Eu morava na Rua Santa Rosa e o Palácio das Indústrias era pertinho. E a minha casa era um sobradinho de madeira. E eles lutavam, não sei, do lado da Penha para o Palácio das Indústrias. A gente sentia as balas assobiarem por cima. Nós tínhamos que ficar de noite em baixo de uma escada de cimento, muito fria, porque em cima era perigoso. Nós fugimos porque estavam caindo granadas no Brás.
Teve gente que saiu de casa pra ir num cinema que chamava Cinema Olímpia, e aquele dia caiu uma granada no Olímpia e matou um monte de gente. Gente que deixou as casas de medo e foi morrer lá.
A gente ficava na escada, de noite, naquele frio, sentada. Meus irmãos dormiam embaixo da cama. Assim mesmo saímos de casa e quando voltamos tinha uma bala em cima da cama deles.
Eu trabalhava na 25 de março. Veio lá o gerente e falou: guardem as máquinas, guardem tudo e vão para casa que tem uma Revolução. Nas ruas eles abriam trincheiras. Era tudo de paralelepípedo. Então eles levantavam os paralelepípedos e faziam trincheiras no meio da rua. Tinha gente que levava comida pra eles porque lá estavam os que fizeram a Revolução.
O Isidoro era o chefe da Revolução. Os soldados pegavam as mocinhas!!! Minha mãe não deixava nem eu sair. Eu morava numa vila. Sair na porta foi ruim. Não tinha pão, não tinha nada. Havia saques em muitos lugares, no Mercado. Meu pai um dia chegou com meio porco tirado de lá.
Foi triste essa Revolução…
Lutavam na Mooca, jogavam as granadas Eu via as granada passarem por cima da cabeça. Pareciam garrafas de cerveja. Assim grandes, assobiavam. Até que um dia caiu uma atrás de minha casa, fez um buraco enorme, matou uma moça que estava na janela. Quando foi no dia seguinte, começaram a cair no Palácio das Indústrias. Caiu uma fora e não explodiu. Depois de muito tempo um dos moços de lá da vila desenterrou a granada e desarmou ela num tanque de água pra ver o que tinha dentro. Eram bolinhas de aço dentro da granada, por isso que quando explodia fazia um estrago danado. Aquela que caiu perto de casa matou uma moça, matou gente que ia passando na rua porque levantou os paralelepípedos e jogou pra todo lado. Fazia um estrago essas granadas.
Tinha a fábrica do Crespi lá na Mooca. Depois da Revolução nós passamos por lá e não tinha um vidro; tudo arrebentado de tanta granada e bala que pegou na fábrica.
Foi triste aquela Revolução…
Tinham os revoltosos. Eles perderam. Depois de muitos dias, não sei quantos dias durou. Eu sei que nós ficamos em casa, presos.
Foi triste aquela Revolução…
Nós fugimos. Meu pai queria que nós fôssemos e ele ficava. Minha me disse: ou vamos todos ou ficamos todos. Aí fomos todos, mas meu pai depois voltou pra casa.
Fomos para a Lapa. De lá do Brás, da rua Santa Rosa, fomos a pé, pegamos a Avenida São João. No caminho a gente via aqueles caminhões cheios de cadáveres, que eles carregavam. É que caiam granadas, matava gente pra xuxú. Eram caminhões de gente que nós víamos pelo caminho. E fomos até a Lapa.
Nesse tempo era eu, meu irmão menor e meu irmão mais velho. Dois irmãos. E viemos para a Lapa onde tinha um Grupo Escolar e ficamos lá todo mundo. Estava cheio de gente que fugia do Brás pra lá. Ficamos lá tudo dormindo no chão. Aí tinha o meu irmão mais novo que estava com febre, acho que de susto de tanta coisa. Eles deram um colchãozinho pra ele, e então minha mãe pôs o colchãozinho atravessado e dormíamos todos. As pernas ficavam fora, mas o corpo ficava no colchãozinho. Já melhorou.
Deixamos tudo em casa. Fechamos a casa. Me lembro que minha mãe estava com um fogareiro fora, cozinhando feijão. Ficou lá o caldeirão e tudo. Fugimos. Todo mundo saiu porque estavam caindo granadas lá pertinho. Caiu uma que não explodiu, mas nós vimos quando caiu. A outra fez aquele estrago. Então nós fugimos e ficamos na Lapa até acabar a Revolução. Nem sei quantos dias foi. Na minha idéia parece que foram 23 dias. Não tenho bem lembrança. Tinha um padre que era quem tomava conta. Ele saia e angariava mantimentos, trazia e cozinhava. Lá a gente ajudava: uma lavava louça, outra arrumava a mesa…
Depois voltamos pra casa. Estava em ordem, do jeito que deixamos. Não tinha acontecido nada. Só essa bala em cima da cama.
Nós estávamos dormindo e ouvimos um estrondo. E eu falei: que será que está acontecendo? Era que os revoltosos estavam fugindo e explodiram uma ponte na Lapa. Explodiram que era pra ninguém passar e ir atrás deles. Daquele dia em diante acabou a Revolução. Nós voltamos e depois eu mudei de casa, fui morar numa travessa da rua Piratininga.
Meus irmãos tinham um amigo que durante a Revolução deu pra eles uma bacia com um jarro de prata (como se usava). Achando que tinha sido roubada de alguma casa, meu irmão nem levou pra casa e jogou em baixo de uma ponte do rio, lá perto. Esse amigo também deu para minha mãe 50 mil réis para ela guardar. Ela guardou atrás de uma fotografia que tinha moldura. Muito mais tarde, depois que a Revolução já tinha acabado o amigo chegou na nossa casa com dois conhecidos que depois voltaram dizendo que eram da polícia e pedindo o dinheiro. Minha mãe desmontou o quadro e entregou e disse: "guardei porque não me pertencia e queria dar para ele quando ele voltasse". Era dinheiro de roubo. Meu irmão teve que ir com a policia e então contou o caso da bacia e do jarro. Foram lá e encontraram. Era sim pegado de saques em casas abandonadas.
Depoimento oral gravado neste janeiro de 2006 e transcrito pela filha de Eudóxia , Neuza Guerreiro de Carvalho