Quando fomos morar no Brooklin Novo, em 1951, mais precisamente no mês de abril, dia primeiro. Era um terreno de 240 metros quadrados, onde, além da moradia, tinha muito terreno para se plantar, na frente, lateral e fundos da casa.<br><br>Na frente um belo pé de jasmim com flor de cor branca amarelada. Na lateral da casa junto ao poço, de onde com o sarilho puxava água que abastecia a caixa d’água, tinha uma árvore de uma flor tipo lírio de cor vermelha.<br><br>Já nos fundos, encostado à parede do quarto, um galinheiro de uns cinco metros por dois e meio de largura, com algumas galinhas e apenas um galo, que engalava todas com muita facilidade. Depois era só colher os ovos e deixar 21 dias para a galinha chocar, depois vários pintinhos estavam solertes comendo quirela (milho moído). Para que as outras galinhas não os matassem, tinha que se fazer um chiqueirinho, para eles ficarem com a mãe. Mais tarde ela também ficara irada com os pintinhos já crescidos, aí tinha que separá-los da mãe.<br><br>Os demais metros do fundo do quintal estavam livres para plantação. Uma bela horta plantada pelo meu pai, que meu deu como tarefa o dever de mantê-la, afofando a terra, regando à tarde e, quando geava pela manhã, regar antes de sair o sol, para tirar o gelo, que queimava as verduras.<br><br>Ao lado da Fossa Negra, eu plantava mudas de árvore de Natal, e quando estavam com mais de meio metro de altura, eu vendia, naquele projeto do "jeito moleque" de se virar (texto já publicado). Uma dessas árvores de Natal permaneceu plantada por mais de trinta anos, e por estar muito alta a vizinha implicava, não só com esta como com as demais, que, segundo ela, faziam friagem na sua casa. E por isso foi fazer denúncia na Prefeitura. O fiscal foi até em casa e não viu nada de anormal, elogiando o fato de ter muitas árvores plantadas.<br><br>Na horta tinha canteiros de couve, catalonia, almeirão, escarola, alface e repolho. Ao lado do muro que dava a um terreno baldio, os pés de frutas. Pessegueiro, ameixeira, caquizeiro e pés de mamão, o que crescia mais rápido. Quando ele estava bem alto era bom cortar, porque já tinham outros crescendo ao lado.<br><br>Uma vez, de uma semente caída próximo à porta de entrada de casa, nasceu um pé de mamão. Cresceu num local inadequado, onde tinha mais cimento do que terra. E o pé de mamão cresceu tanto que ficou mais alto que o telhado, além de colher belas frutas, ficou como ornamento, sendo preservado. Assim como um pé de couve que ficou mais alto do que o telhado de uma casa, na Avenida Dr. Cardoso de Mello, esquina com a Rua Ribeirão Claro, Vila Olímpia, a comadre do Brooklin.<br><br>Tinha também a parreira de uva, que meu pai fez um enxerto e a uva de cor grená acabou ficando uma parte esverdeada. Quem podava a parreira era seu Manoel, um vizinho que era jardineiro. Ele fazia questão de podar, e todo mês de agosto ia com seu alicate cortante, tirando as partes que ele julgava demais. No início do ano tinha uva que não acabava mais.<br><br>Mas voltando à horta da minha casa. Onde tem muita árvore, tem pássaros também. Muitos pássaros me visitavam. Parecia que eram íntimos daquele moleque que era eu. Assentavam-se nos galhos e por lá ficavam, mesmo eu estando próximo. Quem mais aparecia eram os sabiás, que os entendidos chamavam de sabiá laranjeira, que foi até inspiração para uma música dos anos 1950. Ele era também conhecido como sabiá amarelo ou de peito roxo, por sua imensa popularidade no país, citada por diversos poetas como o pássaro que canta na estação do amor, ou seja, na primavera. Mede aproximadamente 25 centímetros, tendo plumagem vermelho ferrugem no ventre, levemente alaranjado, sendo o restante do corpo de cor parda, com bico amarelo escuro.<br><br>Carlos carroceiro, que tinha verdadeira paixão por pássaros, dizia que os sabiás fêmeas ou machos não tinham diferenciação de sexo. Ambos são iguais e a fêmea também canta, mas numa frequência bem menor que o macho. O sabiá é de canto muito apreciado, que se assemelha ao som de uma flauta. Canta principalmente ao alvorecer e à tarde. Seu canto serve para demarcar território e, no caso dos machos, para atrair a fêmea. (Escreveu quem entende de pássaros).<br><br>Quem sempre estava o quintal da minha casa era o famoso beija flor, gostava ele de ficar na árvore que ficava na lateral da casa, ficava parado com suas asas numa velocidade incrível para mantê-lo no ar, saboreando o líquido fornecido pela natureza que abastecia as flores. Esse era outro pássaro que não estava nem aí para quem estivesse próximo apreciando sua beleza. Quando as flores estavam na entressafra, colocamos um vidro, daqueles que se colocava nas gaiolas, com água e açúcar, e o bichinho se deliciava.