Memórias de 1948

Eu morava na Vila do Sapo, exatamente onde hoje é a sede da Moto Honda, no final da atual Av. Senna Madureira. Do outro lado da linha do bonde Santo Amaro havia a chácara do Barreto, que cultivava agrião entre outras verduras. Nos tanques de agrião havia rãs e como o Barreto não as apreciava ele permitia a papai caçá-las. Além da chácara começava o Parque do Ibirapuera, onde, após uma noite de chuva e se o dia amanhecesse ensolarado, íamos catar cogumelos Meus pais adoravam comê-los fritos no azeite com alho e eu, na época, não gostava. Lamento aquelas oportunidades perdidas. Outro lugar bom para cogumelos era nas margens do córrego da Traição, onde está a av. dos Bandeirantes, no final da alameda dos Arapanés, próximo ao viaduto Ibirapuera. Muitos dos próprios paulistanos estranham o nome da Usina da Traição, no rio Pinheiros, no final da av. dos Bandeirantes. A av. dos Bandeirantes está sobre o leito canalizado do Córrego da Traição. Esse córrego recebeu o nome em razão de um assassinato. Dois portugueses, compadres entre si e sócios em negócios, tiveram desavenças e um matou o outro numa emboscada perto da nascente do córrego, onde hoje, no alto da av. dos Bandeirantes, há uma padaria com o esquisito nome de Rainha da Traição. Desnecessário dizer que os proprietários da padaria são portugueses, pois que estes gostam de dar o nome de Rainha aos estabelecimentos congêneres. O parque do Ibirapuera começava pelo Campo Experimental do Instituto Biológico e depois o Instituto Biológico Futebol Clube – IBFC – cujas arquibancadas ficavam onde hoje está a ponta nordeste do prédio da Bienal. A sudoeste do prédio atual, do outro lado do Córrego do Sapateiro, a cocheira da prefeitura, onde eram recolhidos os burros que puxavam os carroções de lixo da limpeza pública. Havia poucos veículos motorizados para a coleta de lixo na capital (em nossa rua não havia coleta e nem necessidade disso, pois os saquinhos de papel vindos da padaria ou da venda eram alisados e guardados por mamãe para uso posterior; vidros, garrafas e latas eram vendidos ao ferro-velho; restos de comida iam para o cachorro ou para as galinhas e o que sobrava servia de adubo para nossa horta. Não havia lixo plástico). Vizinho à cocheira da prefeitura havia o cemitério de cães e gatos, dando frente para a continuação da rua França Pinto, atual av. IV Centenário. Um cemitério suntuoso, com túmulos de mármore, a fim de abrigar animais mortos e, principalmente, inflar o ego de seus proprietários. A alimentação dos burros vinha de um canavial que se estendia da Estrada do Aeroporto até a linha do bonde, ao longo da Rua Borges Lagoa. Começava onde está o hospital da Gastroclínicas e terminava na atual av. Ibirapuera. Para além do campo do Instituto Biológico F. C. só arruados de terra, muito mato, carvoarias, o campo do Parques e Jardins F. C. e as lagoas separadas pela av. Brasil. Perto do cruzamento da av. Brasil com a av. Brigadeiro Luiz Antonio havia um cercado de tábuas com altura aproximada de 10 metros, pintado com betume. Sabia que ali trabalhava um tal Victor Brecheret e me acostumei a ver aquilo como parte de paisagem, até que, em 1954, as tábuas foram retiradas e surgiu o Monumento às Bandeiras. Meu pai e seu amigo José Kalil foram assistir à inauguração. Quando papai viu o monumento exclamou indignado "- Cavalo quadrado!", deu as costas e voltou para casa. Kalil teve um frouxo de riso e, horas depois, lembrava a frase e gargalhava. Depois do cruzamento com a av. Brigadeiro Luiz Antonio, a av. Brasil tinha quase o mesmo aspecto de hoje, só que as mansões eram realmente mansões e o trafego de veículos era infinitamente menor. O asfalto ainda não era comum aqui. A pavimentação das avenidas e estradas era feita em concreto com juntas de dilatação. Ruas principais eram pavimentadas com paralelepípedos e as secundárias com saibro. Minha rua, a travessa Tangará, era de terra, com o leito carroçável muito irregular. A rua onde moravam o Pito e a Cláudia, meu cunhado e irmã, a Borges Lagoa, era de saibro aplanado com moto-niveladora e compactado com rolo compressor tocado a vapor como uma locomotiva. Na esquina da avenida Ascendino Reis com a rua Dr. Diogo de Faria, em frente ao canavial da prefeitura, ficava a mansão do 'seu' Milton, amigo do pai do Pito e marido da mulher mais bonita que eu já havia visto – Dona Íris. Era dele, também, o terreno ao lado, na avenida. Ali ele promovia festas juninas em homenagem a Santo Antonio, o santo de sua devoção. Ele, seus amigos e parentes faziam barracas como as de quermesse e incluíam até cadeia e pau-de-sebo. Tudo era de graça. Até os fogos eram dados aos convidados. A parte alta da festa era o campeonato de rojões. Soltava-se um balão e quando este atingia certa altura os competidores deveriam derrubá-lo com rojões de vara. Numa dessas festas seu cunhado tinha os bolsos do paletó cheios de bombas, busca-pés e trepa-moleques que, não se soube como, começaram a explodir. Foi um susto geral e um espetáculo pirotécnico que vitimou apenas o paletó. No Natal desse ano ganhei do "seu" Alfredo uma bola de capotão amarela e dos meus pais um uniforme do Corinthians com gorrinho, camisa, calção, meias e chancas de bico duro. Virei o rei do pedaço, pois até então jogávamos futebol com bola de meias, isto é, feitas com meias femininas que eram acrescentadas em camadas. Tive que continuar jogando descalço porque o resto da turma não tinha chancas. Mamãe preparou a árvore de Natal com velas que eram acesas à noite, correndo um tremendo perigo de incêndio. À tardinha vi que vinham a Claudia e o Pito descendo a estrada do aeroporto. Traziam na mão algo que eu sonhava ter: uma espingardinha de chumbo! Quando me entregaram o presente, decepção. Era um guarda-chuva juvenil, isto é, preto como todos guarda-chuvas masculinos, mas de dimensões menores (depois de uma semana, a caminho da escola, esqueci o guarda-chuva no bonde). Naquela noite, quando ceávamos, vimos um clarão seguindo de um estrondo terrível. Logo soubemos que um bonde, descendo em direção a Santo Amaro, no cruzamento com a França Pinto colhera em cheio um caminhão carregado de argila para cerâmica. Houve vários mortos e aquilo foi assunto para vários dias. Volta e meia ocorriam acidentes no cruzamento da linha do bonde com a Estrada do Aeroporto. Depois disso foi instalado um semáforo manual – um dos primeiros de São Paulo a ser instalado na periferia – e a Light colocou um ponto de parada obrigatória antes do cruzamento. Difícil era embarcar nessa parada, porque não foi feita plataforma e a altura entre e o solo e o estribo do bonde era para alpinistas. A passagem do ano era comemorada pela garotada batendo brita contra os postes da Light e fazendo grande barulho. A brita era retirada do lastro da linha do bonde. Nos cruzamentos de ruas com a linha do bonde haviam avisos enormes em forma de 'X' onde se lia, numa perna "Cuidado" e noutra "Tramway".