No fim dos anos 60, meu pai alugou uma casa (que ele tinha) para um homem de uns 55 anos, que já era do nosso conhecimento. Solteirão de marca, um pouco estranho, não tinha todos os parafusos em ordem, mas era boa gente. Meu pai ficou com pena dele, pois não tinha onde morar, e foi assim que ficou sendo nosso inquilino. Sempre que passávamos por lá, ele estava sentado à porta da rua, num degrau já na calçada, vestindo um pijama listrado (sempre o mesmo). Ficou, então, conhecido na rua como João Pijama.
João Pijama freqüentava a igreja local e ali gostava de ajudar e também (falemos a verdade) de aparecer. Estava sempre carregando móveis de cá pra lá, dando sugestões para os líderes, falando com todo mundo e se metendo onde não era chamado. Gostava também de ficar nas rodinhas dos jovens e não percebia que todo mundo debandava quando ele aparecia. Era, falando claro, um chato. Não percebia que já não era jovem e que as mocinhas queriam conversar com os rapazes da idade delas.
Um belo dia, soubemos que João Pijama decidira casar. A noiva, ninguém sabia quem seria, mas todos estavam bem curiosos e tentando adivinhar. O fato é que uma mulher de uns 45 anos chamada Neide se apaixonara por João Pijama! Era sem dúvida, ideal para ele, pois Neide, apesar de não ser bonita, era ótima cozinheira e muito prendada.
Sem dúvida, seria a Neide a noiva que João Pijama tinha em mente. Para falar a verdade, a Neide era boa demais para ele, que não tinha emprego e nem moradia e, sem dúvida, não era muito certo da cabeça.
Eu tinha uns quinze anos na época, e minha melhor amiga, também com a mesma idade, era a Clara. Estávamos naquela idade de namoricos e risadinhas, éramos mesmo muito inocentes de tudo. Clara era muito bonita, chamava a atenção, sempre com o cabelo penteado na moda da época (com muito laquê) e vestidos tubinhos, também da moda. Fazia inveja às outras meninas e prendia a atenção dos rapazes.
Uma tarde de domingo, fomos ensaiar no coro da igreja, como sempre fazíamos. Entrando, deparamos com João Pijama de terno novo (na igreja, sempre vestia terno, sempre um terno surrado; mas, nesta tarde, vestia um terno novo). Estranho, ele nem cantava no coro, o que estaria fazendo lá aquela hora? Clara e eu brincamos com ele: “Vai casar, hein?”.
Saindo do ensaio, fui tomar um lanche e, na volta, antes do culto da noite, me deparei com a Clara chorando no banheiro. Ela soluçava e tremia, quase não conseguia falar. Quando conseguiu achar a voz novamente, me disse entre soluços: “É João Pijama! Ele quer casar comigo!!!”.
“Com você?”. Eu não podia acreditar. “É, comigo. Pediu a minha mão pro meu pai! Me disse que ia me levar para a fazenda dele!”. (Completamente imaginária; João Pijama não possuía fazenda alguma).
“E o que você disse pra ele?”. Eu não sabia se ria ou chorava com a Clara. “Eu disse que sou muito criança pra casar!”. E novas lágrimas desciam pelo rosto da minha amiga.
Obviamente, ela estava apavorada em se achar o objeto de afeto de um homem já na metade dos seus cinqüenta anos, quando ela mal fizera quinze. O que nós não sabíamos é que João Pijama tinha uma preferência por meninas bem novinhas, tendo dito para algumas pessoas que, para casar, ele somente queria alguém dos quinze aos dezessete anos; passando disto era “velha”.
Na semana seguinte, a coisa estava na boca do povo. Neide, sentindo-se repudiada pelo seu amor, teve uma crise nervosa. Clara fugia de João Pijama como o diabo da cruz. Não se falava de outra coisa. Neide foi se aconselhar com um dos líderes, Clara precisou de calmantes. Os moleques riam e falavam para o João ficar com as duas. João Pijama disse que a velha (Neide) ele não queria.
Algum tempo depois, as coisas se acalmaram. Neide continuou olhando para João com o rabo do olho, esperando que ele mudasse de idéia. Clara arranjou um namorado de dezoito anos. João Pijama se mudou da nossa casa e sumiu. Disseram que morreu logo em seguida.
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