Os mistérios de São Paulo

(Anos 60/70)

Um belo dia eu deixei de ser o "cocco di mamma" (queridinho da mamãe), o "cherubino della nonna" (o querubim da vovó), o "bel principe del babbo e del nonno" (o belo príncipe do papai e do vovô). Um belo dia, o cordão umbilical foi cortado (ma non troppo) e fui empurrado para fora do ninho. Havia chegado o momento de aprender a voar. "U guaglione" (o garotão) devia tornar-se um homem. E um homem deve trabalhar e ajudar nas despesas da casa.

Quando isso aconteceu, tio Amedeo apertou as minhas bochechas, encarou-me e disse em tom de gozação: "Agora você sabe como alguém que era tratado como um "agnolino" (anjinho) vira um "pezzo di merda" (pedaço de merda)!". Realmente, eu me sentia um "stronzo" (cocô). Ele deu-me um abraço apertado e disse: "Agora você vai começar a viver! Vai conhecer a realidade da vida.”. "Chi non lavora, non mangia" (quem não trabalha, não come). “E tem mais” – falou com voz de safado ao meu ouvido -, "Chi non lavora, no fà l'amore" (quem não trabalha, não faz amor).

Esta última frase, eu não sabia bem por que, embora intuísse, tornou a idéia de eu ter de trabalhar interessante. E eu, mui a contragosto, aprendi a voar.

Finda as mordomias, revogada qualquer disposição em contrário, a minha vidinha pacata virou de pernas para o ar. Começava a correria atrás da documentação; vai-e-vem no Ministério do Trabalho em busca da Carteira de Trabalho de menor; outra correria para o ginásio, tentando a transferência para o curso noturno; e dias de busca por um emprego razoável. Exames médicos, chapa dos pulmões e, finalmente, a Carteira de Saúde!

E, num belo dia, eu, o "cocco di mamma", virei nada mais nada menos do que um "Office boy", e comecei a "voar" por essa São Paulo que sempre me pareceu tão transparente, mas que, na verdade, tinha muitas facetas e um lado obscuro…

Pela manhã, engolir "male e porcamente" o café com leite, ouvir a contragosto as recomendações da minha mãe, pegar a pasta e correr para o trabalho. Na firma, reunir a papelada, idealizar um roteiro eficaz, anotar as prioridades e correr para o ponto do ônibus. O trânsito violento, as porteiras da Mooca, a Ladeira do Carmo entupida e, finalmente, ser despejado na Praça Clóvis.

Ali, a cidade e a vida me confrontavam. E eu as enfrentava. E no meu cotidiano desvendava os seus segredos. Elas ensinavam e eu aprendia. Aprendi a ser esperto. Corria os bancos fazendo amizade com os atendentes dos "guichês". Isso rendia, em curto prazo, fichas de chamada com um número alto que se revertia em tempo, tempo para vadiar e viver a cidade. Nesse ponto, reunia-me à grande confraria dos "Office boys" exercitando a solidariedade e correndo atrás de aventuras.

E eu, o "cocco di mamma", aprendi a fumar – um maço de Continental, por favor… Aprendi a encostar-me a um balcão de bar e beber de um gole só o cafezinho ralo e fumegante que saía de velhas máquinas "Soberana". Era o nosso "chafé" de cada dia. E, deixando a marmita de lado, aprendi na prática que tudo aquilo que não mata, engorda, e passei a devorar todos os acepipes que as cozinhas dos bares e botequins da Avenida São João, do Largo do Paissandu, da Praça da Sé, ofereciam. Delícias dignas de um "gourmet": "Passaporte para o inferno" (croquete de camarão), "Jesus me chama" (croquete de carne), "Passaporte para a glória" (Empadas de camarão, de palmito). "Vai na paz do Senhor" (coxinha de galinha) e o delicioso e refinado "Câncer" (churrasco grego).

