos estava na hora de cumprir uma obrigação de brasileiro. Servir a pátria. E como servir a pátria? Apresentar-se ao exército para um ano em beneficio do país, em caso de alguma necessidade. Meu local de apresentação foi no 2º batalhão de Saúde, na Avenida Independência (Cambuci). E num belo dia de 1957, estava eu lá, numa boa. Na verdade não tinha muita vontade de servir o exercito porque ia ficar um ano sem trabalhar, apesar de ter o direito de continuar na firma, por lei. Num belo dia, logo pela manhã de uma segunda feira, eu e muitos outros jovens estávamos à disposição do militares. Eu levei um jornal A Gazeta Esportiva, para ler me distraindo. Mas logo de cara encontrei dois colegas de escola lá do Brás. Os veteranos que estavam no final de suas jornadas nos tratavam com autoridade, e prepotência. A princípio foi exame médico, depois de uma breve palestra. Mediram a pressão de todos, fomos à balança, a na marcação do meu peso o praça marcou errado e eu percebi. Não tive duvida, e falei: Capitão, a medida, esta marcado por engano. Ora, chamar um praça de capitão foi tudo o que mais ele queria ouvir. Mas os outros praças me chamaram de puxa saco,como se ele fosse capaz e me dispensar do exécito. Tive que engolir um tremendo mico. Eu nunca consegui entender aqueles risquinhos nos ombros dos militares. Nessa altura eu já estava bastante enturmado com outros rapazes. Sempre tive facilidade para fazer amizades. Sem contar que tinha os dois que estudavam comigo no Senai dois anos antes, mais três que entraram no papo, a coisa foi ficando gozada. Já tínhamos sido chamado atenção por um cabo, para não fazer bagunça. Mas na verdade estávamos contando piadas, em cima de algumas coisas que víamos. Como por exemplo, na hora de fazer o exame da vista. Todos nos 45 cinco jovens estavam pelados em volta da parede de um quarto que quando muito tinha uma escrivaninha. Minha Gazeta Esportiva foi divida para que todos colocassem suas roupas porque o chão estava sujo. No meio da sala foi colocado um painel com as letras a serem lidas por nos para ver se estávamos bem da vista. Aí que a coisa pegou e risos foram em abundância. Eu a turminha estávamos acostumados a ficar pelados porque jogávamos futebol e sempre se fica pelado no vestiário, na hora de colocar o uniforme do clube. Mas a maioria não. Aí que foi gozado. Muitos com vergonha colocavam uma mão na frente e outra atrás para esconder o pênis e a bunda. Os risos estavam altos, daí é que fomos chamados a mais duramente atenção. Mas os militares também riam. Tinha um cara que era alto bem gordo, e um bilau do tamanho de um amendoim. Um japonês que tinha os pelos da parte baixa totalmente lisos, diferente de nos que tínhamos crespinhos. Confesso que não dava para não rir. Eu e os outros na hora de ficar no meio da sala para ler, colocávamos as mão na cintura como se estivéssemos no jogo de futebol. Na nossa conversa escapavam alguns palavrões. Outra chamada no saco. Um oficial chegou a dizer para os outros que nos éramos da malandragem. Numa chamada de atenção, teve um cara alto e forte que se exaltou e xingou um praça. Vários outros vieram pegaram ele pelo braço e o levaram para dentro, na base da brutalidade. Uma hora mais tarde o grandalhão exaltado estava carregando um armário nas costas para deixar de ser trouxa. Depois do almoço veio a entrevista. Um sargento fazia muitas perguntas. Eu bastante desinibido batia um papo como e fosse velho conhecido do capitão. (esta sim era capitão). Quando ele ficou sabendo que eu trabalhava com estofados, me disse que eu seria seu ordenança, e ia ficar na casa dele reformando os sofás e poltronas. E disse mais que eu ia ficar na maciota. Com umas folgas no fim de semana para pagar umas coroas boas, de grana. Dizia ele. (Aquele cara devia ser mulherengo) Mais tarde vieram as provas escritas. Historia matemática, e outras coisas bem simples que não tinha como errar. Falei para o pessoal: Olha vamos errar tudo, porque os mais burros eles dispensam logo de cara. E assim foi. Más o oficial professor deu uma passada de olhos pelas carteiras e percebeu que todo mundo estava errando. Mandou parar.
– Vocês sabem para que serve estas provas escolares?
Ninguém respondeu. Foi um silêncio total.
– Olha, é o seguinte: Os mais inteligentes vão servir neste quartel. Os mais burros vão servir em Mato Grosso.
Ouviu-se um grande barulho, ao voltar às folhas para a correção.
Um mês depois fomos para o quartel. Alguém ia pegar a farda outros não. Dezenas de jovens esfregando as mãos esperando não ser chamados. Foi uma combinação de 50% sim e outros 50 não. Os nomes eram ditos através do microfone, e muitos vibravam quando os nomes dos dispensados apareciam. Quando estava no penúltimo nome apareceu o meu. Dei um pulo igual ao Pelé dava quando marcava um gol. Meses depois todos nos fomos chamados ao estádio do Pacaembu para jurar a bandeira como reservista de terceira categoria, em caso de necessidade de guerra, sermos chamados.
Nunca vi tanta sinceridade naquela jura. Tinha gente que jurava por todos os juros!