Faz quase trinta anos que conheci a Maria. Pessoa doce, simpática, sempre com um sorriso bom. Maria Carmem! É a prima do meu marido, prima querida.
Quando começamos a namorar fui conhecer a Maria, como todos os seus parentes, mesmo os não tão próximos. Quando a conheci, a prima não passava por bons momentos: a sua mãe, na época, era paciente terminal, mas ela tentava manter o sorriso e nos recebeu bem.
Conversamos e percebi que ela era uma pessoa importante. Importante porque sincera, amigável, ética, com um profundo respeito e amor pela família. Um dia me disse que resolveu nem pensar em se casar para não ter de se afastar da família. Acreditei piamente, porque ela era como um patrimônio nosso. Maria era ímpar. Pode-se andar por São Paulo inteiro e não encontrar ninguém como ela.
E não faltam situações pitorescas para falar da Maria. Quando tentou aprender a dirigir, por exemplo, não conseguiu jeito de engatar a segunda marcha e então andava só na primeira. Qual o problema? Raramente atendia à chamada do celular, porque o mesmo ficava no fundo da bolsa. Quando o celular tocava e até que ela o encontrasse, já tinham desligado. Ela não sabia identificar a ligação e ficava tudo por isso mesmo. Ela achava tudo engraçado e contava tudo isso sem nenhum vestígio de constrangimento. Tudo na boa. Maria era da paz e da simplicidade.
No nosso último encontro, nas férias em São Paulo, ela me disse que freqüentava um centro espírita próximo a sua casa, no bairro do Ferreira. Só que o seu cachorro sabia disso e chegava antes dela e ficava deitadinho sob a cadeira onde ela se sentava. Isso nos leva a crer que o orientador do seu grupo sabia por antecipação se a Maria iria às palestras naquela noite ou não. O cãozinho avisava sempre, infalivelmente.
Um dia ela saiu para trabalhar, entrou no ônibus e, sem perceber, o amigo canino fez o mesmo. O cobrador chamou a atenção gentilmente, até porque o mesmo a conhecia na viagem de todos os dias. Ela teve de descer, levar o mudo amigo para casa e, assim, chegou tarde no trabalho.
Na casa da minha sogra, num Natal, apareceu um panetone embrulhado de uma forma inusitada. O meu marido achou esquisito e perguntou: "Quem trouxe um panetone embrulhado no papel das Lojas Pernambucanas?". Eu respondi: "A Maria". Rapidamente ele concluiu: "Tá explicado".
Tudo para ela tinha um final feliz, um sorriso gostoso. Quando a situação era meio ruim, ela costumava concluir: "Ah!, deixa, vá; já passou".
Todos os anos a gente contava com ela para as festas de aniversário do meu filho. Ela nunca faltou. Infalivelmente ela chegava e eu guardava bolo para ela.
Um dia, com pouco dinheiro, ela, de Natal, me deu apenas um sabonete Francis, de caixinha, embrulhado para presente. Confesso que nunca recebi um sabonete de tão boas mãos e tão perfumado. Parece que o sabonete roubava um pouco do perfume da alma dela.
Mas ontem a Maria resolveu ir embora. Resolveu ir para a casa do pai, de repente, sem dar trabalho, sem se despedir. Nós estamos chorando muito. Ela, além de tudo, tinha a cara de São Paulo. Aposentada, continuava trabalhando e adorava a cidade.
Mas eu imagino a Maria conversando com São Pedro. Com certeza, ele deve estar dando algumas boas risadas com ela. Ele deve estar curtindo muito aquela bondade, aquela pureza, o sorriso sem malícia, a disposição. Quem sabe, lá no céu, ela vá passear um pouquinho, visitar os parentes que já se foram, dirigindo o carro celestial, com São Pedro de carona, apenas na primeira marcha… Até porque o santo não deve ter pressa. Se tocar o telefone celular celestial e ela não atender… não faz mal… É porque ele ficou no fundo da bolsa… Mas ninguém poderia ter pressa ou ficar bravo porque ela não o atendeu…
O melhor do mundo era curtir o sorriso, a delicadeza e a bondade da Maria.
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