Foi no conturbado mês de março de 1964 que iniciei minhas aulas no Liceu Coração de Jesus. Alheio à situação do país, estava preocupado em saber como seria estudar num colégio tão grande, com novos colegas e novos professores. Como seriam eles? Havia certa sensação de medo do desconhecido e carrego tal sensação ainda hoje para tudo o que for novo, diferente.<br><br>Havia iniciado minha vida letiva em 1961 no Externato Assis Pacheco, pequeno colégio particular nas Perdizes, perto de casa, onde os meninos estudavam pela manhã e as meninas à tarde. Agora no Liceu, seriam somente meninos e padres; sequer havia professoras, podendo ser considerado um verdadeiro "Clube do Bolinha".<br><br>Nada disso importava. Era até bom, pois nunca havia estudado em escola mista e não teria que ter aquela sensação do desconhecido. Mas o que me alarmava era ter que frequentar as missas todas as manhãs antes das aulas. Apesar de ser neto de italianos e consequentemente de família católica, não tínhamos o hábito de assistirmos à missa. Enfim, uma nova realidade se iniciava em minha trajetória de vida, e como essa foi importante!<br><br>Para começar, era Semi-Interno e o dia se iniciava às 07h e terminava às 17h. Parecia assustador, mas praticamente toda minha vivência como pré-adolescente e adolescente se passou por entre inúmeras colunas romanas, intermináveis pórticos, muitas escadas e um corredor de salas de aula que mais parecia uma ala hospitalar.<br><br>Pela manhã: missa; sala de estudos; lanche matutino; depois, o almoço; o tempo ocioso (pelo menos para mim); e, logo depois, as aulas. Como nunca me interessei por esportes, à exceção de natação, que não tinha no Liceu, tanto as aulas de ginástica como a possibilidade de jogar futebol, vôlei ou basquete eram momentos entediantes.<br><br>Havia o teatro, onde muitas vezes éramos surpreendidos com a ausência de uma ou duas aulas para assistirmos a jurássicos filmes religiosos ou filmes de faroeste. A simples ida ao teatro me encantava e me fez vir a pertencer ao grupo musical dos "Pequenos Cantores", que, por mera ignorância infantil, nos sentíamos superiores ao grupo similar e mais jovem chamado "Canarinhos Liceanos".<br><br>Passei a participar ainda dos desfiles cívicos, marchando em um impecável "Uniforme de Gala" e me sentia um "Príncipe de Gales" em uma parada pelas ruas de Londres.<br><br>Aí vocês me perguntam: “Tá, e os estudos?”. Aí eu respondo: era um aluno médio com algumas matérias em que eu "fechava" as notas e a consequente aprovação já em outubro. Em outras, eu ficava para exame e até de 2ª Época, precisando de muita nota que, por duas vezes, não consegui e reprovei… Reprovei devido à matemática, é claro! Sempre fui notoriamente um ser “anti-exatas” e os meus grandes dotes eram a História, a Geografia, o Português e o Inglês, que, nessa ocasião, já dominava.<br><br>Nos idos de 1967/1968, fiz amizades estranhas para um adolescente normal. Aproximei-me de um colega negro (coisa rara na escola), de um libanês que mal falava português, de um colega gay (sósia de Barbra Streisand) e de um armênio com paralisia infantil, mas abarrotado de cultura!<br><br>Lembro-me bem que ainda em 1968 li uma versão pocket book de "Hamlet", de Shakespeare, com diálogos cênicos ao invés da estória como um todo e fiquei louquinho para encenar no teatro da escola. Fiz de tudo e falei com todos os padres possíveis e imaginários, mas não consegui, porque não era permitida a participação de meninas e eu achava um absurdo ter que travestir um menino para os papéis femininos, pois eu queria uma peça para o público externo e não para um momento de deleite pessoal. Fiquei na frustração.<br><br>O ano de 1971 foi meu último ano. Quando encerrei os exames em dezembro, me senti "livre" e não queria mais lembrar do "tempo perdido" da minha adolescência, ainda que uma vez mais o assombro do futuro incógnito tomou conta de mim.<br><br>Os professores mais marcantes? Da fisionomia me recordo de todos, absolutamente todos, mas seus nomes, nem tanto. Fessina, Chediak, Dante, Paulos (o abominável japonês de Matemática e o tranquilo de Inglês, que acariciava o cavanhaque), Daniel (padre português que lecionava Francês), Rusziska (o polonês das Ciências) e tantos outros.<br><br>Os padres mais marcantes? Romano, sem sombra de dúvida o mais carismático de todos; Pavanello, sempre impecável; João (piano); Jonas; além de um padre polonês bem velhinho que não largava a latinha de rapé e quando faleceu estivemos na igreja (N.S. Auxiliadora) para a missa de corpo presente. Meu primeiro cadáver e meu primeiro desmaio! Legal, não?<br><br>Estive no Liceu para "sapear" as instalações faz uns cinco anos… Tudo está tão diferente! Menos as inúmeras colunas romanas e os intermináveis pórticos.<br><br>Hoje leio nos jornais que querem revitalizar a área e reutilizar o teatro para fins comerciais. Achei ótimo, pois entre tantas coisas que já fiz na vida (funcionário público estadual, funcionário de empresa aérea, tradutor, intérprete, guia de turismo, escritor de contos e dramaturgia, ator de teatro), adoraria poder finalmente montar uma peça não com meninos travestidos, mas com elenco adequado. E não seria Hamlet! Talvez algo meu, de minha criação.<br><br>De todos os momentos que ali passei, insegurança, felicidade, frustração, conquista do inatingível, decepção do menos óbvio, as realizações e a liberdade final… Ficam grandes lembranças de um aprendizado de vida único e sem replay, eterno e encantador. <br><br>E-mail: [email protected]