Infância: um sabor de saudade… (Parte I)

A velha Rua Silvia, que tem um suave declive, nos proporciona uma das maiores emoções quando então nós, atentados moleques da Bela Vista, para lá nos dirigíamos com os nossos carrinhos de rolimãs, em mais uma disputa de velocidade.

Não diferente, nossas roupas e sapatos invariavelmente eram quase destruídos com os atritos do asfalto, quando sofríamos um pequeno acidente ou tentávamos frear nossas “máquinas” de competições.

Cascões nos joelhos e nas coxas das calças, saltos de sapatos ou solado dos “keds” que se iam e os dedos das mãos com lacerações que por vezes dava para ver até os ossos das falanges.

Por vezes, velhas senhoras com suas zangas afloradas em suas faces, aguardavam-nos com suas inseparáveis vassouras para nos atingir e tentar nos demover da idéia de correr por aquela artéria, mas, para um garoto de coragem e cheio de espírito de aventura, tudo aquilo era um desafio que tinha que ser honrado, ou ficávamos mal com a turma.

Corríamos sempre nos dias de semana útil, deixando os dias de sábados e domingos para outros. Pelo menos nisso, o pessoal deveria demonstrar uma consideração à parte, pois dxávamos os finais de semana para o sagrado descanso das famílias moradoras no local.

A bem da verdade, não éramos nós, garotos do Bixiga, um bando de desocupados. Isso não. Cada um tinha uma obrigação, mesmo que fosse doméstica.

Eu, quando não estava balhando para meu 'tio' Jabra em sua mercearia, ou, fazendo pequenos mandados para o Álvaro da farmácia, estava auxiliando em uma “assessoria especial para problemas mecânicos”, junto com o meu já falecido e muito saudoso pai, o velho senhor Fernando.

Naquela época, final da década de cinquenta e início da década de sessenta, tive o meu aprendizado com os motores de combustão interna que faziam movimentar as máquinas mais desejadas por muitos: o automóvel.

Eram Buick's, Chevrolet, Ford's, Plymouth's, Dodge's e tantos outros, além de alguns europeus como Land Rover's, Citroens, Fiat's (estes com os seus 'Topolinos'), Renault's (os 'Rabos Quentes').

Suas mecânicas eram simples por terem motores carburados e distribuição eletrônica por platinados, que eram quase sempre o epicentro dos defeitos e em alguns casos.

Outros já eram mais complexos e exigiam uma maior atenção do profissional mecânico e, em contra partida, demandavam um trabalho mais apurado e minucioso.

A gurizada do bairro, na tenra idade da inocência, extravasava suas energias com brincadeiras das mais diversas: mãe-da-rua, pula-carniça, pique-esconde, taco, cachuleta e até gincanas de conhecimentos gerais eram reproduzidas em pequena escala, o que nos ajudava, e em muito, nas atividades escolares. Quem não soubesse a resposta ou respondesse erradamente, levava uma pancada no ombro e perdia pontos, além de sofrer as gozações de todos da turma. História do Brasil, Geografia, Línguas, Educação Moral e Cívica, alguma coisa de Ciências e a intolerável Matemática, também faziam parte do currículo de perguntas e respostas.

Eu, modéstia a parte, sempre fui um garoto muito bem preparado e sempre respondia às perguntas com convicta certeza, trazendo sempre à mão alguma publicação que certificasse as minhas respostas.

(Continua…)

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