Meu grande amigo tucano

Quando atingi o auge de nossa criação de coelhos, possuíamos perto de cem cabeças de diferentes raças, desde o coelho caipira sem cor definida até os Gigantes de Flandres, uma ótima raça para carne e pele. A mim sobrava a árdua tarefa de, diariamente, cortar capim, que não era pouco, para alimentar de forma complementar todos aqueles roedores. Quantas vezes não pude jogar bola ou empinar pipas com os amigos, pois ainda não havia cortado o capim para aqueles fominhas.

Pois bem, foi num destes dias que, logo pela manhã, o Alemão chegou em minha casa com um irrecusável convite para andar a cavalo até a lagoa da Fazenda do Carmo, hoje Parque do Carmo. Duas das aventuras que eu mais gostava eram nadar no lago e cavalgar.

Já estava pegando o calção para nadar quando escutei a voz da minha mãe lá da máquina de costura: "Marquinho, já cortou capim para hoje? Se não cortou, vá cortar antes de sair com o Alemão".

Esbravejando, fui até as coelheiras e apanhei o meu facão de cortar capim, aquele mesmo que cortou a cabeça do Patão. Catei os sacos velhos de estopa e fui cortar capim da angola lá na chácara do Seu João das Vacas, onde hoje passa a Radial Leste.

Era início do verão com muita chuva e o capim estava lindo, com quase um metro e meio de altura, com brotos verdes e macios. Comecei a cortar o capim em feixes e ele estava tão macio que bastava um golpe de facão para cada feixe. Estava cortando rápido, mas não tão rápido quanto o Alemão queria, e o tempo todo ele ficava enchendo o saco – não o de estopa, mais sim o meu. Ajudar a cortar o capim que era bom ele não ajudava, nem mesmo colocava o capim no saco.

A imagem está viva em minha memória até hoje. Juntei um feixe mais parrudo e desferi um golpe mais forte de facão. O facão passou como uma navalha pelo feixe e escapou da minha mão e, girando, atingiu a cara do Alemão. Foi um grito só: "meu nariz, cortou meu nariz!". Nariz era pouco: o Alemão tinha uma napa maior que a de um tucano. Por um momento não sabia se ria ou se acudia o meu amigo. Não deu muito tempo para pensar, ele disparou para casa segurando o nariz com a mão esquerda e pingando sangue pelo caminho. Deixei o capim, saco e facão no capinzal e fui correndo atrás dele.

Encontrei o Alemão na cozinha da Dona Isabel, sua mãe, que com uma mão limpava o sangue da cara do Alemão, e com a outra arrancava sua orelha.

Vendo que o corte era profundo, Dona Isabel mandou chamar Seu Gabriel, o pai do Alemão. Seu Gabriel tinha na época o único táxi de Itaquera. Quando Seu Gabriel chegou em casa, fez a pergunta fatídica para meu amigo: "Valter (nome do Alemão), como foi que aconteceu?". O Alemão não teve dúvidas e, rapidamente e com segurança, falou que estava correndo com o facão na mão e caiu de cara sobre a lâmina. Com esta afirmação, nossa amizade ficou mais fortalecida.

Colocamos o Alemão no carro e fomos para a farmácia do Seu Barreiros, que ficou muito impressionado não com o corte, mas com o tamanho da napa daquele moleque. A brincadeira custou oito pontos de latinha no nariz do Valter, que passou quinze dias utilizando um curativo que mais parecia uma máscara.

Tenho visto pouco o meu amigo, que hoje mora em Uberlândia, porém, quando nos encontramos, é impossível não lembrar do ocorrido, pois a cicatriz está lá para comprovar.

Olhando mais atentamente para o rosto do Alemão hoje, pude notar que o nariz dele não é tão grande, proporcionalmente ao seu rosto, como era quando criança, e isto me faz acreditar que, sem querer, eu fiz uma plástica naquele narigudo e nunca cobrei por isto.

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