A usina UTP tinha quatro unidades geradoras de energia, uma turma para cada unidade, tinha um supervisor por turma e o nosso era o Sr. Giovanni Palomba, apelidado de “vaca brava”, devido aos seus modos bruscos e formas de conduzir e falar, ele tinha um andar firme e quase não sorria, muitos o considerava o melhor supervisor da usina. Como todo chefe, ele tinha seu fiel escudeiro, era o funcionário chamado Orípio das Neves, o "Palombinha", alusão ao chefe, pois era um prestador de serviços extras a qualquer horário, de dia para o chefe, mas também atendia aos colegas de serviços, enfim era um verdadeiro "quebra galho", pois, tratava-se de uma pessoa eclética, fazia de tudo e sempre risonho.
Tinha um operador de nome Jean Theodore Formenton, o Tenor, vivia cantando óperas no trabalho e vestiário; cantava bem, muitos não entendiam essa cultura e não gostavam ou faziam chacota dele. Todos pensavam que era grego, mas nasceu no Egito e viveu na Itália, era muito culto, andava de nariz levantado, altivo, mas era boa pessoa, foi embora sem nos avisar. Também havia o Edgard, um baianinho magro de apelido "Carne-seca", gostava de umas cervejas, tomava só duas três caixas. O Ivanildo Felix Silva o "Papa-caça", magrinho e baixinho fazia shows musicais em Santo Amaro com o Salgadinho do Grupo Katinguelê, o Papa-caça também era poeta.
Um dia entra na empresa o Paulo Lino Sant'ana, "Boiadeiro", um rapaz simples que morava no centro de Santo Amaro, gostava de usar botas e calça jeans com cinturão, também já aposentado e voltou para sua terra em Caratinga, norte de Minas. Dílson Marcelino, "Bombril" era moreno de cabelo muito enrolado, morava com o Boiadeiro em Santo Amaro, ambos jogavam no time da usina comigo.
Um dos casos mais hilários era o "Meganha", veio de Minas Gerais e Itu colocou esse apelido nele, porque logo no primeiro dia ele foi falando que foi policial e ele não gostou do apelido e pediu para não chamar de Meganha, pois lá na cidade dele a turma o conhecia por Tetê, por que ele falou isso, Itu aproveitou e colocou "Tetê Meganha", a emenda ficou pior que soneto, e pegou mesmo, para a raiva do rapaz.
Lembro bem do "China", chinês, por incrível que pareça seu nome era Eduardo de La Cruz Florentino, seus pais eram Filipinos e ele nasceu no navio a caminho da China, Xangai, a bordo de um navio japonês, era uma pessoa muito boa que também tinha dificuldade de falar o português, mas sabia trabalhar.
Havia o João Castro, o "João Cavalo", uma pessoa de boa cultura, caladão, de gestos truculentos e era muito forte, mas boa pessoa, ele gostava de desafios matemáticos e, devido ao seu modo, não davam o valor merecido a ele, morava ao lado da usina, já falecido.
Havia também um rapaz concentrado em tudo, chamado Joel Benega, o famoso "Bicudinha", esse apelido era devido ao andar dele, as duas pontas dos pés se encontrava ao andar e tinha um cacoete de ficar constantemente coçando a barba rala e falhada, que tinha no queixo, muito estudioso e gostava de resolver os teoremas de Tales, Pitágoras, problemas matemáticos e de português nas horas de folga do serviço, uma pessoa meticulosa e boa, já aposentado, às vezes víamos batucando sozinho, gostava de samba, mas não se revelava.
O "Pé na Cova" era um moreninho, tinha esse apelido pelo tanto que comia, era magérrimo como pau de virar tripa, no restaurante seu bandejão transbordava de comida e, quando terminava, pegava meia dúzia de pãezinhos e um litro de leite para tomar na unidade de serviço. Por falar em restaurante, a comida era farta e variada na usina, após o almoço o que sobrava no restaurante ia tudo para o lixo, o que revoltava muita gente e, ao mesmo tempo, via-se funcionários terceirizados da faxina e da limpeza dos jardins comendo, não se sabe o que, naquela hora; era muito desperdício de alimentos, onde essa comida podia ser distribuída entre essas pessoas.
Vale salientar que quando a usina estava em carga não podíamos ir almoçar no restaurante, os funcionários levavam a comida em carrinhos térmicos até o serviço em frente aos painéis de controle que ficava no terceiro andar de um prédio de sete andares, nós almoçávamos e jantávamos com um olho no prato de comida e outro no painel de controle, que parecia um guarda-roupa enorme, com mil manômetros, termômetros, cartas de controle, (charts), de níveis de água e petróleo. Esses painéis eram grandes. Eram semelhantes àqueles da NASA (dizem que desde os anos 2000 esses painéis enormes foram aposentados e agora atuam em pequenos computadores). Muitas vezes acontecia emergência no sistema e tínhamos que largar a comida, processar e normalizá-lo, pois havia o perigo de grave acidente como explosão e desintegração do sistema e, devido a isso, ganhávamos um diferencial como insalubridade.
Mas, voltando aos apelidos, tinha "Manga-chupada", era um mineirinho baixinho e magrinho, que tinha o cabelo ralo e loirinho que parecia uma manga chupada com aqueles fios espetados e esticados, não lembro o nome dele. Outro mineiro era o João Batista, entrou com uma leva de rapazes, a maioria de Minas, era um rapaz discreto, não me lembro se tinha apelido, muito calmo fez curso de projetos e saiu da empresa logo. Outro mineirinho era o Rubens, "Lingüinha", quando falava mostrava a língua, coisas que só o Itu via e o apelido pegava.
Um dia entrou outro funcionário, chamado José Nunes Ramos, e Itu o apelidou de Cabrobó, devido a cidade que ele nasceu em Pernambuco, depois ficamos sabendo que ele era de Rio Tinto cidade vizinha de Cabrobó, rapaz moreno baixinho de cabelo Black Power, muito brincalhão e cantava demais, e muito bem. No banheiro, após o trabalho, ele estourava o ambiente com suas cantorias, ninguém reclamava, pois cantava bem e era muito brincalhão; também fiquei sabendo que se aposentou e voltou a sua terra natal.
Um dos colegas mais divertidos era o Russo, Sr. Wladimir N. Diatroptoff, também falecido, nunca aprendeu falar correto o português, quando tomávamos o ônibus da empresa para ir embora, cada um descia no seu ponto favorito, ele, quando chegava no seu destino, pedia ao motorista:
– “Matarista favor parar na pau”, que quer dizer: “motorista pare no ponto de ônibus para eu descer”. A gozação era total.
Continua…
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