40 anos de saudades

Ao contrário de muitos que chegaram a São Paulo, fiz um caminho inverso. Deixei a capital paulistana em meados de outubro de 1973 e fixei morada na boa terra baiana. Moro agora no sertão agreste, bem longe do burburinho das grandes cidades e das capitais. Olhando o cenário que se emoldura em minha frente, com as lavouras e outras plantações, entremeado com os animais que pastam sob o sol inclemente nestes rincões, me vem à mente as imagens de minhas lembranças e dos tempos de minha vida no Bixiga.<br><br>Corro para o computador e acesso o Google Earth e faço a minha viagem através do “view” do programa. É uma “viagem” estática, mas, mesmo assim, ainda posso vislumbrar o que foi feito daquele que um dia foi o bairro que me acolheu, desde o meu nascimento na antiga maternidade São Paulo para os dias de hoje. Clico com o mouse na linha que indica o itinerário da velha Rua Santo Antonio e busco pela casa de nº 870. Ela já não mais existe. Em seu lugar, um restaurante italiano foi colocado e uma nova edificação tomou o lugar da velha casa e também das casas vizinhas à minha. Sucumbiram todas, ou quase todas. A loja do Nardo, a casa de Dona Angelina que ficavam à esquerda da minha. A casa de “seo” Pizzanni e o sobrado de Dona Concchetta. Estas também desapareceram.<br><br>O que foi feito do restaurante “Panela de Ferro” que depois de ter pertencido ao Tito foi para as mãos do Giovanni Bruno, para não fugir à regra dos restaurantes italianos no bairro. Mudando o cursor do mouse, detenho-me, agora, no outro lado da rua e levo um “baita” susto (primeiro dos muitos que tomaria nesta excursão virtual). As casas assobradadas que ali havia, deram lugar a um posto de combustíveis. Era um conjunto de três casas que ficavam em um elevado do terreno. Tinham grandes portões de ferro e uma escadaria longa. Assim, também era a casa do Walter Japonês, que ficava destacada das demais por ser na esquina da Santo Antonio com a Rua São Domingos onde, em uma das lojas, funcionava a sua lavanderia. Também havia uma pequena quitanda do português “seo” Manuel. Havia também, em uma das lojinhas, uma oficina de rádio técnico. Era uma viagem ver tantos aparelhos com válvulas, diodos e capacitores, pois, ainda não havíamos entrado, plenamente, na era dos transistores. <br><br>Retrocedendo um pouco, posso ver a velha cantina “Il Cacciatore” do velho senhor Pietro (acho que esse o seu nome). Era um italiano de poucas palavras (coisa incrível para um italiano). Almocei ali uma única vez e me lembro do delicioso risoto de camarão acompanhado de um guaraná “Brahma”. Sua cantina fazia vizinhança com a “vila” da família do Aniello, outro italiano de poucas palavras (outro italiano incrivelmente quieto), mas, de muita simpatia. Retrocedendo mais um pouquinho, havia o sobrado dos Buscchinni's, cujo pai tinha um sério problema… Uns diziam que era hérnia e outros falavam que era por excesso de esforço físico. Seus dois filhos eram muito amigos de nossa família e foram responsáveis pelo apelido que o meu irmão tem até hoje: o “Buggega”. Só não me perguntem o porquê desse apelido.<br><br>Em frente à casa dos Buscchinni's ficava um velho terreno baldio que dava acesso à Avenida Nove de Julho e ao lado dele, a casa de meu amigo Ariovaldo e seu primo Aristeu e mais a frente, onde estão os pilares do elevado construído por Maluf, ficava o campo do Boca Juniors. Realmente, tudo está muito mudado por lá. Diferente mesmo. Pouco ou quase nada restou de meus tempos de menino. Até o chão das calçadas onde nós, meninos daquela rua, brincávamos com os nossos carrinhos de rolimãs, patinetes, “pula-sela”, cachuleta e outras brincadeiras que tínhamos como diversão, até mesmo elas estão diferentes.<br><br>Pareceu-me que, ao ver estas imagens, tive a sensação de haver perdido um elo no tempo, com difíceis possibilidades de recuperação. Das casas, muitas já não mais existem e, as que ainda restam, foram sufocadas pelas modernas construções ou sofreram sentidas transformações. Dos amigos, poucos ou quase nenhum. Mudaram-se para outros bairros, outras cidades, outros estados ou, simplesmente, faleceram. Até a velha e saudosa “maloca” do Moacyr foi ao chão e deu lugar a um estacionamento. Se falar deste pequeno trecho do Bixiga já é difícil, pelas saudades que me causam, imaginem falar do bairro todo. Portanto, deixe-me enxugar as lágrimas e tomar fôlego e, quem sabe, eu faça uma segunda parte deste “tour” de lembranças e com ajuda virtual, mas, vou logo dizendo que o que eu vi não gostei “nadica de nada”. <br><br>Contudo, faço desta redação uma homenagem aos amigos que partilharam comigo os gostosos momentos de uma infância bem vivida, são eles: Ariovaldo, Aristeu, Genarinho, Moacyr, Nêgo Avoleta, Gilberto (in memoriam), Gilmar (in memoriam), Mizinha, Loi, Suely, Juarez, Gilson, Carlinhos, Eduardinho, Nelsinho, Miltinho, Marcos Paulo Sesso, Vicente Sesso, Tenente, Dona Mena, Dona Marina, Tito Maita (in memoriam), Jamil Maita, Arsênio Tatari, Jose Mendes, Delmar Rufino (in memoriam), Vadinho, Amadinho (in memoriam), Luiz Lambert, Soninha, Elizabeth, Pedrinho Scarlatto, Marcinha, Cidinha, Augusta.<br> <br>Se acaso me esqueci de alguém, peço perdão, mas, sei que, em algum lugar aqui dentro de mim, todos estão bem guardados, conservados e preservados pelas saudades.<br><br><br>E-mail: [email protected]