Aprendi também a valorizar a cozinha oriental: não havia nada melhor que os "Pastéis de vento" (muita massa, pouco recheio) que o chinês da pastelaria "A Borboleta", na Rua Onze de Agosto, nos oferecia. Pastel sempre acompanhado de um copo de "garapa" rançosa. Toda quarta-feira dava-me ao luxo de saborear o "Eterno orgasmo" – uma feijoada de aparência e procedência duvidosa que eu comia em um restaurante da Rua Riachuelo. O "eterno orgasmo" (que poderia acontecer ou não – era um elemento surpresa.) vinha depois, à noite: idas e vindas ao banheiro, uma dor de barriga terrível e a diarréia. Tossir nesse momento era um perigo. Espirrar, nem pensar…

E por falar em banheiro, lembrei dos saudosos "Supositórios" – uns kibes raquíticos que eram vendidos em um bar próximo ao antigo prédio do "O Estado de São Paulo", na boca do viaduto. O bar funciona até hoje. Se ainda vendem "Supositórios", eu não sei.

Acostumado aos vinhos (em doses mínimas, no almoço), aos refrigerantes do tipo "Crush", "Cerejinha", “Guaraná da Brahma”, "Coca-Cola" e, vez ou outra, meio cálice de "Martini", passei a ser um "expert" em caipirinha, rabo-de-galo, sempre em doses mínimas, bebidas rapidamente para evitar o "flagra" e as multas do Juizado de Menores contra o dono do bar. Depois, aderi à mania de tomar "Caracu" com ovo (colocava-se a bebida no liquidificador, acrescentava-se um ovo inteiro – com a casca e tudo – e batia até espumar) e o delicioso refresco de groselha (da "Dubar") com água mineral gaseificada (da "Pilar").

E eu, "il cherubino della nonna", continuei dando ouvidos à vida e à cidade. De querubim a diabrete foi um passo. "Dio fà uno, il diavvolo ne fà un cento." (Deus faz um, o diabo faz cem)…

Descobri que, além dos apaixonantes livros do Machado de Assis, José de Alencar, José Mauro de Vasconcellos e outros escritores, havia uma Literatura paralela, marginal. Por preconceito ou proibição (eu era menor), não se podia comprar os livros de Cassandra Rios – a dama do amor lésbico – nas livrarias, então ia comprá-los em uma banca de livros de segunda mão, lá na Ipiranga, esquina com a São João. Mais abaixo, próximo a Senador Queirós, vendia-se "A Carne", do Júlio Ribeiro. Em uma banca da Brigadeiro Luís Antonio, próximo à Rua Humaitá, comprei "Meu Destino É Pecar" e "Escravas do Amor", ardentes e "picantes" folhetins de Susana Flag (pseudônimo de Nelson Rodrigues). E o "hit" da década de 60 era comprado numa banca de jornal, na Praça do Correio: "Os Catecismos"! Office Boys, adolescentes e marmanjos eram fanáticos pelo tal Carlos Zéfiro, um misto de escritor e desenhista, autor de uma infinidade de "catecismos" que revolucionavam o imaginário sexual dos seus fiéis leitores… Mais tarde, pelo meio da década, os livretos com fotos pornográficas, em branco e preto, denominados "Pour les Hommes", que vinham dos anos 50, deram lugar às coloridas fotos das revistas suecas.

Havia também "O Pasquim"! No dia em que chegava às bancas, nós, os "boys", nos cotizávamos e comprávamos um. Juntos, nos divertíamos com o Fradinho, o Orelhana e tantos personagens que afrontavam a Ditadura. Foi nessa época que eu descobri os "sebos", como o do Farah. Não foi só o tempo da literatura realista ou da devassidão. Um mundo de livros e de autores estrangeiros esperava por mim. E foi a época em que os jornais deixaram de ser só um veículo de notícias sobre futebol, tiras humorísticas e suplementos infantis. Bailava-se ao som da música que a Ditadura nos impunha… E consumíamos também o maior fenômeno do Jornalismo de São Paulo: O "Notícias Populares".

A vida e a cidade ensinam-me que, mais importante do que ser quem se é, é ser o que se veste. Então eu, o "bel principe del babbo e del nonno", que havia saído do palácio para se misturar à plebe, virei Narciso: fiquei hipnotizado pelas vitrines da Rua Augusta e da Barão de Itapetinga. Marcas famosas, grifes italianas, tudo a um preço nas alturas. Moda é moda, vale o sacrifício… Mas, disposto ao sacrifício e sem dinheiro, o melhor a fazer era ir às confecções do Bom Retiro. Comprava-se lá toda a moda da Augusta e Barão por menos da metade do preço. Entre o original e o similar não havia diferença visível. E a diferença estava na etiqueta, coisa que menos importava às pessoas. Era o tempo das calças italianas, das calças Lee brancas, mais tarde das calças Calhambeque; das camisas vermelhas e dos sapatos coloridos. O Lancaster vai para o fundo do guarda-roupa. Usa-se Pino Silvestre, e os caros perfumes Balenciaga, Cartier, Van Cleef etc. eram usados com parcimônia, em ocasiões especiais.

