Memórias trabalhistas

Hoje os jovens não têm chance de poder ganhar uns trocos para suas despesas pessoais ou mesmo, para ajudar sua família, pois estão “protegidos” pela legislação que os impede de trabalhar.
Estou com 67 anos e posso garantir que, apenas esporadicamente, deixei de trabalhar nos últimos 55 anos e, garanto, toda essa carga operacional me foi benéfica e possivelmente me tirou da marginalidade.
Meu primeiro “emprego” foi, lógico, sem carteira assinada. Fui, a pedido de minha tia Neide, ajudar um feirante de frutas na feira que era montada no Largo do Arouche.
O Periquito (apelido do tal feirante) era muito alegre, totalmente calvo e bastante esperto. Pagava-me, em termos atuais uns R$ 10,00 e eu trabalhava vendendo e gritando na sua banca.
Às vezes montava em outro local da mesma feita uma banca de limão e me encarregava de cuidar da venda daquele produto.
Lógico que nessas ocasiões os R$ 10,00 eram acrescidos de mais alguns trocos por minha própria conta e risco.
Eu era considerado o “feirante turista” porque iniciava o trabalho por volta das 7:00 h enquanto todos os demais chegavam entre 4:00 e 5:00 h da madrugada, e largava o trabalho assim que Tia Neide acabava de fazer a feira, por volta das 13:00 h e ajudava-a a carregar a sacola das compras. Nunca armei ou desarmei as bancas.
Da feira fui trabalhar na Rede Latina Editora que vendia pelo processo de reembolso postal e estava estabelecida num prédio da Rua Libero Badaró.
Essa empresa era de propriedade de dois irmãos de uma amiga da minha tia Zazá, o Sr. Nicolau e o Sr. Ascânio.
Foi uma época de fazer muita força pois eu tinha que separar e embalar todos os pedidos recebidos e liberados e, no dia seguinte logo cedo, acomodar os pacotes no carrinho de cargas e empurrá-lo até a agência central dos Correios no prédio da Praça do Correio.
Ali chegando, formalizar o envio dos pacotes e depois, então, retirar os livros remetidos anteriormente e devolvidos os acomoda no carrinho e voltar para a firma empurrando aquela geringonça.
Essas tarefas eram minhas obrigações diárias e embora eu não gostasse as executava com dedicação.
Hoje eu vejo que todas as tarefas que executei desde aquela tenra idade não prejudicaram minha saúde, meus estudos nem minha hombridade, além de ajudarem minha família a enfrentar a luta pela sobrevivência.
Hoje, ao invés de ensinarmos o jovem a pescar no rio da vida e sobreviver da sua pesca, tentamos dar-lhe o alimento, que não é dos melhores, na boca e o ajudamos a ficar mais tempo sem fazer nada e, como diria o velho José Chammas (meu avô):
– Cabeça vazia é oficina do diabo!

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