Conforme já comentei em memórias anteriores, minha família era de pouquíssimos recursos financeiros e, assim sendo, eu tinha vários desejos que não podiam ser satisfeitos. Entre todos, o mais forte, era ter uma bicicleta.
Todos meus coleguinhas tinham a sua bicicleta e eu não.
Todo Natal eu acalentava a esperança de que o meu Papai Noel traria a tão desejada bicicleta, mas ao acordar, no 25 de Dezembro, em baixo da árvore estava um pacotinho em meu nome e dentro dele um revólver de chumbo, uma cartucheira de lona e uma estrela de xerife.
Eu curtia o presente com muita alegria, mas não esquecia da sonhada bicicleta.
No início dos anos 50 eu freqüentava o auditório da Radio Record na Rua Quintino Bocaiúva e participava de todas as promoções ali realizadas. Um belo dia o Randal Juliano promoveu a distribuição de um show que seria realizado no salão do Cine Odeon, com a presença de grandes nomes do cenário musical brasileiro e, dentre eles, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.
Bastante íntimo do Randal, pedi a ele convites para mim, meu irmão e meus primos (morávamos todos na mesma casa a Rua Augusta).
No dia do Show, fomos todos e na entrada nossos convites fora trocados por cupons numerados que participariam dos diversos sorteios que seria feitos durante o espetáculo.
Eu recebi mais dois números do que meu irmão, meu primo Roberto e minha prima Sonia, pois tinha ao todo dois convites extras.
O espetáculo transcorria com muita alegria e de repente o Randal Juliano entra no palco e pede para o Luiz Gonzaga sortear uma bicicleta Caloi entre todos os presentes. Ele retira um cupom da urna e anuncia o número. Ouço um gritinho enjoado e me espanto ao ver que a Sonia, a minha prima chorona, havia ganhado o meu brinquedo tão sonhado.
Durante o caminho da volta, como o primo mais velho e que havia distribuído os convites para todos, eu tentei seqüestrar a bicicleta. Meus argumentos não convenceram a ela e muito menos à minha tia Neide.
O pior da historia é que eu não tinha permissão nem de usar o famigerado brinquedo e cheguei a levar uma surra quando tentei usá-la escondido de todos.
A única pessoa além da minha priminha que usava a bicicleta era o João, que na época ainda não era casado com a Tia Zazá, mas era mais moleque que todos nos juntos.
Ele, muito forte e grandão, fazia com que o Roberto subisse nas costas do meu irmão, que eu os pegasse nas minhas costas e, então, ele nos punha nas suas costas e saia a passear conosco volteando o quarteirão compreendido pelas Rua Augusta, Rua Marques e Paranaguá, Rua Frei Caneca, Rua Caio Prado e, novamente a Rua Augusta. Tivemos alguns tombos espetaculares, mas nos divertimos muito.
Tempos de brincadeiras e loucuras, mas, bicicleta mesmo, só vim a ter depois de casado.