Macarrão

Veneza, 1271. Os navegantes italianos, irmãos Pólo, Maffeio e Nicolo e o filho deste, Marco, a caminho da China, conversam sobre o comércio de importação e o que é mais interessante trazer para Veneza. Já que a última viagem, o resultado comercial não foi muito vantajoso. Assim que chegaram a Pequim, um foi direto ao atacadista de seda e Nicolo se encarregou das especiarias… Outro ficou cuidando do Marco. Que segundo Nicolo, jovem só tinha olhos para as mulheres…

Depois dessa viagem, 110 dias, voltam para Veneza, mas só os irmãos, Marco permanece na China e só retorna a Itália depois de 24 anos. Na volta, fica sabendo da morte do tio Maffeio. Narra para família suas aventuras e desventuras, nestes anos de peregrinação, trazendo em sua bagagem todas as novidades que fazem dos chineses, além de misteriosos, um povo culto, com segredos maravilhosos.

– O desenvolvimento chinês é espantoso, – diz Marco – em tudo que se possa imaginar, veja quanta coisa boa que eles já inventaram, além do papel, seda, bússola, acupuntura e sem ter um inventor a reclamar direitos que só aqui, na Europa, criam estas asneiras. Da bagagem, salta um pacote com fios rígidos de cor amarela, mas quebradiços, despertou a curiosidade de sua mãe.

– Que é isso, Marco…? – Ahhh, mamãe, a Srª. vai experimentar, uma delícia… Quer ver só… Marco apanha uma caçarola, coloca água, pendura sobre a brasa do carvão e pede um pouco de sal. – Agora, vamos aguardar, a água precisa ferver. Depois de 15 minutos, a fervura se manifesta, Marco apanha o pacote, seleciona a metade do volume e mergulha de uma vez na água, pulveriza sal e depois de cinco minutos, tira do fogo, espalha o numa travessa de bom tamanho.

Os fios, antes rígidos, estão moles, mas firmes. Prepara um prato com tomate esmagado, alho, pimenta, azeite, vinho, mistura bem e cobre a novidade com generosa camada desse molho. Pronto. Nasce o primeiro espaguete, "al sugo" na Itália.

Brás, São Paulo – 1943

– Pois é, Felícia, diz Bartholomeu à esposa, essa guerra, na Europa, esta trazendo mais problemas para o Brasil do que eu esperava. Estamos tão longe do conflito, mas somos penalizados com a falta de tanta coisa que, antes, tínhamos a vontade. É gasolina, tecido, remédios, queijos, alimentos no geral… – É que aqui não se faz nada, – diz Felícia – é tudo importado.

Bartholomeu, comerciante atacadista de produtos alimentícios, casado e com nove filhos, se preocupa com a situação que a Segunda Guerra Mundial traz ao Brasil. Para se conseguir pão, teria que primeiro descobrir qual padaria teria e de madrugada, levar toda a família, pegar fila, pois a distribuição dos filões (baguetes de 40 a 50 cm) era um para cada membro da família. Ou, senão, pela abundância do trigo até pouco tempo atrás, fazer o pão em casa num forno formato "iglu".

A Argentina sua principal fornecedora de trigo e seu maior cliente no Brasil, o Moinho Matarazzo assume compromissos com os países da Europa, envolvidos na guerra. Reduz drasticamente o envio de trigo ao Brasil. O país se adapta com farinha de mandioca, de milho sem, é evidente, chegar ao pão tradicional. Aí, Bartholomeu tem uma ideia maravilhosa. A Argentina, reduzindo a exportação de trigo para o Brasil, não fez o mesmo com produtos industrializados. E nesse contexto, está o macarrão.

Dono do empório, cliente cativo dos produtos do Matarazzo, compra uma boa quantidade de macarrão argentino, para revendê-lo. Boa parte dessa remessa vai para casa e, aí põe em ação seu plano. Com uma grande panela cheia de água, pega vários pacotes de macarrão, mergulha todos na água do caldeirão. Sem levar ao fogo, deixa em repouso por 12 horas, mais ou menos. Ao fim desse tempo, os macarrões perdem seu formato original, amolecem e vão formando uma massa homogênea, na cor palha.

Em seguida, “Bartô”, com o auxílio da “Felí”, trabalham a massa como habitualmente fazia com o trigo, formando os pães. Levam ao forno e pronto, um delicioso e abundante pão, afinal, o macarrão tem tudo para se transformar num pão. Os ingredientes são quase os mesmos.

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