Foi uma loucura consumista e desenfreada que permaneceu até o dia em que eu ouvi alguém me dizer: "Paz e amor, bicho!". Daí em diante, o movimento hippie começou a falar-me de paz, flores, liberdade e felicidade. E, como liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, comprei a idéia. Com uma calça jeans, um tênis "batido", uma camiseta de algodão e uma bolsa a tira-colo, eu, o Narciso, virei "bicho-grilo". E nada como "dar uma chegada" lá na Ipiranga e São João "pra trocar umas idéias" e marcar uma "ponta". Ou então ir até as quebradas da Major Sertório, na "captura de uns lances"…

E a vida e a cidade revelaram-me o seu lado sórdido. A vida podia ser má e a cidade era mais do que os cinemas, as vitrines, as leiterias e as confeitarias da minha infância. Como Creta, a cidade tinha também o seu labirinto.

Certos prédios, como os das ruas Vitória, Guaianases, Timbíras etc., tinham um trânsito incrível em suas escadarias internas. Os elevadores de nada serviam aos propósitos "exploratórios" dos visitantes, pois a "exploração" tinha que ser feita andar por andar… Lá íamos nós, os boys, "curiosar" naqueles, como diziam os mais velhos, antros de perdição. Éramos muito bem recebidos pelas "empresárias do ramo do prazer". Elas viam em nós "futuros" a render lucros a longo prazo. E as "executivas", além de enfatizarem os próprios atributos e competência, elogiavam e cobriam-nos de atenção. Afinal, éramos os "futuros clientes" e elas trabalhavam com a perspectiva de grandes negócios. Um cafezinho, um biscoitinho e rua. Elas tinham que trabalhar. Beijinhos, sorrisos e um "volte sempre". Tão diferente aqueles tempos, quando até para ser uma prostituta era preciso ter ética e classe…

A vida e a cidade tiraram do meu rosto os óculos cor-de-rosa da ilusão. E eu, atônito, vi-me frente à realidade. Vi o que nunca notara antes. E a vida, agora bandida, levou-me a "voar" pela cidade: a Sé com seus mendigos falsos e verdadeiros; os vigaristas; batedores de carteiras e os "punguistas"; prostitutas baratas, vendendo o corpo por um prato de comida; loucos, subnutridos… Uma gama enorme de marginalizados. Na República e no Jardim da Luz, homossexuais e prostitutas em procissões diurnas e noturnas. Na Direita, Barão, Sete de Abril, seres humanos à sarjeta, misturados ao lixo e a detritos, esperando pela caridade alheia. Vi uma multidão de pessoas, trabalhadores como eu, movidos pela esperança, caminhando apressadamente em busca de um lugar ao Sol. Vi contrastes gritantes, como o carro de luxo emparelhado com a carrocinha do catador de papel, em um cruzamento; a elegância sobrepondo-se a trajes humildes e a farrapos.

E vi a cidade como uma grande sinfonia, em que cada um de nós, independente de cor, credo, condição social, procedência, somos notas importantes a dar vida à música que compõe a trilha sonora da cidade de São Paulo. Uma cidade nua e crua, mas que não negava oportunidade a ninguém.

Coisa estranha o amor. Mesmo sabendo dos seus deslizes e pecados, eu continuei amando a cidade. Melhor, apaixonei-me completamente por esta Santa e Prostituta.

E foi assim que, gota a gota, a vida e a cidade revelaram-me os seus mistérios. Mas há muito por descobrir, muito mesmo. Pois, a cada amanhecer, São Paulo é uma nova cidade. É futuro!

"Porco Dio!", como o tempo passa rápido! É preciso retornar aos bancos, recolher a papelada, conferir os carimbos, conferir os recebimentos; entregar tudo na firma; correr para a casa, tomar banho, engolir qualquer coisa, concluir a lição começada no dia anterior, pegar o material e ir para o ginásio. "Perbacco!, hoje tenho prova de matemática!. Vambora, gente! Olha só esse "cazzo" de trânsito!”…

e-mail do autor: [email protected]