Norberto, meu colega de empresa (Divisão de Cosméticos da Rhodia S/A), passara dos quarenta; teria exatamente quarenta e dois anos, pelo que apregoava. Informes fidedignos do departamento pessoal, porém, eram contrários aos comentários na firma: cinqüenta anos seria o tempo de sua existência.
Impunha-se, presunçoso, contando seus feitos da juventude, atribuindo-se corpo de galã para sua altura de um metro e oitenta. Orgulhava-se de ter atuado com Walter Hugo Khouri, dizia ele, no filme Na Garganta do Diabo (os colegas da empresa replicavam, na malícia, que ele havia sido a amídala). Reclamava um par de óculos emprestado ao Moacyr Franco e não devolvido. Comentava ter encenado peça no Teatro de Vanguarda, da extinta TV Paulista, hoje Globo. Havia sido militar romano na peça A Cleópatra e, como não lhe deram fala, desistiu de ser grande ator, pois ficara uma hora segurando a lança como soldado romanizado.
Sua vaidade era do tamanho de sua inocência e altura. Quis o destino, num descuido da natureza, que sua esposa engravidasse. Gravidez de risco, que lhe trouxe alegria, apesar dos cuidados dobrados. O ginecologista e obstetra recomendou à esposa:
— Repouso absoluto durante os nove meses de gestação, se quiseres parir o temporão.
Surgia, então, no cenário de São Paulo, o mais recente pai-avô, enclausurado num regime forçado de abstinência de sexo.
— Não há problema, nas viagens pelo interior eu despico, o importante é que meu filho nasça com saúde — ponderou.
Privado por três semanas de algum gozo, seguiu em viagem de trabalho a Ribeirão Preto, com as subordinadas promotoras de vendas que o acompanhariam nas visitas domiciliares.
Quarenta e dois graus, terminado o expediente, resolveu, após relaxante banho, jantar no Bar Pingüim, recomendado pelos amigos. Meia porção de salame, uma de lingüiça feita no álcool e oito tulipas de chope depois, Norberto chamou o garçom, pagou a despesa e levantou-se frustrado para deixar a casa. Não havia recebido nenhum olhar feminino.
Percebeu se aproximarem quatro garotas, que se sentaram em frente a sua mesa. Retornou ao lugar antigo e retomou as despesas pedindo novo chope, desta vez sem acompanhamento — as economias estavam no fim —, para poder paquerar a morena vistosa a qual lhe correspondeu os olhares.
Após trinta minutos de suplício, criou coragem, tomou iniciativa e a convidou para um passeio em seu possante Maverick azul. A chegada ao motel foi ligeira, mas houve a demora para encontrar um que coubesse no seu bolso. Tinham se acabado seus últimos trocados.
Depois de dois intentos realizados, cheio de romantismo e orgulho, ele levou a garota para a casa dela. Era um cavalheiro e queria agradá-la com suas ações nobres. No portão de casa, ao receber o terceiro beijo na fronte em vã despedida, a moça despencou a chorar. Meigo e zeloso, Norberto trouxe a testa dela contra a sua, segurou-lhe as faces com as palmas das mãos e falou com meiguice, beijando-lhe diversas vezes o rosto:
— Em que eu te magoei, minha divina rainha?
— Pô! Até agora você não me pagou, eu estou a trabalho, cobro cem cruzeiros o programa. Você acha que vivo de beijinhos?
Frustrado com o malogro da noite, prometeu enviar ordem de pagamento para a conta da meretriz, assim que chegasse a São Paulo.
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