Foi em 1939 ou 1940, não tenho certeza, que migramos de Curitiba para São Paulo. Viemos em avião e a experiência deve ter sido pelo menos invulgar já que, aos três ou quatro anos de idade, formei um conjunto de fortes lembranças que me acompanham até hoje.
O avião era um trimotor Junkers-JU52 para operações em aeroportos terrestres. A aviação comercial brasileira começara com hidroaviões, servindo apenas às cidades do litoral, pois pousavam no mar. Alguns anos depois, o nosso Junkers aterrissou em Congonhas. As paredes externas do avião tinham estranho desenho, ondulado como nas modernas telas de cimento-amianto ou à moda do antigo zinco que cobria os barracões cariocas.
Ao entrar no avião, a primeira impressão ficava por conta do desnível acentuado: as rodas dianteiras eram grandes e altas, e a única roda traseira, muito pequena, provocava a inclinação do conjunto. Os passageiros escalavam o curto e estreito corredor e procuravam assento nas poucas poltronas disponíveis (acho que eram de junco trançado). Tratava-se de monoplano, o que parecia ser a tendência dos aviões construídos na época. Ligados os três motores o barulho era infernal. Os passageiros recebiam pequenos tufos de algodão para colocar nos ouvidos, e goma de mascar. Tão logo acionadas as máquinas o aparelho começava a rodar, num processo que só seria interrompido no ponto de chegada, sem que, aparentemente, os pilotos pudessem fazer alguma coisa para controlar aquele movimento para frente e para cima, a não ser reduzindo ou desligando a força dos motores.
Anos depois eu soube que minha mãe não gostara daquela viagem. Ela apreciava a leitura de jornais e tinha bem vivo, na memória, o desastre ocorrido ainda na sua adolescência, o relato da queda do "Santos-Dumont", um hidroavião da Kondor Syndicat, em 3 de dezembro de 1928, cuja asa partira-se ao sobrevoar a baía da Guanabara. O Diário Popular publicara reconstituição minuciosa da queda, tentando descrever as últimas impressões das 14 vítimas fatais: "…Eles devem ter ouvido o estalido seco da asa e visto, depois, o panorama da baía, em cabriolas. Na reviravolta do aparelho, se lhes teria apresentado a visão aterrorizante dos morros, dos edifícios e das águas serenas da Guanabara, ora para cima, ora para baixo, à direita, à esquerda, até o baque violento contra as águas…" Entretanto, dez ou onze anos depois, nosso Junkers-U52 aterrissou incólume no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Hoje, revendo o recorte amarelado de jornal, encontro na descrição macabra possível semelhança com a queda do avião da Gol, no interior do Brasil.
Ao vasculhar os pertences de minha mãe, por ocasião do seu falecimento, achei os dois recortes de jornal. O segundo dizia: "O Junkers-U52 despedaçou-se contra o solo. Pereceram 12 pessoas…" O acidente era de 17 de fevereiro de 1941 e tinha acontecido em Budapeste, no aeroporto de Nagyvarad, no momento da aterrissagem do avião.
De Congonhas, atravessando quase toda a cidade em táxi, chegamos a uma casinha geminada na rua Teodoro Sampaio, quase esquina com a Cônego Eugênio Leite, logradouro ainda pouco habitado e que terminava nos portões do Cemitério São Paulo. Moramos ali por vários anos