Lá vamos nós novamente para o numero 291 da famosa Rua Augusta. Muito já escrevi sobre minha vida nesse endereço e, quanto mais escrevo, mais minha memória fica aguçada e vai cavoucando até nos trazer novos episódios antigos. Saudosismo? Não, recordações agradáveis mesmo.
A casa era grande; a família, maior ainda. Cozinhar para toda aquela gente era tarefa árdua, que me lembro bem, e desempenhada por minha avó Site, no começo, e depois por minha tia Neide, ambas excelentes cozinheiras.
O fogão, ah, o fogão! Era um enorme trambolho movido a carvão, o mesmo carvão que usávamos – os moleques da casa – para riscar as paredes. Depois de acesas, suas brasas eram perfeitas para a cocção dos alimentos e ainda serviam para esquentar o ferro de passar e engomar. O difícil era atear fogo ao carvão. Os tempos eram de economia. Não se podia usar, como hoje, um pouco de álcool ou gasolina; então, a grande auxiliadora das operadoras do fogão era uma enorme tampa de alumínio que, balançada sobre o monte de carvão, ajudava a fazer vento e promover o inicio da combustão.
Imaginem toda essa trabalheira para poder fazer o café da manhã. Coitadas! Um dia, meu avô Gide chegou em casa com um saco de laranjas. “Oba!”, pensamos, “Hoje vamos tirar a barriga da miséria”. E foi assim mesmo, só que, alertados por meu avô, tivemos que aguardar que ele descascasse cada uma das frutas de forma artesanal e não como nós que, afoitos, as cortávamos em cruz e nos lambuzávamos todos ao chupar cada uma das partes.
Argüido do por que daquela trabalheira, ele simplesmente nos disse: “Vamos aliviar o trabalho da Site e da Neifa (Neide): as cascas de laranja deverão ser dependuradas à frente do fogão e, depois de secas, irão auxiliar a acender o fogo”. Enquanto falava, abriu sua biga (isqueiro antigo), riscou a pedra e, quando a chama apareceu, pegou um pedacinho de casca e espremeu diante do fogo, provocando um esguicho de líquido combustível e nos mostrando na prática o que iria acontecer.
Daquele dia em diante, e por muitos anos ainda, nosso querido fogão passou a ter um varal lotado de cascas de laranja secas, ou a secar, e o trabalho da minha avó e da minha tia ficou mais prático e racional.
e-mail do autor: [email protected]