Para chegar na casa da tia Amélia descíamos do bonde um ponto antes da Praça da Liberdade, na esquina da rua São Paulo, junto ao circo Seyssel, que tinha acampamento permanente naquela esquina. Descíamos a rua São Paulo, passando pela sede d'A Lusitana (O mundo gira e a Lusitana roda), na esquina da rua da Glória e, depois, pela sede da odiada Polícia Especial que, já naquela época, tinha o costume de bloquear a calçada a pedestres, costume esse copiado pelos golpistas de 1964. Foi no circo Seyssel que conheci o Arrelia, o palhaço que anos depois foi para a televisão com seu sobrinho Pimentinha.
Mamãe nunca se referia à Praça da Liberdade. Ali, pra ela, era o Largo da Forca. Não obstante ela e papai terem-me contado sobre a origem do nome, só muito mais tarde vim conhecer a história toda através da resenha de um programa radiofônico de 1940. Sob patrocínio das Organizações Novo Mundo, esse programa era redigido e apresentado por Raul Duarte na rádio Record. Em 1941 os textos foram reunidos num livro chamado "São Paulo de hontem e de hoje", do qual conservo um exemplar. Eis o 'script' completo do segundo programa da série. A grafia está como no original.
"Largo da liberdade – Santa Cruz dos Enforcados – Um dos pontos centraes, esthéticos e agradáveis de São Paulo, é, sem duvida o LARGO DA LIBERDADE. Já ocorreu, alguma vez, à sua mente, amigo ouvinte, explicar a si mesmo, a significação do nome que identifica aquela praça ajardinada? Será (pensará você), uma evocação histórica da nossa Independencia, do movimento libertador de que tanto se ufana o Pôvo brasileiro e que aquella praça tenha servido de scenario a um de seus muitos capítulos?… Pois não foi, amigo ouvinte. O Largo da Liberdade tem como justificativa de seu nome, um outro motivo não menos commovente. É que alli foi, outróra, o Largo da Fôrca. Antes que a Civilisação houvésse abençoado os nossos antepassados, com os seus princípios de Humanidade, tambem aqui em São Paulo, a pena de Morte pairava sinistramente, como um castigo suprêmo aos infractores das lei de antigamente. A forca era a sentença que justiçava os condemnados. E, em 1821, (narram os historiadores desta térra), não havia a Fôrca official, tendo provavelmente se deteriorado e cahido, a que antes existia. Por carta régia de 23 de Agôsto de 1820, foi mantada installar em São Paulo, uma Junta de Justiça; não podendo a mesma funccionar, sem o seu necessario appendice – um patíbulo- o Governo expediu, para esse fim, em 23 de Julho de 1821, um aviso ao Senado da Camara para que mandasse levantar uma Forca no logar mais publico desta cidade, e visinho ao cemiterio geral, que era chamado o "Campo da Forca"; e que ella fosse feita de madeira duradoura. E, alli, no espaço em que hoje estão o Largo da Liberdade e o quarteirão contido entre o mesmo largo e as ruas da Liberdade, Americo de Campos e Galvão Bueno, foi levantado o Cadafalso e a competente forca. Daquele triangulo macabro, de onde pendia a corda impiedosa, cabiam os córpos das victimas, que balouçavam, depois do ultimo extertôr, offerecendo esse tétrico espectaculo aos olhares afflictos da multidão. Aquelle mesmo largo guardou, dessas scenas pungentes, um episodio sentimental. E, como evocação mais viva da lenda que tem servido de thema a innumeras chronicas, lá está a igrejinha de Santa Cruz dos Enforcados. Varias versões circulam, bordando os acontecimentos que originaram a apparição da capelinha que tem como figura principal, o lendario Chaguinhas – Francisco José das Chagas, alli executado em 1821. Pretendem que elle tenha sido victima da injustiça dos Juizes que o sentenciaram. Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, como ainda hoje é relembrado, fazia parte do destacamento do primeiro Batalhão de Caçadores, aquartellado em Santos. Na noite de 27 para 28 de Junho, verificou-se uma revolta no seio do Batalhão, como um protesto ao atraso de cinco annos, no pagamento de seus soldos. E, como chefes do movimento revolucionário, foram apontados: Francisco José das Chagas, secundado por Joaquim José Cotintiba. Instaurou-se o processo. Como consequencia foi exarada a sentença de morte dos accusados. E na manhã de 20 de Setembro de 1821, lá estava o cadafalso, armado no Largo. Aos rufos de tambores e sons de clarins a escolta chega. O tropél dos soldados é lento, continuo, surdo. A multidão em volta, na expectativa ansiosa á espéra do espectaculo. Os dois condemnados designados para esse dia – Francisco José das Chagas e Joaquim José Cotintiba vêm cabisbaixos, É o momento supremo. Depois da leitura da sentença e após a exhortação que um capuchinho sempre dispensa aos réus, sobe ao patibulo o primeiro sentenciado: Cotintiba. Dado o laço, o corpo cabe no espaço e… multidão estremece. A Lei é cumprida! Chega a vez de Chaguinhas. Perpassa pela espinha dorsal do Pôvo estatelado e mudo, um arrepío de emoção e admiração: a corda, quando o corpo do Chaguinhas é jogado ao ar, arrebenta! O escudeiro mór, desapontado, ordena a sua substituição. Novo engaste, novo nó, nova cahida e… a corda pela segunda vez arrebentada! A multidão electriza-se! Chovem imprecações, pedidos, gritos de perdão: – LIBERDADE! LIBERDADE! O carrasco range, entre dente, babôso, uma praga, negando a solicitação publica. Collocado novamente no patibulo, Chaguinhas tem para a plebe irritada e suplicante, aquelle olhar mystico e dôce das almas contristadas. Desse olhar, nasceu a primeira irradiação da crença. Pela terceira vez o algoz laça o pescoço do infeliz e – PELA TERCEIRA VEZ a corda se rompe! Então divinisam o condemnado e alguma coisa de sobrenatural perpassa o ar parado daquella manhã fatidica. Só depois, na quarta tentativa, o corpo de Chaguinhas balouça inerte no instrumento do seu martyrio. A prova da innocencia de que pretendem até hoje envolver aquella victima, estava alli, apenas na teimosia da corda, em se negar ao mistér do enforcamento. E ficou no coração do Povo, aquela angustia de ter presenciado a consummação de uma injustiça! E no mesmo logar onde, a Fôrca destruia, inexoravelmente, as vidas condemnadas, o povo crente levantou uma cruz de madeira, tendo ao lado uma mesa, sobre a qual se queimavam vélas de cêra, que, segundo a tradição, não se apagavam com a acção dos ventos e desafiavam a furia das tempestades. Ao mesmo sagrado lenho foi dado o nome de Santa Cruz dos Enforcados. Com o correr dos tempos, a veneração popular foi crescendo, de modo que se tornou grande a concorrencia de de fieis para o logar. Alli se faziam rézas, realizando-sse, annualmente, festas religiosas, com o concurso do povo. A Cruz, que fora plantada bem no logar da antiga fôrca, estava situada em frente ao principio da actual Rua da Liberdade, em um morro. Á proporção que os aterros necessarios o iam arrazando, os devotos mudavam a cruz para adeante, até que ficou definitivamente no logar onde agóra se acha a Igrela de Santa Cruz dos Enforcados, levantada já ha mais de quarenta annos. Até hoje, principalmente á segundas-feiras, São Paulo apresenta essa scena evocativa: a Igreja de Santa Cruz dos Enforcados, em logar da mêsa de madeira tôsca de antigamente, ostenta os seus dois concorridos velarios, onde centenas de vélas, accendidas pelod fiéis, derramam suas lagrimas de cêra, evocando o drama martyr daquele Largo – o Largo da Liberdade, que com a abolição da pena de morte, ficou contendo no seu nome, o desabafo do Pôvo de São Paulo, livre das penas deshumanas. Hoje, nem Fôrca, nem Campo da Fôrca, nem Cemiterio dos Enforcados. Lá está a sumptuosa praça ajardinada, com um Monumento ao Regente Feijó. Largo da LIBERDADE. Por isso mesmo, para suavizar os compromissos dos que pretendem construir os seus lares, providos das commodidades modernas, ahi está a PREDIAL NOVO MUNDO, um symbolo de liberdade para o Pôvo, e cujos clientes jamais poderiam ser incluidos ao ról dos "enforcados"…"