Memórias florais

Rua Augusta, 29l, meu ponto de referências para as memórias, principalmente as infanto-juvenis.
Lembro com ternura as várias Bolinhas (cadelas que eu recolhia nas ruas e adotava), lembro do meu “Pompom", um lulu todo negro que mais parecia um novelo de lã que eu ganhei ao completar três anos e que me acompanhou, fielmente, por mais de 10 anos.
Lembro dos papagaios que minha mãe criou. Das galinhas que eram criadas no quintal, do Bolota, um leitão que meu pai ganhou e que ficou morando conosco mais de 10 meses e foi terrivelmente “assassinado” poucos dias antes do Natal.
Foi uma choradeira familiar e, depois de morto e chorado, concluímos, todos, pela inutilidade desse ato, já que ninguém teve coragem de comer sequer um torresminho daquele doce bichinho. Quem gostou mesmo foram os vizinhos que ganharam as carnes dele.
Lembro das brincadeiras que fazia com meu irmão e meu primo. Com as brigas que travava com minha prima Sonia, que eu considerava uma chata de galocha e uma chorona impertinente. Muitas surras apanhei por causa dela.
Lembro do mamoeiro do fundo do quintal que um dia fez despencar um enorme mamão nos dedos do meu avô “Gidi” obrigando-o a usar uma dedeira de borracha vermelha por diversos dias, até que a unha caísse por completo e voltasse a crescer.
Lembro da goiabeira de goiabas vermelhinhas que me fizeram ter várias brigas com minha tia Neide (mãe da Sonia) e, que um dia, por causa dessas goiabas danadinhas, que eu gostava de saborear não muito maduras, me fizeram baixar no hospital com uma quase paralisia intestinal. Que horror! Foi preciso tomar um tal de Óleo de Rícino, que tinha um paladar horrorível, e ainda, sofrer uma aplicação de clister (nem me peçam explicações sobre isso…).
Outra lembrança bucólica daquele quintal era a touceira de flores que tínhamos lá no fundão. Sempre me amarrei nos buquês de flores que ali surgiam, só mais tarde fui saber que eras hortênsias azuladas que iam de um azul arroxeado até um azul celeste em harmonioso degradé.
Gosto de flores, elas me sensibilizam, mas as hortênsias foram e serão sempre as flores-símbolo de minha memória das coisas de antanho e que estão cada vez mais presentes na minha vida.

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