Tenho mais um episódio pra contar do calmo e sempre de bem com a vida Davi, já citado aqui em outro texto meu datado de 02/02/2009 , quando ele, numa passagem por São Paulo nos anos 70, foi ludibriado por um taxista. Davi, na época, ficou com uma imagem muito negativa desta nossa querida cidade, mas até então eu não sabia da pequena aversão que ele tinha a nossa cidade.
No início dos anos 2000, depois do nosso casamento, eu e Davi planejamos uma viagem a São Paulo, a qual seria uma segunda lua de mel. Durante a nossa estadia na capital, Davi explanou o desejo que tinha de revisitar a única parenta dele que morava em Guarulhos, a tia Rosa, também citada no texto anterior.
Bom, num belo dia ensolarado, alugamos um carro para podermos fazer a tal visita. Contudo, quando Davi, morando nos EUA por muitos anos, quis pegar no volante, eu discordei na hora, pois ele não conhecia São Paulo e há muito que não dirigia carros com troca de marchas. E quanto mais eu, Paulistana calejada pelo trânsito caótico de São Paulo, insistia pra dirigir, mais ele se sentia ofendido. Ah!! Esses homens teimosos!!
Assim, não teve jeito, tive que me contentar com o banco do passageiro. O ariano Davi, com todo seu orgulho, ligou o carro, começamos a nossa viagem pegando a Marginal em direção a Guarulhos, mas não sem antes dele me incumbir de olhar no mapa quando precisasse. Não necessito dizer que o carro ia aos trancos e barrancos, morrendo inúmeras vezes, mas ele nem se abatia, indo a 60 cautelosos quilômetros por hora e ouvindo buzinada de tudo quando é lado. Eu é que no banco do passageiro morria de vergonha, e, muito assustada, rezava pra tudo quanto é santo.
Depois de intermináveis minutos de morre, liga de novo, troca e arranha a marcha, ele se aprumou no volante e até chegou em alguns momentos a me impressionar nesta sua empreitada.
Bom, logo que conseguimos chegar a Guarulhos, Davi vira pra mim e diz, com seu jeito bem calmo de ser, que só faltava achar uns prédios verdes, pois sua tia Rosa morava perto de alguns edifícios daquela cor. Eu olhei pra ele sem entender, pois ele havia me dito que já havia ido lá. Ele respondeu que sim, só que o detalhe que ele não havia me confidenciado era que isto tinha sido há mais de trinta anos atrás e de ônibus. Trinta anos atrás e de ônibus???!!! Eu não sabia se ria ou se chorava dentro daquela situação.
Procurei ficar calma e sugeri ligar pra tia Rosa e pedir a direção até a casa dela. Adivinhem? Davi não tinha o número do telefone e ele, na realidade, queria fazer uma surpresa pra ela. Bom, a surpreendida até aquele momento era eu. E ele, continuou, com toda calma do mundo, tentando me convencer que ele sabia aonde estava indo e disse que o nome da rua era alguma coisa Penteado, número tal. Fiquei num silêncio estupefato. E ele ainda repetiu: É alguma coisa Penteado e próximo a uns prédios verdes. Eu, aturdida, me perguntava: "Como??? Ele também não sabia o nome da rua??? Então, pra que servia aquele mapa, já todo amassado, que ele me fez segurar desde que saí de casa?”.
Bom, isto não vinha ao caso naquele momento. Davi simplesmente assumira que só lembrando de alguns prédios verdes, o nome Penteado e o número da casa, a gente ia conseguir chegar até a casa da Tia Rosa??? Ok, naquele instante tive que me lembrar que estávamos em lua de mel e me manter calma.
Logicamente Guarulhos havia crescido muito, desde a primeira e única vez que Davi esteve lá, prédios é que não faltavam, e com certeza já haviam repintado os tais prédios verdes. Respirei fundo e rodamos a esmo por uns trinta minutos e nada de enxergarmos um prédio verde sequer. Foi aí que eu sugeri que perguntássemos pela tal rua "Penteado" e ele finalmente concordou. Ufa!
Começamos a nossa inquisição e, depois de umas tantas tentativas frustradas, um simpático taxista disse pra segui-lo, pois conhecia uma tal rua chamada Timoteo "Penteado".
Assim, depois de uns dez minutos seguindo-o, inacreditavelmente chegamos à casa da tia Rosa. Quisemos pagar a corrida e o bondoso motorista de táxi não aceitou. Aqui faço um à parte: Davi, no passado, havia se decepcionado com São Paulo justamente por causa de taxista que o ludibriou, e desta vez o destino deu a volta por cima e um taxista nos salvou. Ironias da vida.
Bom, mas o sufoco não havia terminado, pois a tal da tia Rosa, ao atender à porta, não reconheceu o próprio sobrinho, pois a última vez que ela o viu fora há mais de trinta anos, quando era apenas um magro molecote de dezenove anos. A tia Rosa até ameaçou fechar a porta e ainda levou uns bons dez minutos e muitas perguntas pra que ela se convencesse de que aquele homem com voz grossa era o Davi, seu sobrinho da cidade de Ponta Grossa, e que agora morava nos EUA.
Finalmente, a tal visita foi feita, a tia Rosa ficou muito feliz e podemos continuar nossa lua de mel em São Paulo – a partir daí, sem mais percalços.
Hoje lembramos com boas risadas desta história. E finalmente Davi se apaixonou por São Paulo e vive numa eterna lua de mel com a cidade. E, parafraseando o Luiz Simões, num comentário ao texto anterior, digo que o Davi finalmente venceu o gigante Golias.
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