<br><br>Os canários também tinham suas presenças no quintal de casa. E eram vários tipos de canários. Da terra, do reino, e outros tipos de canários, cada qual tendo sua denominação quando passarinheiros, dentre os quais o jogador de futebol Rivelino, se reuniam para falar dessas espécies na loja do Alvarinho, na Avenida Santo Amaro, quase esquina da Rua Santa Justina, que nos anos 1950 era denominada de Firmino Ladeira.<br><br>E por falar em canário, foi no ano de 1952 que eu consegui pegar um. E foi com a mão sem precisar de alçapão, visgo, qualquer outro ingrediente para tal. O canário tinha uma deficiência na asa esquerda, que era semi-paralisada, o que dificultava seu voo. Por isso tive facilidade em pegá-lo, e também porque ele se refugiou numa manilha, então foi só tapar uma boca e pegar ele pela outra. Que felicidade em ter aquele pássaro, que para mim era somente um canário, por ter ele penas amarelas claras. Não sabia qual sua classificação. Os fugitivos eram canários do viveiro do Hercules, o bananeiro que morava na Rua Brejo Alegre, perto da minha casa. Sua esposa, dona Diva, foi limpar o viveiro e esqueceu a portinhola aberta, fugindo todos os pássaros.<br><br>Só aí é que fiquei sabendo que se tratava de um canário do reino, o mais valioso dos canários, segundo entendidos. Como os pássaros criados em cativeiro, eles ficam bobos ao ar livre, e aí não foi difícil recapturar as aves. Mas quem capturou aquele bonito canário do reino, o mais valioso da coleção, fui eu.<br><br>Quando Hercules ficou sabendo foi falar com meu pai, que me chamou para devolver o pássaro ao seu verdadeiro dono. Falei com todas as letras: “Devolvo p… nenhuma. Achado não é roubado, na porta do mercado". Em vez de bronca, risos do meu pai e do Hercules. Aí teve início uma possível negociação. E Hercules foi dizendo: “Te dou cento e cinquenta cruzeiros”. Para mim, um dinheirão. Quase um terço do salário mínimo de menor da época, que era de 600 cruzeiros. Firmei o pé e não devolvi. E o que me chamou atenção foi que meu pai, sempre correto naquilo que não era dele, não me obrigou a devolver. Limitou-se a dizer para o Hercules: “Se vira com o moleque”. Hercules, muito educado, disse: “Já que ele se afeiçoou ao passarinho, deixa ficar, pelo menos sei que está em boas mãos”. Ele era muito amigo do meu pai. Os dois eram palmeirenses e começaram a falar do gol de Ponce de Leon contra o Corinthians, na vitória de 3 x 2 daquele ano.<br><br>Na verdade meu pai também tinha se apaixonado pelo pássaro, porque logo às seis horas da manhã o canário cantava. E como cantava o "bichinho" passou a ser o despertador da família. Toda manhã ouvia meu pai dizer: “Orlinda, o canário está cantando, vai fazer o café”. Era o chamado pulo da cama. O canto daquele canário era diferente dos outros, como o da terra que praticamente piava perto dele. Seu canto era estendido, o que os passarinheiros chamavam de canto dobrado.<br><br>Um dia, Carlos, o passarinheiro mais conhecido da Vila Olímpia, ouviu o canto do canário e ficou procurando de onde vinha aquela maravilha de dobrado. E como um cão farejador, estacionou sua carroça em frente ao portão da minha casa. Enquanto o cavalo balbuciava e abanava o rabo, Carlos ficava de olhos semi-fechados, olhando para o céu, de boca aberta, sua característica habitual, ouvindo o canto do pássaro. Minha mãe, ao vê-lo, logo me chamou, e numa profecia disse: “Quer apostar como ele vai querer comprar o canário?”.<br><br>Não deu outra. Depois de vários minutos, ele desceu da carroça e quis ver o pássaro, pois até então só tinha ouvido o grande "soprano" tipo Henrico Caruso, um cantor italiano do qual tínhamos alguns discos em 78 rotações, chamado de "bolacha preta".<br><br>Ofereceu 200 cruzeiros, eu sempre dizendo não. Chegou até oitocentos, e eu continuei dizendo não. Em nenhuma dessas ofertas teve a interferência de meus pais.<br><br>Bem, como não podia comprar, o Carlos vira e mexe parava sua carroça em frente ao portão para ouvir o "tenor" que tanto adorava. Sei lá, se foi olho gordo ou não, o canário foi ficando jururu, sujando verde, até que morreu.<br><br>Já passados cinquenta e seis anos, tenho o "Caruso" vivo em minha mente. Fora os pássaros "burgueses", tinham também os "proletários", que ciscavam no quintal, e como predadores danificavam a horta, pardais, rolinhas. Tinham também os da "classe média", como o bem-te-vi, anu, galo de campina, aquele que tinha o topete vermelho. Foi preciso fazer pelo menos três espantalhos para afugentá-los das verduras.<br><br>Agora, o pássaro que nunca pintou no pedaço foi o curió. Não tenho a mínima ideia de como é, só sei que pelas conversas é o pássaro mais caro que existe. Para vê-lo seria preciso ir na casa do Rivelino. <br><br>Os anos 1950 era um tempo em que convivíamos muito bem com a natureza. Muita saudade.<br><br>e-mail do autor: [email protected]